3.28.2013

pensamentos catatónicos (291)

É uma pena que os balcões dos bares estejam em vias de extinção. O balcão do café, com aqueles pequenos bancos giratórios, eram o melhor amigo do Homem, mas actualmente vivemos na ditadura das mesas de café.
Um homem quando está só, precisa tanto dum balcão de um bar como do ar para respirar. É que o balcão engrandece a solidão, uma mesa reprime-a. Um balcão é um tapete de boas-vindas a quem anda sozinho pelas ruas, uma mesa é um dedo acusador. "Estás sozinho e aqui só se sentam pessoas acompanhadas", diz-nos. É triste, mas é assim.
Quando um homem está sentado ao balcão de um café, está assumidamente só. Quando está numa mesa de café, não é possível perceber se está à espera de alguém, mas mesmo que não esteja, a tristeza é o ar que se lhe dá. As mesas de café, com uma só pessoa sentada, são um deserto de emoções.
O balcão sim, é uma verdadeira instituição de engate. O empregado de balcão, aliás, é outra. Um cliente pede uma cerveja mas compra também uma conversa sobre seja o que for, nem que seja o estado do tempo, e de repente tod@s @s solitári@s ali sentad@s estão a conversar através dele.
Foi assim que conheci a Luísa há alguns anos atrás. Sentei-me ao lado dela, deixando um lugar vazio entre nós para não parecer mal. Através do empregado, um tipo simpático de bigode ruivo, acabei por falar directamente com ela e saltar, em apenas alguns segundos, essa enorme distância dum pequeno banco giratório que nos separava. Ainda somos amigos e, uma vez por outra, ainda falamos desse dia com um misto de nostalgia e júbilo.
Hoje disseram-me que o Refúgio, o café com o maior balcão da cidade de Aveiro, já não existe. O tempo chamou-lhe velho e fechou-o. Resta-nos as trincheiras do café Ramona e da sala interior do Convívio. É uma pena. Hoje seria difícil conhecer a Luísa.

3.26.2013

conversa 2002

Ela - Já nem me lembro da última vez que me apaixonei...
Eu - Não?! Eu lembro-me das vezes todas que me apaixonei. Desde a escola primária até aos dias de hoje...
Ela - Sim, também me lembro. O que eu queria dizer é que já não me apaixono há anos.
Eu - Ah!
Ela - Os homens com que me tenho cruzado parecem-me desenxabidos. Não sei explicar muito bem... mas não há nenhum que me interesse.
Eu - Hum... e tens conhecido muitos?
Ela - Na verdade quase nem saio de casa, a não ser contigo uma vez por outra.

3.25.2013

conversa 2001

(na minha casa)

Ela - Qual é o lugar da casa mais importante para ti?
Eu - Não sei... não faço ideia.
Ela - És um sortudo, então.
Eu - Porquê?
Ela - Para mim é a casa de banho. A sanita propriamente dita.
Eu - Porquê?
Ela - Porque é o único sítio onde consigo estar longe do meu marido, e mesmo assim tive que o proibir de entrar quando lá estou. Há mínimos...
Eu - Mas queres estar longe do teu marido? Até pensava que se davam bem...
Ela - E damos, mas preciso estar longe dele na mesma. Ainda hoje lhe pedi, muito simplesmente, para tomar conta da sopa que estava a fazer enquanto eu ia à casa de banho. Acreditas que me foi bater não sei quantas vezes à porta para fazer perguntas?!
Eu - Que perguntas?
Ela - "Onde é que está a colher de pau?", "A sopa está a ferver. Desligo ou diminuo o lume?", "Passo tudo com a varinha mágica?", "Como é que se tempera a sopa?". Coisas do género...
Eu - Qual é o problema?
Ela - O problema é tu estares a perguntar-me qual é o problema. Desisto!
Eu - Não percebo.
Ela - Não percebes porque de certeza que a tua namorada não te vai fazer perguntas desnecessárias sempre que estás na casa de banho. Não percebes porque sabes o que é ter tempo só para ti, sem ninguém a chatear. Isso porque as mulheres sabem fazer tudo e os homens não sabem fazer nada.
Eu - Pronto, tem calma!
Ela - Posso ir um bocadinho à tua casa de banho sem ninguém me chatear?
Eu - Podes, podes...

