i
O jornal i passou por aqui. O meu agradecimento com um shot de bagaço.
O jornal i passou por aqui. O meu agradecimento com um shot de bagaço.
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Ivar C
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Etiquetas: sei lá onde é que hei-de meter isto
Ela - Se há coisa que detesto é quando um homem vem com a conversa de que é casado mas a relação dele está mal e blá blá blá...
Eu - Porquê?
Ela - Porque isso é só conversa de engate de coitadinho. Se a relação dele está mal que se divorcie.
Eu - Era bom que as coisas fossem assim tão simples...
Ela - E são simples.
Eu - São?
Ela - São. Para mim, pelo menos, são. Dá-me muito mais gozo ir para a cama com um gajo que tenha um casamento sólido do que um gajo cujo casamento esteja a desabar.
Eu - A sério? E achas que um gajo que tem um casamento sólido vai assim, sem mais nem menos, para a cama com outra mulher?
Ela - Oh rapaz! Isso até pode ajudar a solidificar um casamento.
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Ivar C
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Etiquetas: conversas
(num bar)
Ela (cantarolando a "vida de marinheiro" dos Sitiados) - Esta vida de divorciada está a dar cabo de mim. Pom porom pom pom porom pom pom porom pom pom!
Eu (risos) - Está dar cabo de ti, porquê?
Ela - Porque ando a descobrir uma coisa terrível sobre os homens divorciados da minha idade.
Eu - O quê?
Ela - Cheiram mal dos sovacos.
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Ivar C
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Etiquetas: conversas
Ela - Hoje de manhã estava a limpar a casa de banho e encontrei uns cabelos loiros e compridos.
Eu - E depois?
Ela - E depois eu sou morena, tenho o cabelo curto e vivo só com o meu marido.
Eu - Ah!
Ela - Peguei logo no telefone e liguei-lhe furiosa.
Eu - E descobriste de quem eram, ao menos?
Ela - Durante o telefonema lembrei-me que eram duma amiga minha que jantou lá em casa este fim de semana.
Eu - Problema resolvido, então.
Ela - Sim, só que entretanto o meu marido atendeu e eu não tinha nada para lhe dizer.
Eu - Ah!
Ela - Disse-lhe que tinha saudades dele e queria-lhe dizer o quanto gosto dele.
Eu - Saíste-te bem.
Ela - Mais ou menos. Ele perguntou-me logo que asneira é que eu tinha feito para lhe estar a dizer aquilo, por telefone, a meio da manhã.
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Ivar C
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Etiquetas: conversas
Amanhã, dia 7 de Dezembro e véspera de feriado, Couscous Prosjekt em versão solo (que é como quem diz, a partir de agora é só com o dj Bagaço Amarelo) no Mercado Negro a partir das 22:00. Os Citânia, com o Vitorino e a Maria Zogopoulou, talvez passem por lá para contar alguns segredos e beber um copo.
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Ivar C
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Etiquetas: o gajo pensa que é artista
Estava à procura de um disco específico para ouvir o primeiro minuto de cada música, "Welcome to Mali" do duo Amadou et Mariam. Tinha combinado com a Raquel às oito na Fnac e chegado mais cedo propositadamente para pôr as minhas pré-escutas da secção de worldmusic em dia. Nessa altura já eu sabia que ela, que me tinha enviado uma fotografia por email durante o dia, era a minha paixão da adolescência.
Escusado será dizer que não consegui ouvir nada, apesar de acumular algumas dezenas de cds em ambas as mãos. Os sons fugiam-me da mesma forma que ela me fugira mais de vinte anos antes na minha adolescência, como se fosse uma música que nos embala uma única vez nas doces ondas hertzianas dum programa de rádio, para depois terminar num silêncio empedernido do qual nem o nome sabemos. Por trás dessas montanhas de cd's nasceu solarenga finalmente a face dela.
Rapidamente apreendi que uma tamanha coincidência cosmológica não nos pode acontecer duas vezes na vida, e que se passara todos os meus tempos de miúdo a engolir as palavras que me pediam sempre que as soltasse, não ia repetir a asneira. "Olá Raquel! És o meu amor do liceu. Sabias?"
Não, ela não sabia.
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Ivar C
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Etiquetas: a segunda vez
Deixo este blogue aos cuidados da minha companheira durante três ou quatro dias e ela bate o recorde diário de visitas. De certeza que querem que eu continue a escrever aqui?
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Ivar C
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Etiquetas: diversos
"Como nos ensina Freud, a mulher deseja o contrário daquilo que pensa ou declara, o que, bem vistas as coisas, não é assim tão terrível, porque o homem, como nos ensina o Calino, obedece em contrapartida aos ditames do seu aparelho genital ou digestivo."
in "A Sombra do Vento", de Carlos Ruiz Zafón
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Ivar C
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Etiquetas: pensamentos catatónicos
Quando o Bagaço me propôs assegurar os posts deste blogue na sua ausência eu hesitei bastante. Que grande responsabilidade seria dar continuidade a uma forma única de estar na blogosfera, onde se alia sensibilidade e sentido de humor. Ponderei e decidi aceitar.
Eu já estive desse lado. Eu já fui (continuo a ser) a leitora que sorria com as conversas e sonhava com as "coisas que fascinam". E, se ainda houver, por aí, um(a) leitor(a) que seja que se sinta como eu me sentia na altura em que decidi arriscar um e-mail ao autor, gostava que soubesse da nossa história. Gostava de dar o meu testemunho para garantir que sim, o amor é possível.
Sorte, coincidência, dirão... Sim, concordo, em parte... Mas que não teria existido sem um primeiro passo. Não desistam nunca de procurar o amor. E sejam felizes.
Raquel
PS: o Bagaço está a chegar. Este blogue vai seguir o seu registo habitual. Obrigado pela Vossa presença.
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Etiquetas: Patrão fora dia santo na loja
“Quanto ao café, desafio aceite. Marca a data”, disse-lhe. “E não, não sou enóloga. Lamento a desilusão. Mas gosto muito de vinho. De preferência tinto”.
Demorou cerca de uma semana a compatibilizarmos os nossos horários e acertarmos a data e o local para o café. Combinámos na Fnac: “devo levar uma flor na lapela para saberes quem sou?”, perguntei. “Não precisas de levar uma flor na lapela... mas por acaso não faço a mínima ideia de como és: preta, branca ou amarela; alta, baixa ou assim assim; morena, loira ou ruiva... mas acho que tu me reconheces”, respondeu-me.
"25 - Não sou loira.
26 - Não sou preta.
27 - Não pinto o cabelo."
Pareceu-me justo enviar-lhe uma foto minha, para que nos pudessemos reconhecer mutuamente.
À hora marcada avistei-o por detrás de uma pilha de CD's de música do mundo. Espreitei e sorri-lhe. Antes de eu dizer qualquer coisa, ele anunciou: “estive apaixonado por ti!”. - Como? - Tu não andaste na Escola Comercial, em Aveiro? - Sim, andei... - És a Raquel, e eu gostava de ti...
Que engraçado! Meto-me com um rapaz na internet, marcamos um café e ele não só se lembra de mim dos tempos do liceu, como tinha um fraquinho por mim...
Não, eu não me lembrava de alguma vez o ter visto. No entanto, foi como se nos conhecêssemos desde sempre, tal foi a fluidez da conversa e as memórias de pessoas e lugares comuns. Doce e terno, é assim que recordo o nosso primeiro encontro.
No fim-de-semana seguinte saímos juntos de novo. Levou-me a Aveiro e apresentou-me a um amigo: "Esta é a Raquel, é a minha namorada.”
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RPM
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22:08
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Etiquetas: Patrão fora dia santo na loja
Modéstia à parte, despertei nele a curiosidade. Ele não me ia deixar ir embora, assim, sem pelo menos me pôr a vista em cima. "Já valeu a pena?" Não, não... Isto não acaba aqui. E lançou o desafio para um cafezinho:
Olá Raquel,
Estudaste em Évora e trabalhas no Porto... hum... hum... se por acaso fores enóloga, isso sim, dá-te duzentos ponto extra. :)
Não te preocupes. A minha pontuação nos requisitos mínimos de mulheres também não tem andado famosa. Na verdade acho que tem sido sempre negativa.
Acho que apesar das baixas pontuações sempre se pode tomar um café um dia destes. Em Aveiro, Matosinhos (às vezes vou à fnac do Norte Shopping mas nunca ao fim de semana), Porto ou Baixa da Banheira. Os requisitos para tomar café são menos exigentes: é ter entre €0.55 e €0.90 e alguma vontade.
A mim calhou-me uma filha mulher. Agora está com nove anos e agradavelmente incompreensível. Vai dar quase ao mesmo...
Beijos
Ivar
Estava a melhorar. Estes requisitos eu cumpria a 100%. Só faltava marcar a data e o local.
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RPM
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17:15
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Etiquetas: Patrão fora dia santo na loja
Não gostei muito da pontuação do teste. Não gosto de notas medianas e eu tinha-me esforçado (foi quase uma manhã de trabalho roubada ao chefe para responder àquilo tudo). Restava-me uma saída airosa, demonstrando o meu (falso) desinteresse:
Assunto: Não compreendo os homens
Olá Ivar,
Sim, tens razão, isto não está famoso. E eu que tinha tantas esperanças... Acho que vou tentar o Tarzan Boy, então. Só um esclarecimento quanto aos sacos de plástico: quando vou ao supermercado e não levo sacos dos meus, insisto com as meninas que cabe tudo em metade dos sacos que elas querem. E não é para poupar o dinheiro do Belmiro de Azevedo ou do Jerónimo Martins. Mais um pontinho?
Sim, sou de Aveiro. Não sei se alguma vez nos cruzámos, de qualquer modo tenho péssima memória para caras e nomes. Saí de Aveiro em 1990 para ir estudar para Évora e de lá vim directo para o Porto, para trabalhar, em 1995. Estou por cá desde então.
Fui parar ao teu blog por acaso (como sempre acontece, não é?) e achei piada ao nome. Vocês não compreendem as mulheres, as mulheres não vos compreendem... Acho que isso faz parte do desafio. E, vê tu, calharam-me dois filhos homens que eu nunca vou compreender. Posso até perceber o significado de cada palavra do que eles dizem, mas nunca vou atingir o sentido da frase. Por isso tenho uma gata. Sempre é mais uma fêmea para equilibrar a minha casa.
E tu podes não conseguir rir de nada, mas fizeste-me rir a mim. Só por isso já valeu a pena. Obrigado.
Raquel
Assim, sem beijinhos no final da mensagem, sem fios soltos. Se a história ficasse por ali, já tinha sido um tempo bem passado.
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RPM
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Etiquetas: Patrão fora dia santo na loja
Creio que o Bagaço não estava à espera de uma resposta tão longa e detalhada aos 50 requisitos. E ficou curioso. Com as respostas e com algumas referências que fiz no texto, como ao facto de frequentar os comícios do pavilhão do Beira-Mar (o que denunciava a minha origem de Aveiro) e morar agora perto de Matosinhos. Desta vez demorou bem menos tempo a enviar-me a pontuação:
Olá Raquel,
Acabei de perceber que és de Aveiro e vives em Matosinhos e foste da JCP. Ora bem, eu nunca fui da JCP nem nunca serei (aliás, agora não posso ser de jota nenhuma), mas trabalhei na festa do Avante várias vezes e tive alguns amigos lá. Aliás, deves conhecer a minha melhor amiga, que por acaso é a minha ex-mulher e que foi sempre da JCP (agora é do PCP porque também já não pode ser de nenhuma jota). Sou amigo do Rui, por exemplo... e fui cunhado da Ana. Se calhar cruzei-me contigo algumas vezes na vida...
