2.26.2013

jantar inesperado

Foi dos encontros mais esquisitos que já tive com uma mulher. Não por causa dela, note-se, mas sim por causa dum amigo meu que estava apaixonadíssimo por ela. Eu nem sequer a conhecia pessoalmente. Apenas tinha ouvido falar bastante dela, através dele.
No trabalho, sempre que fazíamos o mesmo turno, ele não falava doutra coisa. Era a Dora para aqui, a Dora para ali. Enfim, não se calava com a Dora. O problema é que esse amigo meu era bastante tímido e não tinha a coragem de dar o primeiro passo. Eram os dois frequentadores do mesmo ginásio e ele até já ficava à espera que ela chegasse, para poder entrar, de forma disfarçada, mais ou menos ao mesmo tempo. Depois tentava correr numa passadeira perto dela, frequentar as mesmas aulas de exercícios que ela, etc, mas nunca lhe dirigia a palavra. Fora isso, passava o tempo todo do trabalho a falar-me dela.
Um dia lá acabou por ter coragem, penso que por ela lhe ter sorrido timidamente, e aproximou-se para a convidar a jantar fora. Só que na hora da verdade enfraqueceu e acabou por lhe dizer qualquer coisa do género: "tenho um amigo que não conheces, mas que me pediu para te perguntar se aceitas ir jantar com ele". E foi assim que acabei, num sábado ao fim da tarde, num restaurante do Porto à espera duma mulher que nunca tinha visto na vida.
Cheguei primeiro e fui bebendo uma cerveja na mesa reservada para nós. O plano improvisado era, depois do jantar, conseguir levá-la a um bar na Ribeira onde ele estaria. Quando ela se aproximou e me perguntou se eu era eu, admito que senti uma choque na espinha. Era realmente bonita e atraente. Além disso, tinha uma voz que parecia um violino sempre afinado. Tinha os cabelos relativamente curtos e loiros, uns olhos verdes do tamanho do mundo e os lábios ligeiramente sobressaídos. Sentou-se e começou a falar abertamente comigo, com um à vontade espontâneo e sedutor, enquanto eu me encolhia cada vez mais na cadeira e me refugiava nos copos que ia bebendo. 
Para além de uma beleza rara, era também capaz de falar de tudo e mais alguma coisa, mesmo daquilo que admitia não conhecer muito bem. Para mim, isso era apaixonante. Acabei por ser um ouvinte durante toda a noite e por esquecer completamente o meu amigo que, entretanto, era suposto estar à minha espera no bar. Não foi uma atitude consciente. Apenas fiquei como que hipnotizado e, quando dei por mim, estava com ela noutro numa discoteca qualquer, penso que em Leça da Palmeira. Só me lembrei dele quando, já a noite ia longa, ela me perguntou por ele. 

- Então não chamas o Daniel para vir cá ter? - perguntou.
- Posso chamar... - respondi, já sem saber o que fazer.
- É claro que eu não acredito que o jantar era para ser contigo. Ele é que é um tímido e um trapalhão. Até pensei que vocês tinham um esquema para ele se encontrar comigo depois do jantar...

Acabei por lhe confessar que me tinha esquecido totalmente do meu amigo e que, àquela hora, provavelmente ele estava com vontade de me matar num bar da Ribeira. Peguei no telefone e reparei que tinha uma chamada dele não atendida. Depois telefonei-lhe insistentemente e ele não atendeu. Acabei por desistir e sentir-me um bocado mal com tudo aquilo.
A Dora reparou que eu estava alterado, foi buscar duas cervejas e sentou-se ao meu lado, como que à espera que eu lhe contasse o meu problema. Contei-lhe tudo, incluindo que não sabia como é que ia enfrentar o meu amigo dois dias depois, no trabalho, e dizer-lhe simplesmente: "desculpa lá! esqueci-me completamente de ti no outro dia porque a miúda era mesmo gira e eu perdi a capacidade de raciocínio".

- Não faz mal! - disse ela - A mim tiraste-me duma situação que podia ser embaraçosa, porque eu não gosto dele. Aliás, nem dele nem de ti. Só aceitei jantar para me divertir à vossa custa um bocadinho. Para te ser sincera, eu nem sequer me apaixono por homens. Só por mulheres.

Tive um ataque de riso. Ela também. Nesses tempos acabou por ser uma das minhas melhores amigas, e eu acabei por contar tudo ao Daniel, que no princípio amuou durante algum tempo, mas depois acabou por esquecer o assunto.

2.22.2013

conversa 1995

Ela - Precisei chegar aos quarenta para deixar de ter problemas com homens.
Eu - Maturidade?
Ela - Solidão. Com esta idade já ninguém me quer...
Eu - Lá vem essa história da carochinha...
Ela - Da carochinha?
Eu - Sim. Falas como se só as mulheres envelhecessem.
Ela - Os homens envelhecem no corpo, mas na mentalidade não. Tens razão... também é uma questão de maturidade.