3.22.2013

conversa 2000

Ela - Estou completamente apaixonada!
Eu - A sério?! Fixe! Há muito tempo que não te via com essa luz.
Ela - Acho que vou fazer uma tolice!
Eu - Que tolice?
Ela - Perco o Amor a noventa euros e compro uns sapatos que vi hoje numa montra.
Eu - Espera aí. Estás apaixonada por uns sapatos?!
Ela - Claro. Achas que ainda me consigo apaixonar por homens?
Eu - Nem sei que te diga...
Ela - Uns sapatos, pelo menos, nunca desiludem...

3.20.2013

conversa 1999

Eu - Queres um bocado de chocolate?
Ela - Não, obrigado.
Eu - Não queres?! Eu não resisto a uns quadrados dum Cadbury, de vez em quando...
Ela - Estou um bocadinho gorda e entrámos na Primavera. Não posso.
Eu - O que é que a Primavera tem a ver com isso?
Ela - Vem aí o calor e as roupas mais curtas...
Eu - Ah! Percebo...
Ela - Percebes?!
Eu - Sim, queres poder usar umas t-shirts sem se notar o pneu da barriga...
Ela - Dá-me aí um bocadinho. Estou a ficar deprimida.

respostas a perguntas inexistentes (248)

Quando se Ama, o Amor do outro nunca chega. Vai chegando, quando se é correspondido, o que é completamente diferente. Ir chegando é isso mesmo. Quer dizer que se vive com a permanente sensação de que se gosta mais do que se é gostado. É um desequilíbrio que se sente permanentemente, mesmo quando a razão nos diz que não é assim.
É por isso que ansiamos sempre por um qualquer sinal que respire Amor (um toque numa mão, um sorriso transparente, uma palavra suave ou um abraço prolongado) e, assim que ele acontece, ficamos à espera de outro que nunca mais chega. Assim que se sobe às nuvens por uns segundos, cai-se vertiginosamente na terra. De novo.
Quando o Amor perde isto, deixa de ser Amor, ainda que possa ser outra coisa qualquer desigualmente boa, ou desigualmente má. Igual, igual, não há nada.

3.18.2013

coisas que fascinam (159)

como numa nuvem

Dentro de casa havia várias goteiras e, debaixo delas, alguns baldes coloridos à espera de engolir os pingos que caíam ordenadamente do tecto. Fiquei a olhar para eles, invejando-lhes a paciência com que iam acumulando a água. A mãe da Sónia despejava-os duas ou três vezes por dia, disse-me. Depois mandou-me sentar numa cadeira que tinha uma almofada feita à mão, enquanto esperava que a minha nova amiga acordasse. Aqueci as mãos numa enorme chávena de café quente, que ela me pôs à frente, e fui bebericando tentando não fazer barulho.
Aquele era o tempo de ser feliz. Aos vinte anos, o corpo não é uma fonte de preocupações. É apenas algo de que a nossa alma usufrui. Já levava meia chávena bebida quando aquela senhora, de avental sujo por cima de dois ou três casacos de malha, mo disse enquanto sorria. Trocámos um olhar repentino do qual eu fugi primeiro. Ela sabia porque é que eu estava ali. Não era apenas pela filha dela e pelos sentimentos confusos que gerara dentro de mim. Era também pelos meus vinte anos.
A Sónia apareceu depois, ainda meio ensonada, e pediu-me desculpa por ter adormecido. Peguei num dos baldes, o vermelho, e fiz a mesma coisa que já tinha visto a mãe dela fazer com um azul: despejei-o para o pátio rapidamente e voltei a colocá-lo no mesmo sítio, onde as as primeiras gotas marcaram presença com um som seco e abrupto. Tinha-a conhecido uns dias antes e ela prometera mostrar-me grande parte da ilha da Madeira a pé, mas a inesperada chuva primaveril ameaçara estragar-nos os planos durante os dias seguintes. Apesar de tudo, com um leve corta-vento por cima de uma camisola de algodão, eu estava disposto a fazer-me à estrada, aproveitando o que parecia ser uma ligeira melhoria do tempo. Ela, ainda a emergir do sono profundo da noite, é que parecia menos entusiasmada.