Bem... vamos à análise das tuas (in)competências: Cada uma vale dois pontos. Como são cinquenta é mais fácil calcular percentagens...
1] certo. 2 pontos
2] certo. 2 pontos
3] certo menos. O polvo devia mesmo ser o teu alimento preferido. 1 ponto
4] certo menos. Concordo que é cool ir ao cinema... mas também é ver filmes enrolado no sofá mesmo que dê sono. Não acho que filhos sejam um defeito. Aliás, às vezes acho mesmo que é a única qualidade que tenho. 1 ponto
5] errado. entrar nesse antro uma só vez na vida é um erro. 0 pontos
6] certo. é a melhor maneira de jogar. 2 pontos
7] certo. Eu não consigo chegar com o dedo do pé à boca mas consta que já consegui... há mais de trinta e seis anos. 2 pontos
8] certo. É por isso que se deve gostar do quadro, porque há sempre alguém que nos ajudou a criar e que tinha um... 2 pontos
9] certo. Eu não sou o Carlos Pinto Coelho. O problema é que o erro referido chateia-me mesmo. 2 pontos
10] certo menos. Não conhecer esta música é uma grave falha na nossa cultura geral, mas como aprendes depressa... 1 ponto
11] certo menos. Há uma diferença substancial entre ter vontade e poder ter vontade... 1 ponto
12] certo. Todos os livros que leste passaram pela sanita. parece-me bem... 2 pontos
13] certo menos. O Sandokan é o tigre da Malásia, mas isso devia vir como afirmação e não como interrogação. 1 ponto
14] errado. NUnca devia acontecer. 0 pontos
15] errado. é o melhor uísque do mundo e arredores. 0 pontos
16] certo. Eu destesto a visão política internacional do PCP e sou membro muito activo do Bloco de Esquerda, mas a questão aqui é a tua constituição genética impedir-te de votar na direita. 2 pontos.
17] certo. Não disseste... mas se tens... 2 pontos
18] certo. Eh eh! é rir. 2 pontos
19] certo menos. Não é talvez. É de certeza que não salva o mundo. Além disso não é um naco, a mulher dele é que é. 1 ponto.
20] certo menos. A vaca serve mas não é bem a mesma coisa. Falta-lhe o classicismo dos mealheiros. 1 ponto
21] errado. só há duas maneiras correctas de matar mosquitos: insecticida e palmadas no ar... 0 pontos
22] certo. como eu não sei fazer caipirinhas, acredito em ti. 2 pontos
23] certo. se nunca gravaste dvd's tb não deves ser das que chateiam muito com isso. 2 pontos.
24] errado. amuar também não é aceitável. isso é stress a mais. 0 pontos
25] certo. 2 pontos
26] certo. 2 pontos
27] certo. 2 pontos
28] errado. não gostar e pronto... acabase a análise. 0 pontos
29] certo menos. estou a ser muito condescendente... mas como tens um fraquinho pelo Beira-Mar... 1 ponto
30] certo menos. roubar é levar 20 quando só se precisa de 1. A tua resposta deixa dúvidas. 1 ponto
31] certo. com o Sylvester e com o Piu-piu pode ser. 2 pontos
32] certo menos. eu preciso que seja todos os domingos... mas mesmo todos, incluindo os cinzentos e aqueles em que há uma tourada em que o toureiro morre. 1 ponto
33] certo. Não sei quem é o Nuno Graciano... mas pelos visto não sabes o que é uma pulseira tucsons o que é fixe. 2 pontos
34] errado. muito errado. erradíssimo. 0 pontos
35] e 36] errado e muito grave. 0 pontos
37] certo. se não leste fizeste bem... não leias mesmo que te candidates a namorada do Tarzan Boy. 2 pontos
38] certo. Reiki é uma cena em que o pessoal acredita que pondo as mãos perto de nós nos cura não sei de quê. 2 pontos
39] certo. 2 pontos
40] errado e gravíssimo... 0 pontos
41] certo. eu não consigo rir de nada mas pronto. 2 pontos
42] certo. boa resposta. 2 pontos
43] certo, sinais pode ser. 2 pontos.
44] certo. o meu também era assim... até à semana passada em que mo roubaram. 2 pontos
45] certo. eu também. 2 pontos
46] errado. eu só compro aos putos. 0 pontos
47] certo. embora até possas gritar mas outras coisas, tipo "viva a revolução bolchevique". 2 pontos
48] certo. embora a um inimigo possas fazer. 2 pontos
49] certo menos. treze horas é que é fixe. mesmo fixe... 1 ponto
50] certo menos. Nem essas expressões se deve usar. 1 ponto
Bem... 65%. Isto não está nadinha famoso.... mas pelo menos está positivo. :)
Beijinhos,
Ivar
65%? Só? Que injustiça! Eu tinha-me esforçado tanto! Ah! Havia de lhe demonstrar toda a minha indiferença!
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RPM
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Etiquetas: Patrão fora dia santo na loja
Gosto de desafios. E adoro pessoas com sentido de humor. Bom prenúncio, portanto.
Eu já tinha dado uma vista de olhos no perfil do Bagaço: divorciado, mais ou menos da minha idade, de Aveiro. Espreitei a foto. Não, nunca o vira. Ou simplesmente não me lembrava da cara dele, tenho péssima memória para caras. Nasci e vivi em Aveiro até aos 18 anos, altura em que fui estudar para Évora e, curso acabado, vim trabalhar para o Porto, onde moro desde então. As visitas a Aveiro foram ficando cada vez mais espaçadas e as caras deixaram de me ser familiares. Mas, numa altura em que encontrar novos amigos era cada vez mais difícil, um passado geográfico comum tornou-se aliciante.
Eu estava em vantagem, sabia algo sobre o Bagaço. Ele não sabia nada de mim, apenas um nome. Resolvi então investir o meu tempo na resposta detalhada aos requisitos solicitados e enviei-lhe o seguinte e-mail:
São só os mínimos, portanto... Nem imagino as características que, não sendo requisitos mínimos, farão a diferença.
Certamente não os consigo cumprir todos. Existe uma hierarquia de importância? Se eu cumprir um dos mais difíceis, perdoas-me um dos restantes?
Bom, aqui vai a confissão das minhas (in)competências:
1 - Sim, gosto de sardinhas assadas, mas nunca as asso em casa por causa do cheiro. Prefiro ir a uma tasca qualquer ali em Matosinhos. Dos pimentos prefiro os vermelhos. Como com a mão, não me importo com o cheiro, mas talvez reclame na mesma. Faz parte de mim.
2 - Arroz de polvo com tomate... Hummm... Bem picante... Hummm...
3 - Polvo é bom. Não é o meu alimento preferido, mas é bom.
4 - Televisão vejo pouca. De facto, a televisão lá em casa costuma estar desligada no quadro eléctrico e os miúdos pensam que está avariada (sim tenho mais esse defeito, 2 filhotes terroristas). Mas, depois da cozinha arrumada e dos miúdos na cama, ligo-a para espreitar uma das séries do Canal 2 ou da Fox Life. Filmes, prefiro ver no cinema. Em casa, enroscada no sofá, dá-me sono.
5 - MacDonalds, confesso, vou. Raramente, mas vou. E, horror dos horrores, como um Happy Meal só para ficar com o brinquedo.
6 - Totoloto, quando faço, peço uma chave aleatória preenchida pela máquina. Tenho preguiça de pensar em números importantes.
7 - Sim, comer com a mão não tem qualquer problema. Sardinhas, marisco, frango, costelinhas... Lambuzar-me toda e lamber os dedos no fim... Com o pé nunca experimentei. Mas consigo chegar com o dedão do pé à boca...
8 - O quadro "O menino que chora"... Ainda dizem que não é possível viajar no tempo... A minha madrinha, que me ajudou a criar, tinha um quadro desses no quarto dela, em lugar de destaque. E acho que também havia por lá um quadro com cavalos. E papel de parede com flores.
9 - Erros ortográficos podem acontecer, mas não costumo dar. De facto, irritam-me um pouco. Verbos separados do sujeito por vírgulas também. Tenho a minha costela de Edite Estrela...
10 - José Cid é outra viagem no tempo. A minha mãe tinha um disco dele. Lembro-me das músicas "verdes trigais em flôr" e "na cabana, junto à praia". Se me esforçar, ainda consigo cantar o refrão. A música que me mandaste não conhecia. Mas, a ouvir 3 vezes por dia, aprendo num instante.
11 - Não, não tenho grande vontade. Ou pelo menos não está na lista actual de vontades. Mas podia estar. Mal não faz.
12 - O livro que ando a ler, em cada momento, não está ao lado da sanita, está em frente, num móvel, junto com os panfletos do supermercado. Já pensei em trocar o móvel por uma estante para colocar os livros em fila de espera para serem lidos. Acho que todos os livros que li (sem ser de estudo) foram lidos sentada na sanita. Não dobro as páginas para as marcar - uso um marcador ou um dos panfletos.
13 - Sandokan e o tigre da Malásia?
14 - Ás vezes acontece. Mas só quando os outros estendem a toalha quase em cima de mim, quando temos uma linha de costa tão grande...
15 - O que é uísque bushmills?
16 - Em criança, a minha mãe levava-me pela mão ao pavilhão do Beira-Mar para assistir aos comícios do "tio" Cunhal, como ela lhe chamava. Com 12 anos filiei-me na JCP e frequentava a sede do partido por cima da "Selectarte". Quando cheguei à idade de votar já me tinha desinteressado da política. O desinteresse mantém-se. Mas votar num partido de direita vai contra a minha constituição genética.
17 - Já te disse que tenho bastante flexibilidade?
18 - Eh! Eh!
19 - Talvez não salve o mundo, mas é um naco!
20 - Porquinho não tenho, mas tenho um mealheiro que é uma vaca malhada. Serve?
21 - Mosquitos irritam-me e não olho a meios para os eliminar. Vale tudo.
22 - Sabes como se faz uma boa caipirinha? Agita-se o copo ao ritmo do samba...
23 - Nunca gravei um Dvd. Também nunca tentei. De CD's já fiz 2 cópias pirata. Sozinha. Sem ajuda.
24 - Chateada não fico. Mas amuo.
25 - Não sou loira.
26 - Não sou preta.
27 - Não pinto o cabelo.
28 - Não gostar de que parte? Dos dotes futebolísticos? Da capacidade oratória? Dos bíceps e abdominais? Dos brincos? Dele todo?
29 - Bom, isso de não ser do Benfica... Eu explico: a minha irmã começou por ser do Sporting, porque o meu pai também era. Para arreliar, o meu irmão era do Porto. Qual era o clube que sobrava para mim? Mas tenho um chamego pelo Beira-Mar e pela Académica.
30 - Roubar? Como assim, roubar?
31 - E com o Sylvester e o Piu-piu?
32 - Depressões ao Domingo só quando estão aqueles dias cinzentos, mas sem chuva. Se chove, a depressão passa com o cheiro a terra molhada.
33 - Pulseira Tucson's? E isso é o quê? António Sala não, mas já tirei uma fotografia com o Nuno Graciano (esta dá aí um 200 pontos negativos, não?)
34 - Guns And Roses? Não tenho nenhum CD. Mas se passar na rádio ouço. E, dependendo da música, posso até pôr mais alto.
35 - Não jogo Civilzation IV.
36 - Não sei o que é Civilzation IV.
37 - Se os tivesse lido se calhar não andava a mandar candidaturas para namorada. Se calhar bem preciso, não?
38 - Mais uma vez a minha ignorância: o que é Reiki?
39 - Nos actos de desespero vale (quase) tudo. Menos a violência e as ofensas verbais.