2.20.2013

cartuchos

Existe alguma incompatibilidade entre o céu e a estrada. No céu, que parece pintado do mesmo tom de azul até à linha do horizonte, não há uma única nuvem; a Nacional 109, por outro lado, está repleta de automóveis. É como se lá em cima houvesse mais espaço para respirar do que cá em baixo, pensa Irina enquanto o taxista desliga a ignição dum Mercedes Benz 240. Ela percebe que o motor do automóvel adormeceu, mas não quer entrar em conversa com o condutor até que a música chegue ao fim. Está a passar Be My Babe, dos Ronettes, e ela ouve cada nota com os olhos postos lá em cima, na vida.
Depois a música chega ao fim.

- Não creio que o trânsito retome a marcha tão cedo! - diz o taxista que, pelos vistos, também estava à espera que a música acabasse.

Irina continua sem vontade de falar. Contempla o interior do automóvel, provavelmente construído nos anos sessenta, passando os olhos pelos luxuosos estofos de pele que ainda reluzem como novos. Depois olha para o painel de instrumentos e repara que não conhece o sistema de reprodução de som que agora já está a tocar Walking In The Rain.

- Que é isso que estou a ouvir? - Pergunta.
- Ronettes.
- Estou a perguntar pelo aparelho.
- É um leitor de cartuchos. O primeiro que veio para Portugal, logo em 1964, ano em que foram fabricados os primeiros... - o taxista é, nitidamente, alguém muito orgulhoso do seu próprio carro.
- Bonito! - Ela gostava de ter alguma coisa para dizer, mas a verdade é que não lhe surge nada.

Ouvem-se algumas buzinas desesperadas. Em alguns automóveis, os passageiros e condutores já abriram as portas para poderem esticar as pernas. Um pouco mais à frente, a uns três carros de intervalo, uma mulher abriu uma melancia e distribui pedaços por uma série de crianças. Mesmo ao lado, um homem de barba e óculos escuros devora cigarros que vai mordendo nervosamente. Irina pergunta-se quantas pessoas daquela enorme fila de automóveis já terão reparado no céu azul. Talvez nenhuma, responde em silêncio.
Nunca tinha falado com um taxista antes. Para além de serem raras as vezes em que entra num táxi, nunca lhe deu para dar confiança aos condutores, dada a sua primeira experiência uns anos antes. Um homem de meia idade e com um cheiro a suor azedo tentou levá-la para um hotel. Não forçou nada fisicamente, mas a parte verbal foi suficiente para a deixar desgastada. No entanto, este parece-lhe diferente. É mais velho, mas não é bem por isso. Alguém que tem um carro daqueles tão cuidado e que ainda ouve música em cartuchos não pode ser má pessoa. 

- Está com muita pressa? - Pergunta ele.
- Nem sei...

Na verdade, ela não sabe mesmo que pressa tem. É Domingo, zangou-se com o marido, saiu de casa e apanhou um táxi que ia a passar. Pediu para ir para o primeiro sítio que se lembrou, nos subúrbios da cidade, e agora está ali presa no trânsito, provavelmente por causa dum acidente qualquer. Foram uma série de impulsos sucessivos que a levaram a estar ali agora, mas sente-se recompensada por ter aprendido o que é um cartucho e ter experimentado a audição de um, ainda por cima num automóvel daqueles. Por impulso também, decide confiar pela primeira vez num taxista e conta-lhe a história.
Repara agora que ele tem um pescoço razoavelmente gordo, que começa a pingar algumas gotas de suor. Os seus olhares trocam-se pela primeira vez, mas através do velho espelho retrovisor.

- Se não está com pressa para ir a lado nenhum, só tem duas alternativas - afirma ele.
- Quais?
- Ou passa grande parte da tarde aqui comigo a ouvir música dos anos sessenta, ou sai e volta para trás a pé. No segundo caso, só lhe cobro a viagem até aqui.

Existe alguma incompatibilidade entre o céu e a estrada. O céu parece fresco e vigilante; o alcatrão quente da estrada, por seu lado, parece derreter a cada passo duma mulher que caminha entre centenas de automóveis parados. Ela não sabem bem porquê, mas cada vez que avista um Peugeot 405 branco examina com atenção a face do condutor. Pode ser o seu companheiro.