- Se não quiseres vir... - disse eu.
- Vou, vou. Amanhã voltas para o continente e, afinal de contas, o prometido é devido! - respondeu ela interrompendo-me.

Saímos de casa em direcção ao ponto mais alto da ilha, por uma estrada sinuosa que escalava a montanha. Caminhámos em silêncio durante algumas horas, até ela me avisar que estávamos a entrar dentro duma nuvem. O céu, entretanto, tornara-se azul e eu vestia apenas uma t-shirt preta. Foi aí que demos as mãos, já não me lembro por iniciativa de quem. Provavelmente, e porque só o Amor permite esse tipo de sintonia entre duas pessoas, por iniciativa dos dois. Das mãos passámos a um abraço prolongado e depois aos lábios, de forma que, quando chegámos a um pequeno planalto, já cada um dos nossos corpos se tinha habituado à textura e ao calor do outro.
Sentámo-nos numa pedra com vista para os mundos. Dois mundos, mais precisamente, aquele que se estendia debaixo dos nossos pés, e também aquele que acabáramos de criar dentro de nós e do qual éramos os únicos habitantes. O do Amor, digo. Silêncio de novo.

-  Amanhã vais embora! - disse ela.
- Vou... - aceitei com um tom de derrota.

 Tenho quarenta e um anos e, ainda hoje, me lembro desse dia quando olho para cima e vejo uma nuvem qualquer isolada das outras, como se andasse à procura de alguma coisa. Sei que a Sónia foi um Amor efémero dentro duma dessas nuvens e, mesmo contra algum comichoso moralismo social, tenho a noção de que aproveitei ao máximo o meu corpo de vinte anos.
Hoje, olhando para trás, para as pequenas histórias de Amor da minha juventude, estou de facto a olhar para a frente. Na verdade, foram elas que me ajudaram a conseguir vivê-las ainda hoje, agora com a Raquel e com a certeza dos quarentas. Vou vivendo o Amor da mesma forma que a água pingava nos baldes coloridos desse dia. Sem ansiedade e, acima de tudo, como numa nuvem.

3.13.2013

conversa 1998

Ela - Olhas para as tuas mãos...
Eu - O que é que têm?
Ela - Estão secas. Será que nunca pões um creme nessa pele?
Eu - Não, nunca ponho.
Ela - Estás a gozar!
Eu - Não estou nada.
Ela - Nunca puseste um creme nas mãos?
Eu - Não.
Ela - Então como é que fazes para as hidratar?
Eu - Bebo coisas. Água, cerveja, vinho, leite, uísque...
Ela - Está explicado porque é que é tão mais fácil ser homem...

3.11.2013

respostas a perguntas inexistentes (247)