40 - Tenho uma gata. Não é bem minha. Ofereci-a ao meu filho o ano passado, como prenda dos 5 anos. Mas sou eu que despejo o caixote e aspiro os pelos. Esta desqualifica-me de vez?
41 - Não tenho muito jeito para contar anedotas, racistas, políticas, sexuais ou outras. Mas consigo rir muito de uma boa piada.
42 - Gorda, eu?
43 - Tatuagens não tenho. Mas tenho muitos sinais pelo corpo.
44 - Sou um pouco forreta. Não compro nada a não ser que precise mesmo. O meu telemóvel tem ecrã a preto e branco, não filma, nem fotografa. É do século passado, tal como eu.
45 - Sim, já casei e descasei, mas não filmei. Nem contratei fotógrafo (uma amiga com jeitinho tirou fotos e ofereceu-me um álbum como presente). Foi apenas um dia de festa com os amigos.
46 - Compro prendas no Natal. Esta não é negociável. Mas, como já disse, sou forreta. São apenas pequenas lembranças.
47 - Não grito durante o acto sexual.
48 - Nunca o faria. Nem a um inimigo.
49 - Se conseguisse dormir 9 horas seguidas já era uma festa...
50 - Ateia? Sim, podemos considerar que sim. Mas, ao tropeçar numa pedra, quando não posso dizer uma asneira, digo "valha-me Deus". Também calha usar a expressão "Deus queira que..."
Ufa! Já está? Quantos pontos tive?
E fiquei de novo à espera da resposta...
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RPM
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Etiquetas: Patrão fora dia santo na loja
Não, ele não se apressou a responder. "Mais uma louca", terá pensado. Deixou-me dois dias à espera da resposta, até que me escreveu de volta:
Raquel,
O departamento de marketing acusa a recepção do teu email, respondendo com os 50 (coisa pouca, portanto) requisitos mínimos que a candidata deve cumprir.
(Os leitores mais antigos poderão lembrar-se dum post chamado 50 requisitos mínimos, publicado em Novembro de 2008. Era a cópia da resposta ao meu e-mail.)
Beijos,
Bagaço.
"Esta agora", pensei eu, "o gajo não me levou a sério. Mas não há-de ficar sem resposta".
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RPM
à(s)
16:07
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Etiquetas: Patrão fora dia santo na loja
Quando este blogue foi criado, em 2006, eu ainda não sabia o que era um blogue. Na empresa onde trabalhava não havia internet e, em casa, com dois miúdos pequenos, não sobrava tempo para o mundo virtual.
Um novo emprego e um divórcio despertaram em mim a curiosidade pela world wide web. Dei por mim a passar os olhos por estes novos diários online, sendo que o Não compreendo as mulheres me chamou a atenção. Eles não nos compreendem, nós não os compreendemos a eles... Mas isso faz parte do desafio, não é?
Bom, após umas semanas de leitura passiva, decidi arriscar e enviei um e-mail ao autor, que transcrevo aqui:
Assunto: Candidatura (Att. Depto. Relações Privadas)
Bagaço Amarelo,
Estás a aceitar candidaturas para namorada? Existe um formulário para preencher? Quais os requisitos mínimos?
Assinado: Raquel, uma leitora do Blog
E aguardei, pacientemente, a resposta...
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RPM
à(s)
12:13
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Etiquetas: Patrão fora dia santo na loja
Caros leitores(as):
Já deixei o Bagaço no aeroporto. Isto agora está por minha conta. Eh! Eh!
Ass: Raquel
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RPM
à(s)
09:59
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Etiquetas: Patrão fora dia santo na loja
Como disse no texto abaixo, durante os próximos três dias vou estar em Bruxelas. Por uma vez vou abrir este espaço a quem não compreendo. Aliás, à mulher provavelmente mais incompreensível do mundo. Porque a incompreensão também pode ser, ou melhor, deve ser união.
Apresento-vos a Raquel, de quem às vezes falo aqui. Espero que gostem dela pelo menos uma centésima parte do que eu gosto, porque isso já é muito. E aos que aqui vão passando para ler o que escrevo deixo o meu abraço sincero. Sabe-me tão bem que existam. Obrigado.
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Ivar C
à(s)
22:50
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Etiquetas: a segunda vez, diversos
Tem chovido. Nunca me consegui explicar porque é que sinto semelhanças entre um dia de chuva e uma mulher que eu ame. A explicação mais óbvia será, muito provavelmente, que preciso da chuva para viver e que o seu toque nunca me foi indiferente. Mas há mais, talvez porque só a chuva e o amor sejam capazes de provocar dilúvios.
Dizia-me ontem uma amiga recente, acabadinha de chegar do Brasil, que Portugal lhe parece um país muito organizado e com gente simpática mas, e há sempre um mas, o Sol lhe faz falta. Nunca me consegui explicar porque é que sinto semelhanças entre um dia de Sol e uma mulher que eu ame. A explicação mais óbvia será, muito provavelmente, que preciso do Sol para viver e que o seu calor nunca me foi indiferente. Mas há mais, respondi-lhe eu como se a quisesse compreender, é do Sol que mais facilmente sinto saudades.
Na verdade é esse o cerne da questão. Quando se ama alguém tudo nos faz lembrar esse alguém a toda a hora, faça chuva ou faça Sol.
Amanhã vou apanhar o avião para uma curta visita a Bruxelas onde neste momento as temperaturas mais altas rondam os quatro graus celsius negativos. Não sei como vai ser o meu acesso à internet até domingo, mas a actualização deste blogue dependerá muito disso. O que eu tenho a certeza é que mesmo por pouco tempo vou ter saudades de quem amo. Ainda bem.
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Ivar C
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02:46
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Etiquetas: a segunda vez
Ela – Levar um homem para a cama é relativamente fácil.
Eu – Achas?
Ela – Acho. Eu, que nem sou uma mulher bonita por aí além, acho que consigo fazê-lo facilmente.
Eu – Tudo bem, mas então como é que o consegues?
Ela – Ei! Eu disse que não sou uma mulher bonita por aí além e tu aceitaste.
Eu – Não mudes de conversa. Diz-me lá mas é o teu método para levar um homem para a cama assim tão facilmente.
Ela – Deixa lá. Se calhar não funciona assim tão bem.
Eu – Mas agora tens que dizer...
Ela – Começa comigo a dizer que não sou bonita por aí além e com ele a dizer qualquer coisa do tipo: "és, és.".
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Ivar C
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02:43
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Etiquetas: conversas
(na rua)
Eu - Olá! Há tanto tempo. Estás bem?
Ela - Mais ou menos. Deixei de fumar há uns meses e estou a engordar muito. O meu marido já me começou a mandar bocas, que se calhar era melhor não ter deixado de fumar e isso. Não é só por eu estar a engordar, é porque ele também fuma e agora eu não consigo estar muito tempo perto dele para não me deixar cair na tentação. Além disso ando mais ansiosa e com os nervos à flor da pele. Até já me chateei no emprego e tenho que ter cuidado porque estou a recibos verdes e um dia destes ainda vou para a rua. O meu patrão até é porreiro mas, como se divorciou há pouco tempo, também anda mal com a vida e não está para brincadeiras, percebes? Ainda ontem tive que sair mais cedo para ir ao psiquiatra e ele não me queria deixar. É assim, só stress. E tu, estás bem?
Eu - Estou.
Ela - Ok! Tenho que ir andando. Vemo-nos por aí um dia destes.
Eu - Tchau!
Ela - Tchau!
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Lembro-me dela como de açúcar, que a sua presença me adoçava os dias amargos da solidão. E é assim que penso neles, nesses dias em que contava uma a uma as gotas de chuva que iam morrendo num voo suicida sobre as janelas da marquise. Dias amargos entre dois mundos: o mundo interior da minha casa e o mundo exterior da minha casa. Da imensidão do mundo exterior recebia às vezes a visita dela, e esses momentos eram os únicos em que eu não contava as gotas de chuva na janela. Ficava a ver os seus dedos finos a abraçar uma chávena de chá acabado de fazer para se aquecerem e a responder às suas perguntas. As nossas conversas eram sempre assim, com ela a perguntar e eu a responder preguiçosamente.
A minha preguiça, no entanto, não era uma fuga à sua presença. Antes pelo contrário, era uma forma de a prolongar. Esticava as palavras e temperava-as com um ou outro suspiro para render mais. Chegámos a estar tardes inteiras assim, com ela a perguntar e eu a responder, ela a perguntar e eu a responder, ela a perguntar e eu a responder. Fiquei a saber que podemos conhecer um pessoa não pelas respostas que dá mas sim pelas perguntas que faz. Tanto, que numa dessas tardes me apaixonei.
Quando estamos apaixonados queremos fazer amor, e quando queremos fazer amor as palavras deixam de o ser de facto. As nossas, para mim, passaram a ser um empecilho entre a marquise e a cama, e fui ganhando ciúmes até da chávena de chá onde ela aquecia as mãos. Depois, como o amor é sempre uma tempestade, deixei também de conseguir contar as gotas de chuva que se multiplicavam na janela quando ela não estava. Acho que foi num desses dias que ela não veio pela primeira vez. Talvez tenha tido medo da minha paixão, não sei. Nunca mais a vi.
Só um destes dias é que tornei a vê-la, por acaso, no formigueiro que era um dos centros comerciais da cidade. Convidei-a para tomar café. Ainda aquece as mãos frias nas chávenas quentes e acho que pela primeira vez foi ela a responder-me. "Lembras-te de mim?", perguntei-lhe como quem tem noção de que, fazendo parte de um mundo menor, possa ter sido esquecido. "Ia perguntar-te o mesmo", disse ela.
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(depois do jantar, com vinho nos copos, quando eu me preparava para começar a limpar o fogão)
Ela - Está quieto!
Eu - Vou só limpar o fogão e não faço mais nada. É só para esta sujidade não secar...
Ela - Eu sei, mas estás a limpar o fogão com um tira-nódoa para roupa.
Eu - Olha, pois estou. A forma da embalagem é igual à do desengordurante que uso para o fogão.
Ela - Lá está, és homem.
Eu - O que é que isso tem?
Ela - Só ligas à forma. Se te importasses em ler o que passa pela tua vida não te tinhas enganado.
Eu - Foi um gesto instintivo. Mais nada.
Ela - Talvez sim, mas é assim em tudo. Os homens só ligam a uma mulher se gostarem da forma dela, as mulheres gostam de ler o homem antes de se deitarem com ele.
Eu - E achas que os homens são todos assim?
Ela - Na verdade acho.
Eu - Se os homens são todos iguais então as mulheres são burras. Pelo menos na tua opinião.
Ela - Porquê?
Eu - Passam a vida a ler os homens apesar de eles serem todos iguais. É como ler o mesmo livro repetidamente a vida inteira.
Ela - Bem, também ligamos à forma, pronto. Mas pelo menos tentamos dar um enredo à coisa.
Eu - São líricas, portanto.
Ela - Sim, é mais ou menos isso.
Eu - Então vamos dar uma de lirismo e acabar a garrafa de vinho do jantar.
Ela - Vamos, até porque no vinho a forma não interessa. As garrafas são todas iguais. Interessa é o sabor, o aroma e a textura.
Eu - Hum... não sei porquê mas isso já me parece mais com o que um homem pode procurar numa mulher: sabor, aroma e textura.
Ela - Pois... uma mulher num homem também.
Eu - É tudo igual independentemente do género, não é?
Ela - É. Quer dizer... quase igual.
Eu - Quase?
Ela - Nós somos mais... mais... mais...
Eu - Mais teimosas?
Ela - Pelo menos isso.