2.14.2013

conversa 1994

Ela - O que é compraste à tua namorada no Dia dos Namorados?
Eu - Um automóvel descapotável de dois lugares.
Ela - A sério?!
Eu - Não, claro que não. Na verdade não comprei nada. Eu não ligo nada a este dia. Ligo mais ao dia em que a conheci...
Ela - Não me venhas com essa conversa de que este é só um dia comercial e blá blá blá...
Eu - Para mim é mesmo só isso.
Ela - És pouco romântico.
Eu - Talvez. E tu compraste o quê, ao teu marido?
Ela - Nada.
Eu - Nada?!
Ela - Ele já não é meu namorado. É meu marido. Faz toda a diferença.

2.13.2013

conversa 1993

(ao telefone)

Ela - Só para te dizer que não podemos tomar café. Estou com uma gripe fortíssima. Hoje até já me sinto melhor, mas tenho medo de te contagiar...
Eu - Okay. Obrigado por avisares.
Ela - Okay?!
Eu - Sim. Nesse caso o café fica desmarcado, não é?
Ela - Estou fechada em casa, de molho, há uma semana. Apetece-me tanto sair...
Eu - Então e o contágio?
Ela - Eu levo um lenço para pôr à frente da boca quando espirrar.
Eu - Então sempre queres tomar café?
Ela - Sim.

2.10.2013

O que se pode fazer com a vagina?

(enviaram-me isto pela net)

2.08.2013

respostas a perguntas inexistentes (246)




Às vezes vou a casa duma amiga minha beber uma caneca de chá. Digo-o assim porque, por mais tempo que passe, é sempre para um chá que ela me convida. Seja de manhã, à tarde ou à noite, telefona-me de vez em quando e pergunta-me se quero ir beber chá. Admito que, não sendo um grande adepto dessa bebida, gosto muito do que ela faz e bebo-a com uma dose acrescentada de prazer. Não sei como é que ela faz, mas sei que para além de mergulhar a saqueta com uma planta qualquer na água a ferver, acrescenta ainda mais alguns ingredientes. Canela é um deles.
Há uns tempos, por qualquer motivo, acabou o assunto entre nós assim que ela me deu uma segunda caneca para beber. Eu tinha acabado de lhe dizer que gostava muito do chá dela, especialmente em noites frias como aquela, e ela tinha-me perguntado se eu queria aprender como é que se fazia.

- Não. - Respondi.

Não se sentiu ofendida. Calou-se, tal como eu, e encostou-se para trás no grande sofá da sala. Fez-se silêncio. Bebi todo aquele líquido saboroso em pequenos e delicados goles, para não fazer barulho. Não sei quanto tempo demorei, mas talvez uns quinze ou vinte minutos. O que eu sei é que foram quinze ou vinte minutos de tranquilidade total. Conseguia ouvir o respirar dela e, penso eu, o meu próprio bater do coração.
Depois, quando a caneca chegou ao fim, lá lhe expliquei porque é que não queria aprender a fazer o chá.

- Mesmo que me ensinasses a fazer este chá e mesmo que o conseguisse fazer da mesma forma, nunca ia ser igual. Já me habituei a bebê-lo aqui na tua casa, e é a estes momentos que eu associo este sabor e este conforto.

Ela sorriu. Percebeu, ou fingiu perceber, o que eu lhe tinha dito. Despedi-me e saí passado pouco tempo. No caminho para casa, de mãos nos bolsos e o casaco apertado até ao queixo para me proteger do frio, fui a pensar em como é confortável ter momentos destes. Pensei que nunca na vida conseguiria explicar a alguém a sua importância, até porque dizer que um dos momentos especiais que se tem na vida é quando se vai beber chá a casa duma amiga, pode parecer bizarro.
Foi nessa noite que decidi voltar a brincar com sons e experimentar fazer umas músicas. Estive até às quatro ou cinco da manhã a trabalhar e, assim que acabei, encontrei a minha amiga online no facebook. Mandei-lhe o mp3 por email e perguntei-lhe se ela conseguia ouvir tudo até ao fim.
Esperei uns minutos. Os cinco minutos e três segundos que a música tem e mais um bocado, sempre a olhar para o espaço em branco onde as letras escritas por ela apareceriam supostamente em qualquer altura. Era como se estivesse a olhar para o futuro e ele não quisesse ser presente.
Depois, por fim, ouvi o sinal de que tinha mensagem nova no facebook.

- É esquisita! - escreveu. - mas eu gostava de saber fazer músicas assim.
- Queres que eu te ensine a trabalhar com o software? - Perguntei.
- Não.

Não me explicou porquê.

USDA no Facebook USDA no Bandcamp

2.06.2013

conversa 1992

(ao telefone)

Ela - Já não te vejo há tanto tempo. Podemos tomar café amanhã à noite?
Eu - Podemos. Por acaso vou estar em Aveiro e sem nada para fazer.
Ela - Que pena. É que eu já tenho um jantar marcado...
Eu - Mas...
Ela - Depois ligo-te. Marcamos para outra altura!