Ontem devolvi uns discos de música que uma amiga minha me tinha emprestado há uns anos. Bem... há mesmo muitos anos. Tantos anos que, durante a conversa, me apercebi que no dia em que ela mos emprestou ainda não havia internet.
Durante mais de vinte anos, sempre que mudei de casa, fiz limpezas ou reorganizei a minha colecção de música coloquei-os à parte e pensei: "tenho que devolver isto à Catarina". Durante esse tempo todo aconteceu-me tirar o curso no Porto, ter vários empregos, casar, ser pai, divorciar-me, fazer filmes, casar de novo, etc. Foram mais de vinte anos de vida com um montinho de dois cds à parte, à espera de os devolver à proveniência.
Devolvi-os ontem, durante um encontro efémero num bar em Aveiro. Por dois ou três minutos, enquanto a ouvi falar, foi como se o tempo não tivesse passado. Apesar de tudo, por dentro, não deixei de pensar em como a Catarina foi branda comigo. Eu não deixaria ninguém, durante mais de vinte anos, ter dois cds meus lá em casa sem mos devolver. Às vezes acho que é uma competência exclusivamente feminina, esta. Ainda por cima, devolvi-lhos como se não fosse nada.

- Aqui estão os cds que me emprestaste há alguns anos! - disse.
- Já eram teus por direito. - respondeu, antes de dar um primeiro gole numa cerveja.

A conversa continuou noutras direcções. Em todo o caso, estava agora mesmo a organizar os meus cds e reparei que me esqueci de os gravar para mim...

3.08.2013

Dia Internacional da Mulher

Amanhã, e nos outros dias que se seguirem, enquanto eu estiver vivo, continuarei  a lutar pela igualdade entre géneros no que diz respeito às condições de vida e de trabalho. E sobre este dia, é só o que tenho para dizer.

conversa 1997

Ela - O meu marido manda-me calar várias vezes, sem sequer dar por isso.
Eu - Manda-te calar?
Ela - Sim, em conversas com amigos, por exemplo. De repente sai-lhe um "tá calada!" e depois continua como se nada fosse. Detesto isso. Ainda ontem me aconteceu num jantar...
Eu - Se dizes que ele nem dá por isso, talvez devesses avisá-lo de que ele o faz, se calhar inconscientemente...
Ela - Não percebes mesmo nada de mulheres, pois não?
Eu - Mas porquê?
Ela - O que me incomoda, precisamente, é ele nem dar por isso. É-lhe natural mandar-me calar e pôr-me para segundo plano. Acho que a única saída disto vai ser o divórcio.
Eu - Divórcio?! Não estarás a exagerar?
Ela - Está calado.

3.05.2013

não desisto

São dez da manhã e estou à espera de ser atendido no Centro de Emprego. Não faço a mínima ideia que só vou sair dali às quatro e vinte da tarde, depois de uma longa e inesperada espera. Hoje foi este o meu dia.
Tenho na mão uma capa com toda a papelada que acumulei desde que caí nas malhas do desemprego, incluindo todo o processo que vou levar a tribunal, mais o primeiro volume de 1Q84, do Haruki  Murakami, que a minha namorada me ofereceu. Nunca agradeci tanto um presente, acho eu.
Já li, aliás, cerca de cem páginas do livro quando o meu estômago começa a dar os primeiros sinais de apetite. Tenho a senha B091 e vai na B034. É uma da tarde. Passo em revista quase todas as caras das pessoas que se amontoam naquele espaço exíguo, algumas em pé, outras sentadas. Há alguns sorrisos que me parecem esforçados, há ausência na maior parte dos rostos e, para piorar, sinais de evidente derrota em alguns deles.
O homem ao meu lado, por exemplo, que deve ter uma idade a rondar os sessenta anos, está ferido num olho e sua tristeza por todo o corpo. Tira um bocado de pão do bolso esquerdo e come-o em pequenos pedaços, sem mais nada, escondendo-o dos demais. Não é por medo que lho roubem. É, parece-me, para preservar alguma eventual réstia de dignidade que ainda tenha.
Algumas vozes, ainda que contidas, protestam com as funcionárias que vão chamando lentamente os utentes. Chamam-lhes preguiçosas das mais diversas maneiras mas, em abono da verdade, acho injusto. Não vi nenhuma parada. Sei por experiência própria que alguns processos são bastante demorados. Não deixa é de ser curioso que, onde há tantos desempregados à espera de vez, não empreguem mais ninguém para atender. Rio-me, para dentro, do meu próprio país. Tenho pena de o fazer.
Sinto um toque no joelho. É uma criança que olha, babada, para o chocolate que entretanto abri. Parto uma porção generosa para lhe dar, mas primeiro procuro a autorização no olhar da mãe, que está algumas cadeiras ao meu lado. Ela abana ombros, consentindo com vergonha. A criança agradece, sem saber que eu é que lhe agradeço ainda mais. A mãe tem uns olhos tão bonitos que parecem um oásis naquele deserto de emoções. São negros, e fico com a sensação de que é impossível adivinhar o que está por trás deles. Apaixono-me por dois minutos. Valeu a pena o chocolate. A criança afasta-se.
Fixo os olhos no chão, como que para fugir dali por uns momentos, apesar da noção de que é impossível esconder-me. Fixo uns sapatos cujas solas estão quase todas descoladas. Parecem bocas abertas e, como tal, gritam em silêncio. É o que eu estou a fazer, a gritar em silêncio. A pobreza é pornográfica e está ali, à vista de todos sem chocar ninguém. É chocante.
Não desisto, penso. Chegou a minha vez de ser atendido. Chegará a nossa vez de viver.