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Ela - Cheguei à conclusão que é possível amar tanto um objecto como um homem.
Eu - Diz lá qual foi o objecto por que te apaixonaste. Estou curioso.
Ela - Por nenhum.
Eu - Por nenhum?
Ela - Por nenhum mesmo. Passei foi a ver o meu marido mais como um objecto do que como um homem.
Eu - Mas... como?
Ela - Não me interpretes mal. Há objectos antigos dos quais não me consigo livrar porque gosto muito deles. Só que normalmente esses são os objectos que já não servem para nada a não ser como... sei lá... decoração.
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O sexo tem velocidade, ou melhor, tem velocidades. Há sexo mais rápido e sexo mais lento, e isso lembra-lhe ao que se resumia a sua opinião sobre o cinema quando era criança. Alguns filmes eram lentos, outros eram mais rápidos. Normalmente preferia os filmes rápidos e quando a televisão emitia um filme lento ela protestava. Dizia que “o filme era muito parado”.
Com o sexo também foi assim. Preferiu sempre o sexo mais rápido do que o sexo mais parado. Os motivos é que são diferentes. Quando via filmes na televisão em pequenina era a receptora e exigia essa velocidade do emissor. Queria romance. No sexo, sem perceber como, habituou-se a ser ela a emissora e o marido receptor. No fundo ela estava ali para lhe agradar, e por isso é que imprimia a velocidade. Às vezes até dizia coisas que não sentia, como “gosto quando és bruto!” ou lhe pedia para a dominar.
Por isso é que ainda não adormeceu e já a noite se dissolve na doce luz da manhã que se vem deitar ao lado dela. Ontem deitou-se pela primeira vez com um desconhecido com que se cruzara por acaso no bar do hotel. Sexo descomprometido, que na conversa de engate durante uma margarita ambos se disseram casados e ambos abanaram os ombros sobre o barómetro da felicidade dos respectivos casamentos. Nem sequer sabiam se tinham um casamento feliz ou ou casamento triste. Depois, só por acaso, as mãos de ambos tocaram-se no botão do elevador e já não se separaram mais. Fora assim, dadas, até um dos quartos. Por sinal o dela.
Ali pisaram a fronteira da legalidade com um primeiro beijo tão brando quanto o fim do voo duma ave. Depois, a fronteira da legalidade tem a mania de ser assim: só custa a transpor a primeira vez. Fizeram amor como exploradores que esquadrinham a área a Lua pela primeira vez. Devagar, e com interesse por cada centímetro quadrado do corpo. E, tal como na Lua, sentiram a falta de gravidade e voaram. Ele dentro dela e ela dentro dele. Tão devagar que o sono ainda não passou por ali. Até agora, que ele saiu deixando nos lençóis apenas o calor do corpo. Ela fecha os olhos. Se calhar tem que rever o filme da sua vida.
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Ela – Achas que o Júlio e a Sandra têm uma relação não assumida?
Eu – Não acho nem deixo de achar. Porquê?
Ela – Andam sempre os dois juntos...
Eu – Não acho que o facto de um homem sair com uma mulher signifique obrigatoriamente que tenham uma relação.
Ela – Esse é que é o teu problema.
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Ela - Já tiveste sexo com alguma mulher de quem nem sequer te lembres?
Eu - Não sei.
Ela - Não sabes?
Eu - Se tive, não me lembro.
Ela - Não é isso. Estou a falar duma situação em que te lembras que tiveste sexo mas não te lembras bem com quem.
Eu - Que raio de pergunta...
Ela - É que queria perceber porque é que um tipo com quem estive há um mês atrás não me telefona nem me atende o telefone.
Eu - Há um mês atrás?
Ela - Sim, acho eu. Já não me lembro bem...
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Ele está na janela da sala. Observa as mulheres que passam na rua e pensa que se podia apaixonar por cada uma delas, se por acaso o destino alguma vez o cruzasse com elas.
Ela está sentada no sofá. Observa-o a ele e sabe que, se por acaso nunca o tivesse conhecido, ele seria apenas mais um por quem passaria eventualmente na rua. E se passasse o mais provável era nem reparar nele.
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Ela - Tenho que deixar de comer torradas com manteiga ao pequeno-almoço, pá.
Eu - Então?
Ela - Tenho que ter cuidado com o colesterol.
Eu - Ah! Fazes bem, nós somos mesmo aquilo que comemos.
Ela - Pois somos, eu que o diga. Ando a comer um colega do escritório desde o princípio do mês e ando toda alterada com isso.
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(a propósito do meu pensamento catatónico 222)
Ela - Se eu morrer um dia destes fazes-me uma coisa?
Eu - O quê?
Ela - Em vez de ires ao meu funeral, juntas alguns amigos e bebem uns copos a pensar em mim.
Eu - Ah! Está bem. Isso não custa nada.
Ela - Caraças. Não custa nada?
Eu - Não. Quer dizer, não custa nada beber uns copos. Tu morreres ia custar um bocadinho.
Ela - Só um bocadinho? Vai-te lixar.
Eu - Eu disse só um bocadinho porque pensei que era isso que querias que eu dissesse. Se querias que eu bebesse uns copos era para não sofrer. Certo?
Ela - Errado.
Eu - Errado?
Ela - Errado. Era para tu sofreres muito mas a pensares que eu não queria que sofresses.
Eu - Começo a ficar com dores de cabeça com isto.
Ela - Esquece, esquece...
Eu - Já esqueci. Afinal nem sequer quero pensar na tua morte.
Ela - Ah! Assim é melhor.
Eu - Mas eu só falei por tua causa...
Ela - Não digas mais nada. É melhor. Quando falas, ou entra mosca ou sai asneira.
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Ele decidiu fingir que adora o timbre da voz dela, mas não adora. Na verdade às vezes até o irrita, principalmente quando atinge um leque de frequências mais agudas que o faz lembrar uma mulher a ralhar com uma criança. Fê-lo de forma consciente, para não perder aquilo de que realmente gosta nela: o sexo. Ela decidiu fingir que gosta das piadas dele durante as refeições, mas não adora. Na verdade normalmente nem as percebe muito bem, já que são quase sempre sobre futebol, e do pouco que percebe até as acha estúpidas. Fê-lo de forma consciente, para não perder aquilo de que realmente gosta nele: o sexo.
Andam assim há anos, desde o deslumbramento da primeira noite na cama. A ela nunca lhe tinham feito um minete tão certo, e certo é o adjectivo que o qualifica realmente, pela pontaria e pela subtileza. Tanto, que a fez esquecer-se da língua de gato do seu ex-marido. A ele nunca lhe tinham feito um felatio tão profundo, e profundo é o adjectivo que o qualifica realmente, pela forma como ele se lembra dos lábios dela a beijarem-lhe os pêlos púbicos. Tanto, que o fez esquecer-se das constantes recusas da ex-namorada em fazer sexo oral. Desde então que estão juntos numa relação que depende exclusivamente do sexo. Quando este acabar, acaba também a relação. Algumas relações são assim, outras não. Ambos sabem disso.
É por ambos saberem disso que hoje aceitaram a mentira um do outro. Ele telefonou-lhe do escritório a meio da tarde, disse que tinha que trabalhar durante toda a noite e não podia ir dormir a casa. Ela fingiu acreditar e desejou-lhe boa sorte. Um “boa sorte” honesto até, já que sabia perfeitamente que ele ia sair para o engate. Depois de desligar desejou boa sorte a si mesma também.
Sair para o engate quando não se precisa de sexo é diferente de sair para o engate quando não se quer outra coisa. Ele percebeu isso na primeira tentativa, enquanto se oferecia para pagar, ao balcão de um botequim de esquina, uma bebida a uma desconhecida que se apressou a encostar-lhe as mamas na barriga e apertar-lhe o falo com os seus dedos de aranha. Ia perguntar se ele tinha alguma coisa no bolso ou se estava contente por a ver, mas ele não estava nada contente por vê-la. Infelizmente também não tinha nada no bolso. Pagou-lhe a bebida e foi-se embora fazer aquilo que pensara fazer por uma vez na vida com uma mulher: passear na marginal e falar. E fê-lo, só que falando consigo mesmo.
Sair para o engate quando não se precisa de sexo é diferente de sair para o engate quando não se quer outra coisa. Ela percebeu isso na primeira tentativa, enquanto apreciava os lábios dum homem a remexer um palito entre dentes com nódoas verdes de esparregado. Do peito saiam-lhe alguns pêlos arduamente penteados e da boca alguma palavras arduamente soletradas. Tens uns pára-choques fixes, cuspiu ele. Ela acabou por fugir aproveitando uma suposta ida à casa de banho. Queria, por uma vez, dar a mão a um homem e dividir o prazer de ver montras com ele, mas acabou por dar as suas próprias mãos uma à outra enquanto encostava a cabeça ao vidro duma loja abandonada.
Talvez por isso continuem os dois a dividir a vida. Ele fingindo que gosta da voz dela, ela fingindo que percebe as piadas dele. Sempre com muito sexo que, afinal, talvez não seja só isso.
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Ela - As mulheres precisam menos de sexo do que os homens.
Eu - Como é que sabes?
Ela - Sou mulher e vivo com um homem.
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Ela - Ando a tentar ter uma vida social mais activa.
Eu - Acho que fazes bem.
Ela - Acho que se tiver uma vida social mais activa tenho também mais oportunidades de conhecer homens interessantes.
Eu - Pois... é possível. E o que é que andas a fazer para ter uma vida social mais activa?
Ela - Para já fiz uma lista com as minhas amigas que eu acho que são mais feias do que eu. Agora vou convidá-las, uma a uma, para sairmos uma noite destas.
Eu - Quem é que está na tua lista?
Ela - Que tu conheças está pelo menos a Márcia*
Eu - A Márcia não é...
Ela - Não é o quê? Não me digas que ela não é mais feia do que eu.
Eu - Não, não. Estava a dizer que a Márcia é bonita.
Ela - Bem... acho que é melhor riscar a Márcia e passar para a seguinte.
Eu - Qual é a seguinte?
Ela - Não digo. Começas a dizer que elas são bonitas e daqui a pouco não tenho ninguém para convidar.
Eu - Pronto. Quantos nomes tens?
Ela - Três.
Eu - Ok... ainda te restam duas amigas mais feias do que tu.
Ela - Não achas pouco?
Eu - Sei lá, não acho nada. O que é que eu hei-de achar?
Ela - Devias achar pouco.
Eu - Opá... se quiseres vou eu contigo. De certeza que a maior parte dos homens que se possa interessar por ti me acha mais feio do que tu.
Ela - Mas tu és homem. Se eu sair com um homem nenhum se vai interessar por mim.
Eu - Isso não é ter uma vida social mais activa. Isso é sair para o engate.
Ela - É?
Eu - É. Uma vida social mais activa é saíres comigo e ires conhecendo amigos meus e eu amigos teus.
Ela - Isso não quero. Prefiro o engate, então.
* nome fictício
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Hoje o comboio onde eu seguia de manhã no sentido Porto-Aveiro atropelou uma senhora. O revisor percorreu todo o corredor central da composição para informar que a viagem ia atrasar bastante. Lá dentro, apesar da morte nos carris, a vida continuou. Uns protestavam com o atraso, outros telefonavam para parte incerta, outros liam o jornal como se nada fosse. Não sei explicar bem porquê mas esta mania que a vida tem de continuar sempre, independentemente do que nela acontece, faz-me confusão. Alguns passageiros saíam pela única porta aberta para ir ver o cadáver. Eu, que não tenho prazer nenhum em ver cadáveres, encostei a cabeça a uma das janelas e tentei adormecer. Quando a vida continua sem eu perceber porquê é o que faço: tento dormir.