2.04.2013

respostas a perguntas inexistentes (245)

Porque é que se fazem bolos?

Acho que foi ali que fiz os meu primeiros desenhos a sério, nos vidros embaciados da marquise da casa onde cresci. Comecei por fazer simples smiles, com um único círculo à volta de duas pintas a fazer de olhos e um traço a fazer de boca que sorri. Depois disso, lembro-me de chegar a pegar no velho escadote de alumínio que o meu pai usava para trocar lâmpadas, para conseguir chegar aos vidros mais altos. Desenhava paisagens com montes, ruas, casas, árvores, aviões  e nuvens. 
O que aprendi nesses vidros, no entanto, não foi a desenhar. Foi sim a perceber como as coisas da vida podem ser efémeras. Os desenhos ficavam lá apenas algumas horas, às vezes minutos, até as janelas perderem toda a humidade.
Houve um dia em que esperei ansiosamente que a minha mãe chegasse para almoçar, para lhe mostrar o enorme desenho que tinha feito durante toda a manhã. No entanto, a minha obra de arte não chegou até ao meio-dia.
Para compensar a minha tristeza, a minha mãe fez um bolo com uma cobertura de chocolate e deixou-me lamber a taça onde tinha feito a massa. Porque é que se faziam bolos era, aliás,outra coisa que não percebia muito bem. A massa sabia-me muito melhor antes de ir ao forno. Era mais doce e tinha uma textura mais consistente.
Com o tempo, ou melhor, com a idade, acabei por resolver ambas as questões. Por um lado passei a desenhar em papel, normalmente nuns cadernos baratos que comprava numa mercearia ao pé de casa; por outro, já num estado de jovem adulto, aprendi a fazer diversos tipos de bolos e passei a apreciar mais o produto final do que a massa em si.

Para meu desespero, as pilhas do walkman acabaram muito antes do comboio chegar a Lisboa. Para piorar a situação, devido a um acidente qualquer na linha, a composição estava parada muito perto de Pombal há mais de uma hora e não havia maneira de retomar o percurso. Tirei a cassete do aparelho e guardei-a numa velha mochila Monte Campo que, à data, era uma espécie de minha companheira de vida. Dela tirei um caderno de folhas brancas por estrear e uma esferográfica preta, para me ajudar a matar o tempo com desenhos.
Viajava no centro da carruagem dum Intercidades que ia lotado e, por isso, levava um passageiro ao meu lado e dois à minha frente, virados para mim. 
Ao meu lado esquerdo seguia um homem de fato e gravata, provavelmente dedicado a pequenos negócios. Assim sentado, lembro-me que as calças lhe ficavam exageradamente curtas e a gravata vermelha parecia não lhe ser natural, mais ou menos como se alguém tivesse amarrado um pano colorido à volta do galho morto duma árvore. Ia calado e assim continuou toda a viagem.
À minha frente ia uma mulher com o filho. Ela aparentava ter mais uns dez anos do que eu, que tinha pouco mais de vinte na altura, e mostrava sinais de cansaço com o facto do miúdo não parar quieto. Olhei para ela de relance e achei-a bonita, mas com uns traços faciais que lhe tiravam personalidade. Enfim, como se fosse um corpo bonito sem alma. Assim que comecei a desenhar, senti o peso dos olhos dele na minha mão. 

- Mãe! Quero uma caneta e um papel! - Ordenou ele.
- Não tenho. Pára quieto, por favor, que estou a perder  paciência. - Pediu ela.

As janelas do comboio estavam já, nessa altura, totalmente embaciadas, e ele começou a fazer desenhos no vidro. O primeiro de todos foi um smile, tal como aqueles que eu fazia em criança. Parei de desenhar e passei-lhe a minha caneta e o meu caderno para as mãos, explicando-lhe exactamente o meu desespero de criança por os desenhos nos vidros durarem tão pouco. Ele começou a fazer alguns riscos no meu caderno e continuou, mais calmo, a falar comigo.
A mãe, mais aliviada, acabou por entrar na conversa, Primeiro pensei que fosse apenas para me aliviar um pouco da pressão dum miúdo que fazia várias perguntas por minuto. Porque é os vidros embaciam? Porque é que as canetas escrevem? Porque é que o comboio não anda? Porque é que o pai nos abandonou? Foi assim que percebi que ela estava divorciada. 
Quando o comboio começou a andar, finalmente, já éramos amigos. Descobri que eu e ele tínhamos uma coisa em comum. Também ele, criança com sete anos de idade, preferia a massa dos bolos aos bolos propriamente ditos. E assim fez uma última pergunta.

- Porque é que se fazem bolos?