3.03.2013

conversa 1996

Ela - A tua cadela é tão gira!
Eu - É! Agora está gira, sim. Quando a fui buscar ao canil estava muito maltratada e nem eu próprio percebi que ela era tão gira.
Ela - O que é que lhe fizeste, então?
Eu - Nada. Dou-lhe água, comida e levo-a à rua de vez em quando. Uma vez por outra dou-lhe banho.
Ela - Pois... era o que eu precisava que alguém me fizesse. 
Eu - O quê?
Ela - Que me dessem água, comida e me levassem à rua de vez em quando. O banho, uma vez por outra, também podia ser...

2.26.2013

jantar inesperado

Foi dos encontros mais esquisitos que já tive com uma mulher. Não por causa dela, note-se, mas sim por causa dum amigo meu que estava apaixonadíssimo por ela. Eu nem sequer a conhecia pessoalmente. Apenas tinha ouvido falar bastante dela, através dele.
No trabalho, sempre que fazíamos o mesmo turno, ele não falava doutra coisa. Era a Dora para aqui, a Dora para ali. Enfim, não se calava com a Dora. O problema é que esse amigo meu era bastante tímido e não tinha a coragem de dar o primeiro passo. Eram os dois frequentadores do mesmo ginásio e ele até já ficava à espera que ela chegasse, para poder entrar, de forma disfarçada, mais ou menos ao mesmo tempo. Depois tentava correr numa passadeira perto dela, frequentar as mesmas aulas de exercícios que ela, etc, mas nunca lhe dirigia a palavra. Fora isso, passava o tempo todo do trabalho a falar-me dela.
Um dia lá acabou por ter coragem, penso que por ela lhe ter sorrido timidamente, e aproximou-se para a convidar a jantar fora. Só que na hora da verdade enfraqueceu e acabou por lhe dizer qualquer coisa do género: "tenho um amigo que não conheces, mas que me pediu para te perguntar se aceitas ir jantar com ele". E foi assim que acabei, num sábado ao fim da tarde, num restaurante do Porto à espera duma mulher que nunca tinha visto na vida.
Cheguei primeiro e fui bebendo uma cerveja na mesa reservada para nós. O plano improvisado era, depois do jantar, conseguir levá-la a um bar na Ribeira onde ele estaria. Quando ela se aproximou e me perguntou se eu era eu, admito que senti uma choque na espinha. Era realmente bonita e atraente. Além disso, tinha uma voz que parecia um violino sempre afinado. Tinha os cabelos relativamente curtos e loiros, uns olhos verdes do tamanho do mundo e os lábios ligeiramente sobressaídos. Sentou-se e começou a falar abertamente comigo, com um à vontade espontâneo e sedutor, enquanto eu me encolhia cada vez mais na cadeira e me refugiava nos copos que ia bebendo. 
Para além de uma beleza rara, era também capaz de falar de tudo e mais alguma coisa, mesmo daquilo que admitia não conhecer muito bem. Para mim, isso era apaixonante. Acabei por ser um ouvinte durante toda a noite e por esquecer completamente o meu amigo que, entretanto, era suposto estar à minha espera no bar. Não foi uma atitude consciente. Apenas fiquei como que hipnotizado e, quando dei por mim, estava com ela noutro numa discoteca qualquer, penso que em Leça da Palmeira. Só me lembrei dele quando, já a noite ia longa, ela me perguntou por ele. 