Foi com a cabeça encostada ao vidro da janela que tentei visitar outros momentos em que fiz o mesmo: tentar adormecer para contornar a sôfrega e intrigante respiração da vida. Foram todos momentos em que, por uma razão ou outra, um Amor terminara ou estava em vias de terminar. Passei o resto do dia com esta transparente indisposição. Não pela morte da senhora em si, mas pelo paralelismo que estabeleci sem querer entre o fim da vida e o fim do Amor. Não é a mesma coisa, pois não?
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Ela - Hoje não tenho ninguém para sair à noite.
Eu - E o teu marido?
Ela - Está um bocadinho chateado comigo.
Eu - Jantar fora e beber um copo num bar simpático pode ser uma boa maneira de fazer as pazes com alguém.
Ela - Bem... ele está muito chateado comigo.
Eu - Mas está assim tanto que nem as pazes quer fazer?
Ela - Para ser sincera ele está é amuado comigo.
Eu - Mas o que é raio aconteceu?
Ela - Perguntei-lhe se ele não era capaz de se despachar.
Eu - Despachar?
Ela - Sim, durante o sexo.
Eu - Ah!
Ela - Eu já estava satisfeita e ele nunca mais acabava...
Eu - Ah!
Ela - E estava quase a começar um programa de televisão que eu queria ver...
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Ela - Ando há que tempos para explicar ao meu marido que preciso de vida própria.
Eu - Não tens vida própria?
Ela - Acho que o facto de viver com ele e praticamente já não fazer nada sem ele está a matar lentamente a nossa relação. A única coisa que faço sem ele é trabalhar no escritório...
Eu - Eu percebo isso perfeitamente.
Ela - Percebes?
Eu - Percebo.
Ela - Mas há uma vantagem nisto tudo.
Eu - Qual é?
Ela - Não odeio completamente o meu trabalho. Na verdade até começo a gostar de ir trabalhar.
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...para informar que hoje à noite no Clandestino Bar, em Aveiro, os Couscous Prosjekt vão passar música toda a noite. A mariana também vai...
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Ela - O ciúme que um homem tem é maior quanto mais inseguro esse homem é.
Eu - De certeza?
Ela - Sim, o meu marido anda muito ciumento, e isso tem a ver com o facto de estar a ganhar uma barriguinha e de ainda haver homens que olham para mim na rua...
Eu - Acredito que haja homens a olhar para ti na rua, não acredito é que ele esteja inseguro.
Ela - Está, está. Não o assume mas eu noto.
Eu - E tu? Nunca tens ciúmes?
Ela - Tenho, claro que tenho. Mas as mulheres não têm ciúmes por insegurança.
Eu - Então é porquê?
Ela - Quanto mais detestam a gaja que se meter com o homem delas, maior é o ciúme que sentem.
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Lembro-me de ter que pôr as duas mãos em cima do velho balcão de madeira da loja e içar-me para conseguir ver os vários piões que o senhor Chico punha à minha disposição. Depois pegava neles deixando-me cair no chão para os poder observar ao detalhe. Fazia isto um a um antes de escolher o pião ideal. À noite, o meu avô observava-o também e aprovava ou não a minha decisão.
E se cedo a minha vida com as mulheres começou a falhar (a Helena, a Teresa e a Márcia nunca me ligaram nenhuma durante o ciclo preparatório), não foi por causa da minha falta de investimento pessoal nessa primeira formar de afirmar a masculinidade. Os rapazes tinham piões, as raparigas não. E numa aula de Ciências da Natureza sobre transferências de energia em que era preciso escolher um aluno para demonstrar como se transferia a energia para o pião, fui eu o escolhido com o voto quase unânime de todas elas. Por uma vez na vida todas as miúdas, ou quase todas (raios Márcia, eras sempre tu), escolheram-me a mim para alguma coisa.
No recreio jogava-se ao Racha. Fazia-se um círculo no chão e tinha que se conseguir que o pião começasse dentro desse círculo e acabasse fora, caso contrário ficava onde estava para os outros jogadores tentarem parti-lo. Normalmente partiam-no mesmo. Depois vinham as lágrimas e um pontapé ou outro de vingança. Era um jogo viril e uma aprendizagem para a vida. Não se podia falhar.
Agora mataram o pião. Ontem os meus enteados apareceram em casa excitados com um brinquedo novo, uma coisa de plástico e metal chamada beyblade. É uma maquineta às cores que faz um pião girar sem hipótese de erro. Aquilo gira sempre, basta puxar uma espécie de cordel e já está. Depois os vários beyblades vão girando uns contra os outros até o último parar. Mais nada. Nunca se partem nem exigem o aperfeiçoamento da técnica para enrolar o cordel. É o fim do pião. É o fim de tudo.
O governo devia proibir imediatamente a importação do beyblade. Qualquer dia vemos os velhotes no parque a jogar à malha ou à petanca com peças de plástico e um contador electrónico a pilhas. Não me fodam, há coisas que não deviam mudar.
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Ela - Mais uma amiga minha que engravidou sem querer.
Eu - Sem querer?
Ela - Sim, acho que ela e o namorado utilizam o método do "tirar fora na hora h".
Eu - Bem... deviam saber que não é um bom método.
Ela - Não deviam nada. Ela está tão feliz...
Eu - Feliz? Se calhar engravidou mas foi por querer engravidar.
Ela - Oficialmente foi sem querer, isso é que interessa.
Eu - Interessa como?
Ela - É mais bonito engravidar sem querer. Quer dizer que há tanta paixão naquele casal que nem conseguiram separar-se a tempo.
Eu - Não estás a falar a sério, pois não?
Ela - Claro que estou. Tu é que és um insensível.
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(ao telefone)
Eu (atendendo) - Olá! Diz depressa que estou a conduzir.
Ela - Estás a ir para onde?
Eu - Para o trabalho. Diz depressa...
Ela - Encosta.
Eu - Não posso, estou na auto-estrada. Diz depressa...
Ela - Não dá para encostares só um bocadinho?
Eu - Não posso. Diz depressa...
Ela - Mas vai trabalhar até que horas?
Eu - Não sei. Até tarde de certeza. Diz o que querias dizer depressa, por favor...
Ela - Olha, esqueci-me do que te ia dizer. Telefono-te outra vez quando me lembrar.
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Nunca durmo com a persiana totalmente fechada. Gosto que a luz do dia se intrometa lentamente nas minhas pálpebras e me acorde com a suavidade que só a luz sabe ter. Esta foi sempre uma das minhas incompatibilidades naturais com as mulheres, que têm a mania de tapar qualquer orifício do quarto por onde o Sol possa espreitar de manhã.
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Ela - Acho que estou apaixonada.
Eu - Achas ou tens a certeza?
Ela - Acho. Ainda não fui para a cama com ele.
Eu - E só depois de ires para a cama com ele é que sabes se estás apaixonada?
Ela - Só depois de ir para a cama com ele é que sei se me quero apaixonar.
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Faço parte do grupo de pessoas que não se lembra de ver a tinta duma esferográfica chegar ao fim. Provavelmente nunca vi. Perco-as, 'emprestado-as' ou simplesmente estrago-lhes o bico ao escrever uma palavra mais nervosa, mas de todas as esferográficas que comprei nunca nenhuma morreu nas minhas mãos. Pior, comprando-as regularmente, sou aquele que nunca tem uma à mão quando é mesmo preciso.
Às vezes penso nisso e tenho pena. Gostava de pelo menos uma vez na vida fazer uma homenagem decente a quem me dá tanto (e este 'quem' refere-se, de facto, às esferográficas). É que numa esferográfica já vêm as palavras todas que nós queremos escrever. Basta-nos tirar a tampa, chamá-las no nosso pensamento, e dispô-las numa folha de papel pela ordem que queremos.
Engana-se quem acha que falar é o mesmo que escrever, e que por isso a nossa língua e os nossos lábios podem ser uma alternativa fiável a uma caneta e um pedaço de papel. Não é. Aliás, o Amor é a primeira prova disso. Sou capaz de jurar que todos aqueles que confessam o seu Amor pela primeira vez na vida o fazem através da escrita e não através da fala. A explicação é simples: a folha de papel na qual escrevemos é sempre compreensiva. Os outros, aqueles a quem falamos, não são. Principalmente quando falamos de amor.
Há uns dias, enquanto folheava alguns cadernos do liceu, encontrei uma folha de papel que tem uma das primeiras confissões de Amor que fiz. Li-a e reli-a várias vezes, como se aquele pedaço de papel fosse uma vida qualquer adormecida. E acordei-me. Lembro-me tão bem de o escrever numa aula de Matemática enquanto fingia ouvir a professora.
Passaste agora do outro lado da janela. Passaste e na paisagem ficaram os cabos de alta tensão que parecem a pauta duma música qualquer que fala de ti. Que te canta. Neles, com o céu ao fundo, os pardais são as notas soltas que dançam.
Há bocado sentei-me num café e rasguei uma folha dum caderno que tenho na mala do computador. Queria reescrever este pequeno pedaço da minha adolescência. Torná-lo mais adulto, talvez. Depois procurei em todos os bolsos do casaco uma caneta que comprei há uns dias num supermercado e nada, já não a tinha. Provavelmente deixei-a ontem num restaurante onde a usei para escrever uma nota num cartão de apresentação que entreguei a um conhecido. Fiquei por isso novamente a ler e reler aquela minha confissão fossilizada num papelinho há mais de vinte anos. Reli-a tantas vezes que acabei por falar alto sem querer. Talvez as pessoas que tomavam café na mesa ao lado tenham ouvido. Sei que pela primeira vez na minha vida fiquei feliz por não ter uma esferográfica à mão. Há, de facto, confissões de Amor que se fazem a uma folha de papel, mas só devemos fazê-las uma vez. À segunda, nem que seja mais de vinte anos depois, devemos dizê-las. Ou cantá-las até. Sei lá. E eu estou a dizê-la, sem a reescrever, à Raquel.
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O resto... logo se vê
Seca a face com a toalha prolongando o momento. Já não se lembra muito bem do último abraço que recebeu sem ser duma toalha de rosto e, talvez por isso, a beije agora enquanto se enrola nela como um caracol que se fecha na própria concha.
Já se tinha habituado à falta duma voz constante dentro de casa, mas é a primeira vez que sente verdadeiramente solidão sexual. Talvez porque as vozes dos homens dos anúncios na secção Relax do Jornal de Notícias não passassem duma ou outra pergunta do tipo “quer ficar por cima ou por baixo?”, “quer começar com um minete?” e, antes de saírem, “posso usar a sua casa de banho?”. Sexualmente satisfaziam-na, verbalmente não. E com o tempo foi ligando cada vez menos até abandonar completamente a ideia de que um prostituto pode substituir um companheiro.
Quando se divorciou foi mesmo isso que pensou, que a partir daí o melhor era nunca mais se envolver emocionalmente com ninguém e, uma vez por outra, pagar para ter sexo. A ideia brilhante foi-se desfazendo até que um homem que, segundo o seu anúncio, era “um canhão latino pequeno mas grosso”, começou a chorar em pleno acto e perdeu o tesão. Acabaram os dois abraçados na cama com ele a contar a sua vida desgraçada e como tinha acabado na prostituição. No fim perguntou-lhe se podia usar a casa de banho e depois saiu envergonhado sem cobrar os oitenta euros estipulados.