Expliquei-lhe a minha relação com a doçaria. Como é que passei de um estágio ao outro ao nível de bolos domésticos e como é que ele podia fazer um simples e delicioso bolo de chocolate. A mãe convidou-me para ir a casa deles fazer um  bolo desses, para lhe demonstrar porque é que se fazem bolos. E foi assim que conheci a Cristina...

2.01.2013

conversa 1991

(no Toys 'r' Us)

Eu - Boa tarde. Tem fantasias para o Carnaval do Super Mário?
Ela - Do Super Mário acho que já não temos nada. Só do outro...
Eu - O Luigi?! Também serve...
Ela - De qualquer maneira para o seu tamanho não temos nada.
Eu - Hum... é para uma criança de oito anos. Não é para mim.
Ela - Ah! Então procure ali naquelas prateleiras, por favor.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

1.31.2013

conversa 1990

Ela - Adoro mesmo iogurtes.
Eu - Ah!
Ela - Adoro tanto iogurtes que prefiro iogurtes a chocolate.
Eu - Hum, hum...
Ela - E olha que gosto muito de chocolate. Prefiro chocolate a aletria.
Eu - Ena!
Ela - E aletria é um dos meus doces preferidos desde criança...
Eu - Eu percebo...
Ela - Gosto mais de aletria do que de arroz doce, por exemplo. Mas adoro arroz doce.
Eu - Já não te via há muito tempo, mas parece-me que andas com uma fixação por comida.
Ela - Estou muito gorda, é?
Eu - Não, não estás. Falas é muito de comida.
Ela - Falo?

1.30.2013

conversa 1989

(no carro dela)

Ela - Tenho que ir pôr gasolina.
Eu - Mas... ainda tens o depósito a meio.
Ela - Nunca deixo passar disto. Tenho medo de me distrair e ficar parada, sem gasolina, num sítio qualquer.
Eu - Está bem, compreendo. Mas pôr já gasolina quando ainda tens meio depósito é um exagero. Com o que tens fazes pelo menos duzentos quilómetros...
Ela - Não me interessa. Vou encher o depósito e pronto.
Eu - Pronto, okay... tu é que sabes...
Ela - Antes de me divorciar, acho que a última discussão que tive com o meu marido foi igualzinha a esta.
Eu - Que discussão de merda para se ter.
Ela - Estás a ver?! Achas que é uma discussão de merda para se ter entre marido e mulher, mas não achas que seja uma discussão de merda para se ter entre dois amigos.
Eu - Na verdade também acho.
Ela - Então porque é que começaste a tê-la comigo?!
Eu - Não sei... só estava a dizer que é muito cedo para pores gasolina...
Ela - Não, não. Estavas a criar uma discussão onde ela não devia existir.
Eu - Mas se ainda tens meio depósito...
Ela - E pensas que não sei isso?! Sou burra ou quê?! Eu sei que tenho meio depósito, mas o meu método de pôr gasolina é este. Podes ter respeito pelo meu método de pôr gasolina no meu automóvel?
Eu - Posso. Já cá não está quem falou.
Ela - Ah! Bom!

1.29.2013

respostas a perguntas inexistentes (244)

Não sei todos chegaram a fazer isto. Eu pelo menos cheguei, no meu princípio da adolescência. Estou a falar de rasgar um bocadinho de papel duma folha do caderno de escola e escrever uma mensagem de Amor. Depois amarfanhá-la e entregá-la discretamente a uma miúda da mesma turma, a duas ou três secretárias de distância, normalmente por via aérea.
Os telemóveis acabaram com isto, cobrando alguns cêntimos para fazer exactamente o mesmo, evitado até o risco que o papel caia nas mãos erradas. Pensei nisto hoje, quando ouvi uma mãe ralhar com o filho por causa da quantidade de mensagens que ela anda a enviar a uma miúda qualquer. É uma questão de dinheiro, não de conteúdo. Estamos lixados.
Percebo perfeitamente que aquele rapaz que vi no café, corado pela vergonha que a voz alta da mãe o fazia passar, não envie papelinhos como eu fazia na idade dele. Deve ser foleiro ou, como dizem agora os miúdos, "não cria cenário" (aprendi esta com a minha filha). A tecnologia liberta-nos, mas ao mesmo tempo aprisiona-nos. Aquele rapaz não pode enviar mensagens de Amor se a mãe não lhe carregar o telemóvel. Eu podia.
A Eva, na verdade, não me ligou nada quando lhe disse que gostava dela. Pegou na bolinha de papel, olhou para mim com um certo ar de desprezo e rasgou-a em dois ou três pedaços enquanto abanava os ombros. A minha história de Amor com ela morreu ali, à nascença. Não se falou mais nisso. Os meus pais não me controlavam o saldo de folhas de papel dos meus cadernos.