- Então não chamas o Daniel para vir cá ter? - perguntou.
- Posso chamar... - respondi, já sem saber o que fazer.
- É claro que eu não acredito que o jantar era para ser contigo. Ele é que é um tímido e um trapalhão. Até pensei que vocês tinham um esquema para ele se encontrar comigo depois do jantar...

Acabei por lhe confessar que me tinha esquecido totalmente do meu amigo e que, àquela hora, provavelmente ele estava com vontade de me matar num bar da Ribeira. Peguei no telefone e reparei que tinha uma chamada dele não atendida. Depois telefonei-lhe insistentemente e ele não atendeu. Acabei por desistir e sentir-me um bocado mal com tudo aquilo.
A Dora reparou que eu estava alterado, foi buscar duas cervejas e sentou-se ao meu lado, como que à espera que eu lhe contasse o meu problema. Contei-lhe tudo, incluindo que não sabia como é que ia enfrentar o meu amigo dois dias depois, no trabalho, e dizer-lhe simplesmente: "desculpa lá! esqueci-me completamente de ti no outro dia porque a miúda era mesmo gira e eu perdi a capacidade de raciocínio".

- Não faz mal! - disse ela - A mim tiraste-me duma situação que podia ser embaraçosa, porque eu não gosto dele. Aliás, nem dele nem de ti. Só aceitei jantar para me divertir à vossa custa um bocadinho. Para te ser sincera, eu nem sequer me apaixono por homens. Só por mulheres.

Tive um ataque de riso. Ela também. Nesses tempos acabou por ser uma das minhas melhores amigas, e eu acabei por contar tudo ao Daniel, que no princípio amuou durante algum tempo, mas depois acabou por esquecer o assunto.

2.22.2013

conversa 1995

Ela - Precisei chegar aos quarenta para deixar de ter problemas com homens.
Eu - Maturidade?
Ela - Solidão. Com esta idade já ninguém me quer...
Eu - Lá vem essa história da carochinha...
Ela - Da carochinha?
Eu - Sim. Falas como se só as mulheres envelhecessem.
Ela - Os homens envelhecem no corpo, mas na mentalidade não. Tens razão... também é uma questão de maturidade.

2.20.2013

cartuchos

Existe alguma incompatibilidade entre o céu e a estrada. No céu, que parece pintado do mesmo tom de azul até à linha do horizonte, não há uma única nuvem; a Nacional 109, por outro lado, está repleta de automóveis. É como se lá em cima houvesse mais espaço para respirar do que cá em baixo, pensa Irina enquanto o taxista desliga a ignição dum Mercedes Benz 240. Ela percebe que o motor do automóvel adormeceu, mas não quer entrar em conversa com o condutor até que a música chegue ao fim. Está a passar Be My Babe, dos Ronettes, e ela ouve cada nota com os olhos postos lá em cima, na vida.
Depois a música chega ao fim.

- Não creio que o trânsito retome a marcha tão cedo! - diz o taxista que, pelos vistos, também estava à espera que a música acabasse.

Irina continua sem vontade de falar. Contempla o interior do automóvel, provavelmente construído nos anos sessenta, passando os olhos pelos luxuosos estofos de pele que ainda reluzem como novos. Depois olha para o painel de instrumentos e repara que não conhece o sistema de reprodução de som que agora já está a tocar Walking In The Rain.