Desde então que os sons do rádio da cozinha enquanto faz o jantar, da televisão da sala enquanto janta e do vibrador a pilhas quando se deita, têm sido os únicos a propagar-se dentro daquelas paredes. Talvez seja a altura de aniquilar esse silêncio constante da sua vida, pensa. Dá mais um beijo na toalha antes de a deixar cair no chão para se ver nua no espelho da casa de banho. Ver-se mesmo, com a coragem que uma divorciada de quarenta anos e três filhos tem que ter, e não apenas mirar-se como se tivesse medo de enfrentar o tempo que vai passando pelo corpo. Ainda está boa, considera, e considera-o para si mesma e não para mais ninguém. É ela que tem que se achar bonita, é ela que tem que gostar de si. Ponto final.
E gostando de si vai tirar os pêlos das pernas e o pó dos melhores vestidos que tem no armário. Vai jantar sozinha num bom restaurante da cidade e depois beber um vermute num bar qualquer. Consigo mesma. O resto... logo se vê.
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(no café)
Ela – O meu marido perguntou-me se eu já o traí alguma vez desde que casámos. Acreditas nisto?
Eu – Acredito em quê? Que ele te perguntou isso ou que já o traíste?
Ela – Caraças! Vocês são todos iguais.
Eu – Iguais como?
Ela – Esquece.
Eu – Pronto, já me esqueci.
Ela – Não esqueças nada, pá. Tens que insistir comigo.
Eu – Insistir em quê?
Ela – Ao menos tenta perceber por que motivo eu acho anormal ele perguntar-me isso.
Eu – Ok... explica lá.
Ela – Tenta perceber sem eu explicar.
Eu – Sem tu explicares? Como é que eu faço isso?
Ela – Pensa...
Eu – Vou pedir uma cerveja, então. Queres uma?
Ela – Não se pergunta a uma mulher com quem se vive há mais de dez anos se ela o anda a trair ou não, porque isso é sinal de desconfiança. Percebes?
Eu – Percebo isso mas também acho que é melhor perguntar do que andar na dúvida, e se ele te perguntou isso é porque sente um ciúme qualquer e portanto ainda gosta de ti.
Ela – Ainda? Porquê ainda?
Eu – Nada, nada. Queres uma cerveja ou não?
Ela – Não pedes cerveja enquanto não me explicares esse 'ainda'. Achas que já não era suposto ele gostar de mim, é?
Eu – Acho que se ele te perguntou isso foi sincero. Podias simplesmente responder que não e deixar-te de merdas sobre o que se deve ou não perguntar à companheira.
Ela – Nem pensar nisso. Ele tem que confiar em mim ou ficar na dúvida.
Eu – Já posso pedir uma cerveja?
Ela – Pede lá a porcaria da cerveja. Eu quero um uísque e um chocolate.
Eu -Um uísque e um chocolate?
Ela – Sim.
Eu – De certeza?
Ela – Sim, não me chateies.
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Ela - Este fim de semana aprendi uma grande lição de vida.
Eu - Qual?
Ela - Uma mulher nunca deve ir para a cama com o seu melhor amigo.
Eu - Não me digas que vais perder um bom amigo só porque foste para a cama com ele.
Ela - Não é isso.
Eu - Então.
Ela - É a imagem com que fiquei dele.
Eu - Imagem?
Ela - Sim, ele era um tipo que eu considerava estável e bom conselheiro. De repente vê-lo a babar-se todo... nem sei que te diga... acho que nunca mais olho para ele da mesma forma.
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Eu - Estás tão bonita.
Ela - Isso são os teus olhos.
Eu - Se calhar são.
Ela - Não são nada, não são nada.
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(entre duas miúdas, hoje, no comboio urbano sentido Aveiro-Porto)
Ela - As bananas verdes são ideais para quem tem diarreia.
Ela 2 - São?
Ela - São.
Ela 2 - E onde é que as metes?
Ela - Não meto em lado nenhum. Como-as.
Ela 2 - Ah! Como disseste que eram só as bananas verdes...
Ela - As maduras têm o efeito contrário...
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Deu-se agora conta que tem passado bastante tempo a sonhar acordado. Por exemplo, viu um avião a cruzar os céus e imaginou-se nele a viajar para Banguecoque com aquela que acredita amar. Acabou de aterrar e percebeu que o café que a empregada lhe trouxe já está frio. Arrefeceu durante esse prolongado voo imaginário, assim como o seu espírito, que arrefece também também cada vez que desperta de um desses sonhos acordados. Têm sido tantos...
Deu-se agora conta que o Amor não o é apenas pela mulher acredita amar. É um desejo à partida seja por quem for, e por isso quando não se ama ninguém ama-se pelo menos a vontade de amar. Procura-se cumprir essa vontade, depois, em sonhos que se cumprem à hora do café. A uma hora qualquer, até, e assumiu que todas as pessoas absortas por quem passa estão a sonhar como ele. A mulher com a testa encostada à janela do autocarro, o homem sentado num banco de jardim, o condutor que não percebe que o semáforo passou de vermelho para verde, o estudante deitado na relva do liceu...
Deu-se agora conta que o desejo de amar é a nascente da solidão, e que um acto casual de sexo é mergulhar os pés na correnteza que dela brota. Sabe tão bem. Talvez por isso se tenha dado conta agora mesmo que a empregada é boa, e não quer usar outra palavra para a definir. É boa mesmo e pronto. Por isso é que lhe beija as costas cuja quietude dá início a um doce terramoto, e depois os lábios tremem, as mãos também, os seios também, as nádegas também e a vagina também. Talvez o mundo esteja todo a tremer. Por isso acorda. A chávena de café continua cheia. E fria.
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Gosto desta música como já gostei de algumas mulheres. Não é preciso dizer mais nada. Já gostei de algumas mulheres através da voz. Ouvi-as sem as ver e isso chegou para me apaixonar. Apaixonarmo-nos por uma música tem essa vantagem: basta ouvi-la para nos sentirmos bem. É como com as mulheres por quem nos apaixonamos desta maneira. Às vezes uma mulher pode ser uma música e uma música pode ser uma mulher.
A propósito, hoje os Couscous Prosjekt estão no mercado Negro, em Aveiro, a partir das 22:45 (mais ou menos). Sejam felizes...
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Etiquetas: o gajo pensa que é artista
Ela - Hoje ao almoço tive uma discussão brutal com o meu marido.
Eu - Tens que ter calma. Às vezes acontece.
Ela - Calma o tanas. Estava mesmo a precisar...
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(no café)
Ela - Com quantas mulheres é que já foste para a cama?
Eu - Sei lá.
Ela - Foram assim tantas?
Eu - Não é isso. Só que agora, assim de repente, não te sei dizer.
Ela - Se tivesses ido só com uma lembravas-te de certeza.
Eu - Mas porque é que raio queres saber isso agora?
Ela - Só curiosidade.
Eu - Mas não te sei responder...
Ela - Eu acho é que não queres responder.
Eu - Se calhar.
Ela - E no último ano? Com quantas mulheres é que foste para a cama no último ano?
Eu - Uma.
Ela - Uma?
Eu - Sim... namoro há dois anos.
Ela - Não tens piada nenhuma...
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Ela - Tenho um problema: amo um homem de quem me cansei.
Eu - Mas amas mesmo?
Ela - Amo, sei que sim. O que eu queria era poder chegar ao pé dele e dizer que quero fazer um intervalo de um ano na nossa relação.
Eu - Hum... percebo. E o que é que fazias nesse ano?
Ela - Andava com outros homens, claro.
Eu - Claro?
Ela - Sim, um dos motivos pelos quais eu me sinto cansada é que ando com ele desde o liceu. Só tenho uma vida e nunca experimentei outra coisa. Percebes?
Eu - Mas se lhe pedires esse ano ele não vai aceitar facilmente, pois não?
Ela - Não. Embora eu ache que ele está tão cansado de mim quanto eu dele.
Eu - Isso não facilita as coisas?
Ela - Não. Se ele me viesse pedir esse ano eu também reagia mal. Não o quero perder, só quero desenjoar dele, percebes?
Eu - Sim, percebo. Queres esse ano de intervalo mas não queres que ele também queira. No entanto achas que ele também quer... O ideal seria ele compreender que tu tens essa necessidade de experimentar outras coisas e ficar à tua espera fechado em casa.
Ela - Sim... é mais ou menos isso.
Eu - Pois... as coisas não são assim, pois não?
Ela - Pois não, eu sei. O que é que hei-de fazer?
Eu - Tens três hipóteses. Ou lhe pedes esse ano e sofres as consequências, que podem ser várias; ou não lhe pedes e manténs esse cansaço na tua vida enquanto der.
Ela - E a terceira hipótese qual é?
Eu - Acabamos de beber esta garrafa de vinho, abrimos outra, eu asso uma chouriça e ficamos na conversa até às tantas.
Ela - Opto por essa.
Eu - Óptimo.
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O que eu quero é dizer-te que te amo. O problema é que dizer isso só assim parece sempre pouco. Deixa-me ver... é a mesma sensação que tinha em criança quando saltava para tentar tocar no tecto da sala e nunca conseguia. Vou tentar saltar mais desta vez...
O que eu quero dizer-te é que há bocado estava sentado num banco dum jardim qualquer numa cidade qualquer e o vento veio tocar-me. Abraçou-me os ombros e eu pensei que eras tu, apesar de saber que estavas a muitos quilómetros de distância. Isso acontece-me sempre, pensar que és tu quando um estímulo qualquer investe no meu corpo. Depois pensei que aprendi contigo que o Amor também é isso: achar que és tu quando a natureza respira.
Ontem, por exemplo, fiquei a ver a luz levantar voo devagarinho enquanto as sombras povoavam as ruas. Cada uma dessas sombras que ia surgindo me parecia sempre que eras tu, mesmo sabendo que não eras. Até cheguei a seguir uma delas com o olhar, convencido que a sua metamorfose se revelaria em ti. Não revelou, acho que entrou num automóvel qualquer e depois partiu, mas fiquei a saber que aprendi contigo que o Amor também é isso: achar que és tu a revelação da natureza.
O que eu quero mesmo é dizer-te que te amo. O meu problema é que nunca consigo. Até já pensei que é por ser homem que não consigo. Mas tento, a sério que tento. Talvez um destes dias toque no tecto...
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Etiquetas: a segunda vez
(entre duas crianças no comboio)
Ele - Não gosto nada de beijos.
Ela - Os grandes beijam-se uns aos outros na boca, não é na cara.
Ele - Isso não são beijos.
Ela - São beijos, sim.
Ele - Não são nada que eu já vi. Metem a língua dentro da boca do outro para lhe limpar os dentes.
Ela - É?
Ele - É.
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(no café)
Eu - Que horas são?
Ela - São horas de eu decidir se ponho ou não fim a o meu namoro de dois anos.
Eu - Ahn?
Ela - São horas de eu decidir a minha vida.
Eu - Eu só queria mesmo saber que horas são. O relógio deste café está parado.
Ela - Ah! São duas e meia.
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Etiquetas: conversas
Ela - Vou tirar este fim de semana para estar com algumas amigas minhas. Tudo mulheres.
Eu - Fazes bem.
Ela - Não sei se faço.
Eu - Porquê?
Ela - Isto de sair só com mulheres pode querer dizer duas coisas.
Eu - Que coisas?
Ela - Ou tenho uma idade mental ainda de garota ou já tenho uma idade mental própria da terceira idade.
Eu - Não percebo.
Ela - Acho que só tem lógica sair com as amigas quando ainda somos garotas ou quando já estamos velhinhas...
Eu - Mas porquê?
Ela - Quando somos garotas os homens ainda são estúpidos, quando ficamos velhinhas os homens já são estúpidos outra vez.