1.26.2013

tudo isto é triste


A Barbie e o Ken encontraram-se finalmente. O problema é que o Ken não compreendeu a Barbie.
Ela, uma ucraniana que não diz quantas cirurgias já fez para se parecer com a boneca lançada em 1959 pela Mattel, viajou até aos Estados Unidos para conhecer um homem que já fez cerca de cem cirurgias plásticas para se assemelhar ao popular boneco lançado nos anos sessenta pela mesma empresa. Conheceram-se, mas o Ken já fez saber que a considera "muito esquisita, muito formal e com falta de personalidade". Parece ser um casal sem futuro, portanto.
Eu defendo que cada um de nós tem direito ao seu próprio corpo e que, por isso, pode fazer com ele o que muito bem entender. Mesmo que esse entendimento passe por ficar igual ao Ken, à Barbie ou até ao Senhor Cabeça de Batata. Não os vou criticar, assim, por isso.
O que me assusta nisto tudo, é a forma como a sociedade mediática nos diz como deve ser o nosso corpo. Uma empresa lançou dois bonecos há mais de cinquenta anos e, entretanto, nasceu uma indústria que decide por nós o que é bonito e feio. Nos Estados Unidos há uma indústria gigantesca à volta de concursos de moda para crianças, em que o objectivo é ser o mais parecido possível com o Ken ou com a Barbie. Alguns pais investem milhares de euros nos seus filhos apenas com o objectivo de os vencer.
A própria moda emagreceu as mulheres, multiplicando os problemas de bulimia e anorexia na adolescência, colocando à margem social aqueles cujo corpo não se presta a tais semelhanças. A beleza deixou de ser uma contemplação e passou a ser uma violência.
Eu, como já referi aqui, defendo o direito de cada um ao seu corpo, e é por isso mesmo que me assusto com esta agressividade da indústria da moda, que nos tira esse mesmo direito sem sequer notarmos. Sem notarmos também, estamos a ceder todos os dias a nossa individualidade a um paradigma social que só tem um objectivo: servir um modelo de crescimento económico em que nada mais cresce a não ser ele mesmo. Nem os nossos salários, nem a nossa qualidade de vida, nem a nossa felicidade.
Tudo isto é triste.

1.25.2013

conversa 1988

Ela - Andamos sempre a dizer que vamos organizar um jantar com os nossos amigos de antigamente e nunca mais...
Eu - Este anos podíamos fazer uma sardinhada...
Ela - Sim, boa ideia.
Eu adoro sardinhas.
Eu - Eu também.
Ela - Ainda dizes que não nos entendemos. Estás a ver? Há uma coisa em que estamos em sintonia...
Eu - Sim, de facto. Adoro umas sardinhas com broa e pimento assado.
Ela - Com broa e pimento assado é que já não. Prefiro-as no prato com uma saladinha de tomate e alface.
Eu - Pronto... não é grave, desde que possamos escolher o mesmo vinho...
Ela - Eu não bebo vinho. No máximo bebo uma cervejinha, mas actualmente é mais água..
Eu - Isso lá é bebida para acompanhar sardinhas?!
 la - Então não é?! Vamos para o campo assar umas sardinhas, levamos umas cervejas fresquinhas e a ver se não bebes...
Eu - Para o campo?! Sardinhas é na praia. Em Mira, por exemplo.
Ela - Não gosto de piqueniques na praia. É só areia!
Eu - Bem... se calhar é melhor pensar noutra coisa, sem ser uma sardinhada.
Ela - Talvez... umas fêveras de porco, por exemplo.
Eu - Não como carne vermelha, actualmente.
Ela - Bem, talvez seja melhor adiar este projecto e pensar melhor lá mais para a frente...
Eu - Talvez...

1.23.2013

conversa 1987

Ela - Hoje fui tão antipática com um gajo que me atendeu numa loja...
Eu - Deves ter tido razão. Por acaso sempre te achei simpática.
Ela - Normalmente sou simpática, sim. Não tenho outro remédio.
Eu - Não tens outro remédio?!
Ela - Não, porque não sou assim muito bonita. Se fosse uma mulher daquelas mesmo muito bonitas, já podia ser uma cabra com toda a gente.
Eu - Ia dizer-te que te acho bonita, mas de repente achei melhor ficar calado.

respostas a perguntas inexistentes (243)


Aconteceu-me numa das raras vezes em que conduzo. Ela ia ao meu lado, no lugar do morto, silenciosa. Era como se a cidade nos estivesse a seguir e quiséssemos passar despercebidos. O meu telemóvel tocou e encostei à direita para atender. Senti que a minha voz era demasiado alta, por muito baixinho que eu falasse. Tínhamos combinado ir buscar um amigo comum, sem hora certa marcada, e ele queria saber se já estávamos a caminho. Depois disso, iríamos os três de fim de semana.