- Que é isso que estou a ouvir? - Pergunta.
- Ronettes.
- Estou a perguntar pelo aparelho.
- É um leitor de cartuchos. O primeiro que veio para Portugal, logo em 1964, ano em que foram fabricados os primeiros... - o taxista é, nitidamente, alguém muito orgulhoso do seu próprio carro.
- Bonito! - Ela gostava de ter alguma coisa para dizer, mas a verdade é que não lhe surge nada.

Ouvem-se algumas buzinas desesperadas. Em alguns automóveis, os passageiros e condutores já abriram as portas para poderem esticar as pernas. Um pouco mais à frente, a uns três carros de intervalo, uma mulher abriu uma melancia e distribui pedaços por uma série de crianças. Mesmo ao lado, um homem de barba e óculos escuros devora cigarros que vai mordendo nervosamente. Irina pergunta-se quantas pessoas daquela enorme fila de automóveis já terão reparado no céu azul. Talvez nenhuma, responde em silêncio.
Nunca tinha falado com um taxista antes. Para além de serem raras as vezes em que entra num táxi, nunca lhe deu para dar confiança aos condutores, dada a sua primeira experiência uns anos antes. Um homem de meia idade e com um cheiro a suor azedo tentou levá-la para um hotel. Não forçou nada fisicamente, mas a parte verbal foi suficiente para a deixar desgastada. No entanto, este parece-lhe diferente. É mais velho, mas não é bem por isso. Alguém que tem um carro daqueles tão cuidado e que ainda ouve música em cartuchos não pode ser má pessoa. 

- Está com muita pressa? - Pergunta ele.
- Nem sei...

Na verdade, ela não sabe mesmo que pressa tem. É Domingo, zangou-se com o marido, saiu de casa e apanhou um táxi que ia a passar. Pediu para ir para o primeiro sítio que se lembrou, nos subúrbios da cidade, e agora está ali presa no trânsito, provavelmente por causa dum acidente qualquer. Foram uma série de impulsos sucessivos que a levaram a estar ali agora, mas sente-se recompensada por ter aprendido o que é um cartucho e ter experimentado a audição de um, ainda por cima num automóvel daqueles. Por impulso também, decide confiar pela primeira vez num taxista e conta-lhe a história.
Repara agora que ele tem um pescoço razoavelmente gordo, que começa a pingar algumas gotas de suor. Os seus olhares trocam-se pela primeira vez, mas através do velho espelho retrovisor.

- Se não está com pressa para ir a lado nenhum, só tem duas alternativas - afirma ele.
- Quais?
- Ou passa grande parte da tarde aqui comigo a ouvir música dos anos sessenta, ou sai e volta para trás a pé. No segundo caso, só lhe cobro a viagem até aqui.

Existe alguma incompatibilidade entre o céu e a estrada. O céu parece fresco e vigilante; o alcatrão quente da estrada, por seu lado, parece derreter a cada passo duma mulher que caminha entre centenas de automóveis parados. Ela não sabem bem porquê, mas cada vez que avista um Peugeot 405 branco examina com atenção a face do condutor. Pode ser o seu companheiro.

2.14.2013

conversa 1994

Ela - O que é compraste à tua namorada no Dia dos Namorados?
Eu - Um automóvel descapotável de dois lugares.
Ela - A sério?!
Eu - Não, claro que não. Na verdade não comprei nada. Eu não ligo nada a este dia. Ligo mais ao dia em que a conheci...
Ela - Não me venhas com essa conversa de que este é só um dia comercial e blá blá blá...
Eu - Para mim é mesmo só isso.
Ela - És pouco romântico.
Eu - Talvez. E tu compraste o quê, ao teu marido?
Ela - Nada.
Eu - Nada?!
Ela - Ele já não é meu namorado. É meu marido. Faz toda a diferença.