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zapping ao pequeno-almoço
Os ecrãs dos nossos televisores estão empanturrados com uma publicidade da Meo, feita pelos Gato Fedorento, que apregoa que aquele é o serviço de televisão por cabo com o zapping mais rápido do mercado. Mais nada, só isso. E para prová-lo montaram um laboratório gigantesco onde comparam aquele ao zapping da concorrência. A Meo é portanto a assumpção de que as pessoas já não param para contemplar nada, nem que seja um mísero programa na televisão, e que preferem passar (que é como quem diz perder) as noites a saltar pelos canais todos.
O problema é quem faz zapping acaba por ver um pouco de tudo sem perceber de facto nada, e isto não seria um problema se não se estendesse à nossa própria vida, incluindo ao nosso próprio Amor que, principalmente por força do endeusamento da Economia, se está a transformar em mais um programa no meio de muitos pelo qual passamos às vezes os olhos. Hoje tomei café de manhã numa pastelaria dos subúrbios da cidade onde vi uma mulher despedir-se do companheiro levando a mão à boca para simular um beijo. Não o beijou de facto e depois saiu a correr para apanhar um autocarro cujos freios já se faziam ouvir. Depois vi-o a ele a encolher-se perante o copo de galão meio vazio e a torrada mal roída que ela deixou em cima da mesa. Acho que o povoou uma qualquer sensação de abandono.
O zapping é essencialmente isto: abandono. E eu não queria que ele passasse por mim. Se eu podia viver com ele? Podia. Mas não era a mesma coisa.
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Etiquetas: pensamentos catatónicos
Mais algumas busca no google que vieram aqui dar...
como ganhar um bom rabo
Eu, mesmo sem ser um grande especialista no assunto, aconselhava a pedir mais do que uma opinião neste assunto.
eu me apaixonei por um homem da net mas ele não me ama
Às tantas é por ter sido pela net. Digo eu, sei lá...
mulheres nervosas ao extremo
Isso não existe, pois não? Mulheres nervosas... naaaaa. Nunca ouvi falar.
Mais algumas buscas no Google que vieram aqui dar...
mulheres sensuais de rabo de peixe
Até podem ser sensuais. Não as aconselho é a dizer de onde são logo assim à primeira. Podem perder a sensualidade...
mulheres trazando com porco
Epá, isso tem muito que se lhe diga. Um gajo usa as mesmas meias três ou quatro dias seguidos e elas já acham que um gajo é porco.
porque as mulheres gostam de espremer espinhas
É verdade que gostam, mas eu acho que gostam mesmo é de espremer um gajo. As espinhas são uma desculpa.
sexo com velhas 95 anos
Se fosse com novas de 95 anos admito que ficava mais espantado.
sexo de porco com porcas
Portanto, tem um porco e várias porcas. É isso? Hum... hum... feliz, o porquinho.
significado uma pessoa flatulenta
Espero que não seja tarde demais mas vou dar uma pista: não é tocar flauta.
vidios de sexo gratis de mulheres com porcos
Um pedido tão específico e tem que ser grátis?
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Etiquetas: buscas
Ela - Os homens deviam perceber que não se deve dizer a uma mulher mal dum amigo dela.
Eu - Porquê?
Ela - Primeiro porque dá mau aspecto falar mal doutro homem pelas costas.
Eu - Sim, concordo.
Ela - Segundo porque quem diz mal doutro normalmente tem problemas de afirmação, ou seja, para se afirmar precisa de denegrir a imagem doutra pessoa.
Eu - Sim, também concordo.
Ela - Terceiro porque não acho que sejas assim tão palhaço.
Eu - Ahn?
Ela - Estiveram-me a dizer mal de ti.
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Etiquetas: conversas
Ela - Um problema só é um problema se tiver solução.
Eu - Se não tiver solução é o quê?
Ela - É um homem.
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Etiquetas: conversas
(no café)
Ela - Ontem mandei-te um email.
Eu - Eu vi, eu vi...
Ela - Viste mas não respondeste.
Eu - Não me perguntaste nada.
Ela - Mas podias ter acusado a recepção, ao menos.
Eu - Poder podia, de facto, mas não achei importante.
Ela (levanta-se)
Eu - Vais embora? Ainda agora chegámos.
Ela - Eu podia ficar mas não acho importante.
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Etiquetas: conversas
(numa sala escura depois do disjuntor ter disparado)
Eu - Onde é que estás?
Ela - Aqui.
Eu - Mas onde?
Ela - Aqui no meio da escuridão. Não me vês?
Eu - Não.
Ela - Cegueta.
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Etiquetas: o gajo pensa que é artista
Ela - Pela primeira vez tive uma reclamação na cama.
Eu - Uma reclamação na cama?
Ela - Sim, um gajo que me disse que eu me mexo muito pouco. Estava sempre a dizer "mexe-te, mexe-te".
Eu (risos)
Ela - Não te rias, não tem piada nenhuma.
Eu - Tens que admitir que tem.
Ela - Só não percebo uma coisa.
Eu - O quê?
Ela - Como é que ele queria que eu me mexesse com ele em cima de mim. O gajo pesa uns noventa quilos e eu sou esta trinca-espinhas. Se eu me conseguisse mexer, acho que tinha fugido.
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Etiquetas: conversas
Ela - Quando é que podes sair comigo à noite?
Eu - Hum... talvez este fim de semana.
Ela - Ando mesmo a precisar de beber uns copos?
Eu - Epá, tudo bem, mas olha que para copos não ando grande coisa.
Ela - Tudo bem, só preciso mesmo que me leves a casa ao fim da noite.
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Etiquetas: conversas
Uma mulher tem inveja da própria sombra que se estende pela textura petrificada dos passeios da avenida. Está deitada, a sombra, e ela também queria estar. Na verdade era o que ela mais queria, que tem acumulado o cansaço dos dias num corpo cada vez mais fraco. Até a sua cabeça já só funciona em piloto automático. Agora olha para a sua própria sombra com inveja e esse é apenas mais um pensamento automático.
Um homem tem inveja da própria sombra que na parede vazia da sala fuma um cigarro descontraído. Ele também fuma um, só que preocupado e trémulo perante a incerteza dos dias. Tem acumulado essa incerteza numa dívida crescente que não consegue pagar, numa janela onde a chuva e o Sol não se decidem e, mais do que tudo, numa mulher cujos beijos da vida foram encolhendo até hoje de manhã, momento em que se despediu apenas com a timidez duma palavra: tchau.
Ela tem a tristeza do passado, pelo menos é o que acha. Ele tem a tristeza do futuro, pelo menos é o que acha. Ambos têm a incerteza do presente, pelo menos é que acham.
O que ambos acham também, é que a vida se cansa do amor quando o amor se cansa a si mesmo. Talvez logo à noite as suas sombras se possam tocar antes deles próprios o fazerem. Num beijo lento, numa mão dada ou noutra coisa qualquer. Às vezes é melhor assim.
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Etiquetas: respostas a perguntas inexistentes
Hoje à noite, para quem não quiser ficar fechado em casa a ver miúdas giras na televisão, os Couscous Prosjekt, ou seja, o dj Bagaço Amarelo e a dj Moa Bord, estão no Clandestino bar em Aveiro a partir das 22:45. É muito provável que esta música ocupe o lugar do silêncio durante parte da noite.
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Etiquetas: o gajo pensa que é artista
Quando uma mulher grita do quarto que já está pronta enquanto ele espera encostado à porta de casa já entreaberta, definitivamente não está pronta. É uma questão técnica, primeiro que tudo, porque se ela estivesse mesmo pronta podia vir andando e não precisava de avisar. Até aqui nada de especial, o problema é que não é apenas a questão técnica que está por trás disto. O que ela quer dizer realmente quando grita que já está pronta, é mais ou menos "vai descendo e mesmo que aguentes mais uma hora à minha espera finge que não estás nada aborrecido!".
Era muito melhor se ela dissesse que demorava cinco minutos, vinte minutos ou mesmo meia-hora a arranjar-se, mas nunca o faz. Isso somos nós, os homens, a fazer, e somos palermas por fazê-lo. Quando um homem diz que precisa de cinco minutos, a pressão fica toda sobre ele. Quando ela diz que já está pronta e não aparece de imediato, não há pressão nenhuma. Mentiu. Ponto final.
Esta lógica do "já estou pronta" aplica-se, em abono da verdade, a tudo na vida o que diz respeito à relação entre um homem e uma mulher. Até porque se, quando ela o diz, ele for ao quarto averiguar por que motivo ela não aparece, a resposta dela é um simples "ai homem! és tão chato!", que na verdade quer dizer "desaparece já daqui!". É assim: para manter uma relação saudável e feliz, ele deve desaparecer sempre que tiver alguma razão numa possível discussão. Por outro lado, quando ele não tiver razão nenhuma o melhor é não desaparecer, que é para ela poder ganhar mais uma luta verbal.
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Etiquetas: duo ele e ela
Ela - Qual é o teu clube de futebol?
Eu - O Beira-Mar.
Ela - Não é isso... entre o Porto, o Benfica e o Sporting qual é o teu clube?
Eu - Nenhum.
Ela - Assim não dá para falar contigo.
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Etiquetas: conversas
Ela - Não percebo a tara que os homens têm pelo sexo anal. Caraças, pá. Com o paraíso mesmo ali ao lado e só pensam em cu.
Eu - Qual paraíso ali mesmo ao lado?
Ela - Qual é que havia de ser? A vagina...
Eu - Ah!
Ela - Que cara é essa?
Eu - Desculpa lá, mas a contares-me isso como é que queres que eu olhe para o teu marido quando o encontrar?
Ela - Desculpa, tens razão. Não devia ter contado isto assim... é que ando nervosa.
Eu - Pronto, bebe um copo que isso passa.
Ela - Mas não olhes para ele com cara de cu que ele ainda te salta em cima.
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Etiquetas: conversas
Ela - Dói-me tudo.
Eu - Tudo?
Ela - Tudo, tudo. Precisava duma massagem.
Eu - Hum... já ouvi falar muito bem duma massagista que trabalha ali perto do teatro Aveirense...
Ela - Pois... mas eu preciso é de um massagista.
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Etiquetas: conversas
Um homem queixa-se ao balcão do bar. Diz ele que a vida vai de mal a pior e que se fosse mais novo mudava de país. Estou a tomar café sozinho mesmo ao lado e, apesar de ele olhar apenas para a barwoman que finge prestar-lhe atenção enquanto arruma melhor os pastéis de nata numa travessa, está a falar para todos os presentes. Está zangado e quer que todos o ouçam.
Eu concordo com ele, que este país vai de mal a pior, até porque esta manhã já tinha lido no Público Online que a mãe do nosso primeiro-ministro comprou a pronto um apartamento a um "offshore" num ano em que declarou menos de 250 euros de rendimento. É apenas mais um apontamento na cascata de más notícias que todos os dias nos assola. O que acho estranho é que todos os que se queixam queiram mudar de país e não mudar o país. Talvez seja por isso que estão sempre os mesmos no Governo.
Nas relações também é assim. Quando correm mal foge-se e não se tenta perceber. Não se tenta mudar. Ontem, também num café, um amigo dizia-me entre algumas garrafas de cerveja vazias que já vai no segundo casamento e que não está a resultar. Se fosse mais novo tentava já o terceiro. Nunca somos velhos demais para aceitar o sofrimento, respondi-lhe. Muito menos quando ainda estamos nos quarenta, insisti depois depois de mais um gole. O amor, por um homem, por uma mulher ou por todos nós (diga-se país), é também a nossa capacidade de intervir nele. Sem desistir...
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![]() |
| Aspecto exterior da Torre das Águias |
![]() |
| Estado de degradação geral do interior |
![]() |
| Escada interior em caracol |
![]() |
| Guaritas no último piso |
![]() |
| Tecto em abóboda |
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(no café)
Ela - Estás a ver aquele gajo sentado ali no canto?