- Ainda demoro uns quinze minutos! - disse eu antes de desligar e retomar a marcha.

Um pouco mais à frente parei num sinal vermelho. O silêncio continuou mas, por qualquer motivo, senti que não era igual ao anterior. Talvez o respirar dela me tenha deixado perceber isso, não sei. Sei que me lembrei dum amigo meu, já adiantado numa noite de copos, quando uma vez me disse que a respiração dos outros nos permite perceber o seu estado de espírito. Não liguei nada, porque ele estava bêbado, mas nesse momento lembrei-me dele.

- Porque é que disseste que demoramos quinze minutos, se vamos demorar uns cinco? - Perguntou ela.

Demorei a responder propositadamente. Era uma forma de diminuir o ritmo da discussão. Afinal de contas, era de pressa e de ritmo que estávamos a discutir.

- Assim sei que ele não está à minha espera. Não gosto de fazer esperar os outros. - Sorri, na esperança de que a coisa ficasse por ali.
- Pois, pois. Assim espero eu, não é? - Ouvi-a suspirar.

Estava a começar a apaixonar-me por ela nesses dias. Pensava eu, enganado, que talvez ela o estivesse por mim. A discussão acabou de forma educada, mas fria. Percebemos uma grande diferença entre nós, assumida de forma clara na última coisa que cada um disse.

- Se eu lhe disse que o ia buscar depois de fazer a minha mala e de te apanhar, não vou fazer com que ele fique agora à minha espera no cruzamento duma estrada, caso demore um pouco mais do que o previsto. - disse eu.
- Se lhe dissesses que estava mesmo a chegar, ele já lá estava de certeza quando chegássemos. Era o que eu faria. Só isso. - disse ela.

O fim de semana nem correu mal, numa casa de turismo rural em que o tempo parecia não existir. Ouvimos música os três, vimos um filme ou outro, caminhámos na serra e jogámos xadrez. Percebi, no entanto, que  seria incompatível com ela num contexto onde o ritmo fosse outro.

1.22.2013

o lugar das mulheres é na cozinha


Este anúncio de 1893 a um produto de limpeza chamado Gold Dust (Pó de Ouro) não deixa margem para dúvidas: o lugar das mulheres é em casa, longe de lugares onde se trabalha a sério, ou seja, longe dos lugares onde os homens trabalham. De forma interessante, admite no entanto que o trabalho doméstico ocupa catorze horas, enquanto o trabalho fora ocupa normalmente oito.
O trabalho doméstico é, de facto, duro. Lembro-me de em criança, quase um século depois deste anúncio ter sido publicado, a realidade em Portugal não ser muito diferente. Apesar do Pó de Ouro ter sido substituído por aspiradores...

1.21.2013

meia hora de vida

A primeira coisa em que pensei foi em recusar o convite. Afinal de contas, embora gostasse muito da Vienna, a impressão que eu tinha é que ela era dum meio social muito diferente do meu. Vestia-se com muito cuidado e tinha um comportamento, vá lá... bastante fino para aquilo que eram os meus padrões. Na verdade, só ficámos a falar um com o outro porque eu achei piada ao facto de conhecer uma Vienna no primeiro dia em que estive na capital da Áustria. 
Eu andava de mochila às costas há algumas semanas pela Europa e, para ser sincero, com um aspecto já bastante sujo e descuidado. Numa rua qualquer ela veio falar comigo e avisou-me que não devia continuar naquela direcção por causa dum grupo de extrema direita que estava uns metros à frente. Não gostavam muito de estrangeiros e podiam tornar-se agressivos. No princípio fiquei um bocado assustado e perguntei-lhe por onde é que devia seguir, pois nem sequer fazia a mínima ideia onde estava, e ela acabou por me convidar para beber uma cerveja num sítio seguro.

- I'm Vienna! - Disse ela.
- Are you Vienna or do you live in Vienna? - perguntei.
- No, no... my name is Vienna. - sorri.