2.13.2013

conversa 1993

(ao telefone)

Ela - Só para te dizer que não podemos tomar café. Estou com uma gripe fortíssima. Hoje até já me sinto melhor, mas tenho medo de te contagiar...
Eu - Okay. Obrigado por avisares.
Ela - Okay?!
Eu - Sim. Nesse caso o café fica desmarcado, não é?
Ela - Estou fechada em casa, de molho, há uma semana. Apetece-me tanto sair...
Eu - Então e o contágio?
Ela - Eu levo um lenço para pôr à frente da boca quando espirrar.
Eu - Então sempre queres tomar café?
Ela - Sim.

2.10.2013

O que se pode fazer com a vagina?

(enviaram-me isto pela net)

2.08.2013

respostas a perguntas inexistentes (246)




Às vezes vou a casa duma amiga minha beber uma caneca de chá. Digo-o assim porque, por mais tempo que passe, é sempre para um chá que ela me convida. Seja de manhã, à tarde ou à noite, telefona-me de vez em quando e pergunta-me se quero ir beber chá. Admito que, não sendo um grande adepto dessa bebida, gosto muito do que ela faz e bebo-a com uma dose acrescentada de prazer. Não sei como é que ela faz, mas sei que para além de mergulhar a saqueta com uma planta qualquer na água a ferver, acrescenta ainda mais alguns ingredientes. Canela é um deles.
Há uns tempos, por qualquer motivo, acabou o assunto entre nós assim que ela me deu uma segunda caneca para beber. Eu tinha acabado de lhe dizer que gostava muito do chá dela, especialmente em noites frias como aquela, e ela tinha-me perguntado se eu queria aprender como é que se fazia.

- Não. - Respondi.

Não se sentiu ofendida. Calou-se, tal como eu, e encostou-se para trás no grande sofá da sala. Fez-se silêncio. Bebi todo aquele líquido saboroso em pequenos e delicados goles, para não fazer barulho. Não sei quanto tempo demorei, mas talvez uns quinze ou vinte minutos. O que eu sei é que foram quinze ou vinte minutos de tranquilidade total. Conseguia ouvir o respirar dela e, penso eu, o meu próprio bater do coração.
Depois, quando a caneca chegou ao fim, lá lhe expliquei porque é que não queria aprender a fazer o chá.

- Mesmo que me ensinasses a fazer este chá e mesmo que o conseguisse fazer da mesma forma, nunca ia ser igual. Já me habituei a bebê-lo aqui na tua casa, e é a estes momentos que eu associo este sabor e este conforto.

Ela sorriu. Percebeu, ou fingiu perceber, o que eu lhe tinha dito. Despedi-me e saí passado pouco tempo. No caminho para casa, de mãos nos bolsos e o casaco apertado até ao queixo para me proteger do frio, fui a pensar em como é confortável ter momentos destes. Pensei que nunca na vida conseguiria explicar a alguém a sua importância, até porque dizer que um dos momentos especiais que se tem na vida é quando se vai beber chá a casa duma amiga, pode parecer bizarro.
Foi nessa noite que decidi voltar a brincar com sons e experimentar fazer umas músicas. Estive até às quatro ou cinco da manhã a trabalhar e, assim que acabei, encontrei a minha amiga online no facebook. Mandei-lhe o mp3 por email e perguntei-lhe se ela conseguia ouvir tudo até ao fim.
Esperei uns minutos. Os cinco minutos e três segundos que a música tem e mais um bocado, sempre a olhar para o espaço em branco onde as letras escritas por ela apareceriam supostamente em qualquer altura. Era como se estivesse a olhar para o futuro e ele não quisesse ser presente.
Depois, por fim, ouvi o sinal de que tinha mensagem nova no facebook.

- É esquisita! - escreveu. - mas eu gostava de saber fazer músicas assim.
- Queres que eu te ensine a trabalhar com o software? - Perguntei.
- Não.

Não me explicou porquê.

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