E foi assim que começou a nossa conversa. Ela era loira, tão loira e tão bem vestida quanto uma actriz de cinema consegue ser. Bastante bonita e energética. Não demorou muito a perceber que eu estava praticamente sem dinheiro e que andava a pé porque um bilhete de metro custava, já naquele ano de mil novecentos e noventa e cinco, o equivalente a seiscentos escudos. Uma brutalidade, portanto. Disse-lhe que ia apanhar um comboio às seis da manhã para Praga e, por isso, nem sequer ia dormir em lado nenhum, o que era verdade. Pagou-me duas cervejas que custaram também um balúrdio e convidou-me para uma festa na casa dela nessa mesma noite.Assim, poderia sair da festa e ir directamente para a estação de comboios.
Aceitei um papelinho com uma morada escrita à mão, pensando que nunca na vida a iria procurar, e por isso despedi-me dela com um "see you!" acreditando que, na verdade, nunca mais a veria. À noite, no entanto, e porque a solidão começou a pesar, acabei por ir dar à casa dela depois de ter conseguido comprar uma garrafa de vinho português num supermercado. Assim que entrei, perguntei por ela, pois foi um desconhecido que abriu a porta e eu não sabia mais o que dizer. Um homem alto e muito magro mandou-me entrar, ofereceu-me uma cerveja, fez-me algumas perguntas por causa da garrafa que eu lhe entreguei e apresentou-me algumas pessoas. Ele, pelos vistos, também não conhecia todos os presentes. A Vienna, entretanto, tinha ido a um sítio qualquer e não ainda não tinha chegado.
Acabei por me sentar numa cadeira que tinha outra igualzinha mesmo ao lado, onde acabei por ficar quase uma hora. A cadeira ao lado da minha estava livre e, por isso, de vez em quando alguém se sentava ali e começava a falar comigo sem mais nem menos. Alguns, que não sabiam que eu era português, falavam em alemão, ao que eu respondia sempre da mesma forma, dizendo em inglês que não estava a perceber.
Durante esse tempo reparei numa mulher que, por qualquer motivo, me interessou bastante. Não é que fosse especialmente bonita (a Vienna, por exemplo, era muito mais atraente). Foi qualquer coisa daquelas que não conseguimos explicar, mas que faz com que de repente não pensemos em mais nada senão em conhecer aquela pessoa. Como quase todos os presentes estavam a rodar pela cadeira junto à minha, decidi ficar ali sentado à espera que chegasse a vez dela. Dessa forma poderia meter conversa discretamente, com o álibi de quem nem sequer tinha sido eu a ir ter com ela. 
Pois bem... acho que ela foi das únicas que não se sentou ao meu lado. Na verdade, nem sequer olhou para mim durante todo esse tempo. Comecei, de certa forma, a ficar angustiado. Como tinha que ir embora, sabia que o tempo para a conhecer estava a passar e era limitado, como se de uma ampulheta se tratasse. Quando a Vienna chegou, finalmente, percebi que elas eram uma espécie de melhores amigas. Só nesse momento é que a conheci, pois foi-me apresentada. Chamava-se Lena e era portuguesa. Pelos vistos, a Vienna tinha-me dito que tinha uma grande amiga portuguesa mas eu, distraído como sou, nem sequer tinha ouvido.
Nesse momento, e porque entretanto já tinha bebido algumas cervejas, expliquei-lhe que tinha estado a noite toda à espera que se sentasse ao meu lado, só para a poder cumprimentar. Ela, não gostando muito do rumo da conversa, afastou-se. Lembro-me que fiquei desiludido e com uma pequena dor de barriga.
Eram cerca das cinco da manhã quando peguei na mochila para me ir embora e comecei a despedir-me dos poucos que ainda estavam presentes. A Lena era uma delas e ficou surpreendida. Expliquei-lhe que tinha um encontro em Praga nessa mesma tarde e tinha que mesmo que ir. Ela, para minha surpresa, ofereceu-se para me acompanhar à estação e foi assim que tive, muito provavelmente, umas das melhores meias horas da minha vida.
Nessa meia hora de vida apaixonei-me totalmente e, antes de entrar para o comboio, procurei-lhe no fundo dos olhos aquela sensação que tinha encontrado nas suas palavras: a de que valia a pena eu mudar de planos por uma incerteza. Tive dúvidas, para ser sincero. Trocámos contactos, um beijo tímido nos lábios e eu despedi-me. Nunca mais a vi.

1.18.2013

conversa 1986

(em casa dela)

Eu - Ena! Mudaste as mobílias todas. Está fixe, assim.
Ela - Mudei ontem. Estava aqui em casa sem fazer nada e decidi aproveitar...
Eu - Espera aí! Mudaste este armário pesadíssimo sozinha? Deves ser a super-mulher...
Ela - Não foi bem sozinha. Vieram aqui dois mormons todos simpáticos, perguntaram-me se eu precisava de ajuda e eu aproveitei. Pus os homens a carregar alguns móveis...
Eu - E depois não tiveste que os aturar a falar de Deus?
Ela - Não. Assim que mudaram as coisas mais pesadas, ofereci-lhes um café e aproveitei para lhes dizer que sou ateia e que não não valia a pena chatearem-me com essas coisas...
Eu - E eles não ficaram chateados?
Ela - Claro que não. São mormons...