Eu - Sim.
Ela - As minhas amigas andam todas tolinhas por ele.
Eu - E tu não?
Ela - Eu não. Ele é bonito mas é demasiado bonito.
Eu - Demasiado bonito? Pode-se ser demasiado bonito?
Ela - Sim, um homem tem que ser um bocadinho feio também. Não muito, mas um bocadinho...
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Tive a sorte de fazer nove anos em 1980. Não é que a década de oitenta tenha sido melhor que outra qualquer, mas foi com toda a certeza uma década de ilusão, ou de ilusões, e portanto a altura ideal para ser criança.
Em Portugal a ditadura e a guerra tinham acabado, o PREC também. No mundo vivia-se a expectativa do princípio do capitalismo especulativo e os jogos sem fronteiras, apresentados pelo Eládio Clímaco, eram um cheirinho infantil do que viria a ser a entrada na CEE em 1986. Lembro-me de ver com emoção a equipa de Aveiro vencer um desses jogos e andar orgulhoso com o feito durante um ano lectivo inteiro. O país unira-se em torno de tal conquista e Aveiro entrara no mapa. Portanto, a rua onde eu me divertia a pendurar fitas de Carnaval nas antenas dos poucos automóveis que iam passando também entrara. Eu estava a crescer e o mundo era cada vez mais pequeno. Parecia-me bem.
Em 1981 senti pela primeira vez que o mundo podia ser terrivelmente injusto, quando o Carlos Paião ficou em penúltimo lugar no festival da Eurovisão com a música PlayBack, mas nem por isso perdi a fé naquilo que para mim parecia ser o princípio da globalização: Jogos Sem Fronteiras, Festival da Eurovisão e a minha avó ir a Espanha comprar ananás enlatado em grandes quantidades.
Mas se em 1980 fiz nove anos, em 1985 fiz 14, e com essa idade vieram também as primeiras paixões a sério e as primeiras noites com a cabeça na almofada sem perceber muito bem o que me estava a acontecer, e a esta desordem emocional juntava-se a desordem racional. Percebi então que as mulheres de quem um homem gostava podiam, pura e simplesmente, não lhe ligar nada, e a união que eu sentira no país em relação aos Jogos Sem Fronteiras era falsa. Pelo menos uma fractura havia: aquela entre a maior parte dos retornados que diziam que Portugal precisava dum Salazar outra vez, e os comunas de que a cidade onde eu vivia dizia normalmente mal. Ao mesmo tempo que me apaixonei por uma morena do liceu que nunca me ligou nada optei por gostar desses comunas, um pouco contra tudo e contra todos. Afinal, do pouco que eu sabia, tinham sido sempre eles a protestar com a guerra.
Convém também lembrar que Portugal era um país racista nessa década, embora com dois tipos de racismo. Havia portugueses que simplesmente detestavam pretos, haviam outros portugueses que não os detestavam mas tinham pena deles por serem uns coitadinhos (se calhar este é o pior dos racismos) e, finalmente, outros que não os detestavam e não tinham pena deles. Incrível, achavam que eram pessoas como as outras todas. E eu também passei a achar.
Depois, como tudo, a década de 80 chegou ao fim. Em 1989, a morena por quem eu me apaixonara, desapareceu simplesmente do meu circuito e vim a apaixonar-me por outra mulher que acabou por ser a mãe da minha filha. A clarificação da minha vida emocional trouxe também alguma clarificação política: nem os retornados eram todos parvos à espera dum novo Salazar, nem os comunas eram todos uns reais ideólogos socialistas. Optei por esquecer definitivamente a morena e por adiar as minhas opções políticas para quando percebesse mais alguma coisa do assunto.
Estava a pensar nisto porque este fim de semana vou para uma festa dos anos 80 no Alentejo, que é também o aniversário dum amigo da Raquel, a minha companheira de vida actualmente. A Raquel é essa morena que, depois de se evadir da minha vida nos anos oitenta tornei a encontrar há cerca de dois anos, já divorciado e com uma filha grandota. Actualmente sou também aderente do Bloco de Esquerda em Aveiro. Estava a pensar no labirinto que a minha vida foi durante estes anos todos. A minha vida, como outra qualquer.
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Ela - Sabes mesmo qual é o meu maior problema?
Eu - Ter quarenta e dois anos e não teres filhos?
Ela - Estúpido.
Eu - Estúpido porquê?
Ela - Podias enganar-te pelo menos uma ou duas vezes...
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É o quinto fósforo que tenta acender em vão. Todos se apagam com o ligeiro sopro que se insinua timidamente pela frincha da janela da cozinha. O bico aberto do fogão vai libertando gás e por isso desliga-o. Não é que seja grave não cozinhar agora o almoço, até porque nem sequer tem fome, mas de repente toda a sua vida lhe passou à frente nos cinco fósforos cuja chama se apagou de imediato. E conta pelos dedos as mulheres que ultimamente lhe fizeram o mesmo: incendiarem-no numa noite e apagarem-no na manhã seguinte. Talvez também cinco. Não tem a certeza.
O problema é que da última ainda restam algumas cinzas que se espalham com o vento morno que lhe varre o pensamento. A falta do amor é sempre assim, como um vento morno que vai semeando a preguiça dos nossos movimentos pela casa. A embalagem de cereais está em cima do frigorífico há três dias, o lixo está por levar há três dias, a toalha da mesa tem nódoas de vinho há três dias e ainda nem sequer está na máquina. Há três dias que a vida dele abrandou de ritmo, até agora em que desistiu de almoçar por causa de cinco fósforos sem chama.
Há três dias, durante o jantar, deram as mãos quase sem querer um ao outro e depois nenhum recuou. A seguir às mãos vieram os lábios e por fim o corpo. Acabaram por fazer amor no corredor por não conseguirem esperar pelo tempo que demorava chegar ao quarto. Ele estava a precisar disso e ela também. Foi o que disseram um ao outro e é verdade: não estavam nem estão a precisar de mais nada. O estranho é mesmo isso, ele não estar a precisar de mais nada. A falta de amor é sempre assim: a falta de precisar do que quer que seja.
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Ela - É engraçado, nunca te vi de aliança...
Eu - Detesto anéis. Aliás, detesto todo o tipo de acrescentos que se possam fazer ao corpo.
Ela - Porquê?
Eu - Não são práticos. Não consigo usar brincos, anéis nem nada disso.
Ela - E a tua namorada o que é que pensa disso?
Eu - Acho que não pensa nada. Sinceramente nunca falei com ela sobre isso.
Ela - Bem, no fundo até tem alguma sorte.
Eu - Porquê?
Ela - Um homem de aliança torna-se mais atraente, não sei bem explicar porquê.
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16:23
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Ela - Queres vir comigo a Fátima a pé?
Eu - Não.
Ela - Não?
Eu - Claro que não. Sou ateu e não vou lá de carro, muito menos a pé.
Ela - Hum... é que eu vou mesmo. Já prometi a mim mesma.
Eu - Já prometeste a ti mesma? Vais pagar alguma promessa?
Ela - Não. É para ficar com créditos...
Eu - Créditos?
Ela - Sim, se precisar no futuro de pagar uma promessa é como se já estivesse paga.
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Ela - Detesto homens que andam uma eternidade à volta duma mulher, como cachorrinhos abandonados, e nunca dão um passo para a levar para a cama.
Eu - Isso aconteceu-te?
Ela - Conheci um gajo no infantário da minha filha com quem saí várias vezes. Ele até é interessante mas anda à minha volta e é só conversa, só conversa, só conversa...
Eu - Às tantas só quer conversa. Não está interessado em ti para mais do que isso.
Ela - Claro que está.
Eu - Pode não estar.
Ela - Claro que está. Achas que um gajo divorciado anda a convidar uma mulher para jantar, dia sim dia não, só para conversar com ela?
Eu - Acho...
Ela - Então é parvo.
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Ela - O que é que é mesmo bondage?
Eu - Bondage?
Ela - Sim.
Eu - É um fetiche sexual em que um domina e outro é dominado.
Ela - Um domina e outro é dominado?
Eu - Sim. Pode envolver algemas, cordas, chicotes e assim...
Ela (faz silêncio mas cora)
Eu - Não precisas de corar.
Ela - Não é isso. Acabei de dizer a um gajo na net que gosto muito de bondage.
Eu - Mas... se nem sabias o que era porque é que disseste que gostavas?
Ela - Ele é que falou nisso primeiro e a palavra nem me pareceu assim muito má. Bondage parece bondade...
Eu - Nem sei que te diga.
Ela - Não digas nada, não digas nada...
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Ela - Desde que me separei que tenho algumas saudades estranhas do meu ex.
Eu - Isso não é estranho, é normal. Passaste tantos anos com ele que é preciso algum tempo para a coisa normalizar.
Ela - Não é isso, normal já está. O que eu estou a dizer é que algumas saudades concretas que eu tenho dele são estranhas.
Eu - Estranhas porquê?
Ela - Porque acho que o que mais sinto falta é daquilo que me fazia implicar com ele.
Eu - Por exemplo?
Ela - Por exemplo, ele deixar as beatas dos cigarros num cinzeiro no chão da varanda durante dias. Isso irritava-me tanto...
Eu - E agora tens saudades disso?
Ela - Sim, acho eu. Não sei explicar muito bem. Acho que é mesmo só por não ter ninguém com quem implicar.
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Ela - O meu marido nunca diz que me ama. Não sei se...
Eu - Não sabes se quê?
Ela - Não sei se ele não o diz porque não está habituado ou simplesmente porque já não me ama mesmo.
Eu - Hum... que tal perguntar-lhe?
Ela - Isso não, senão ele começa a dizê-lo só por se sentir obrigado.
Eu - E tu, dizes-lhe que o amas?
Ela - Eu não. Mas eu não o amo mesmo, percebes?
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Admito que acho as praças de alimentação um sítio óptimo para tomar café, já que me permitem estar sozinho e acompanhado ao mesmo tempo. Quando estamos, como eu estive esta semana, quase todas as noites sozinhos, a nossa casa começa a ser um deserto e é aí que procuramos a companhia dos que não nos acompanham de facto. Por isso mesmo me sentei um dia destes na mesa da praça de alimentação dum shopping qualquer com uma dose curta de cafeína à frente.
Retirei do bolso umas folhas brancas e uma esferográfica para ver se conseguia escrever qualquer coisa mas, à falta de ideias, fui semeando desenhos como quem atira à sorte sementes de crescimento espontâneo para a terra árida. Depois uma sombra cobriu essa aridez fazendo-me olhar para cima onde, de facto, estava o céu. Uma mulher sorriu e disse-me: - "Ainda não perdeste a mania de estar sempre a desenhar", afastando-se depois lentamente.
Era ela, uma das minhas grandes paixões do liceu e que eu já não via há mais de vinte anos. Fiquei a vê-la ir, na esperança de que ela olhasse para trás pelo menos uma vez para se despedir com o olhar. Não o fez... mas talvez o tenha feito em pensamento.
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Ela - Este fim de semana esteve tanta chuva... detesto chuva.
Eu - Detestamos todos, acho eu.
Ela - Eu só detesto chuva desde que me separei. Sou obrigada a ficar em casa e ficar em casa sozinha é deprimente demais.
Eu - Engraçado, tenho a sensação que me disseste mais ou menos o mesmo no Verão passado.
Ela - Mais ou menos o mesmo?
Eu - Sim, que detestas o bom tempo desde que te separaste porque ir à praia sozinha é deprimente.
Ela - Ah! Se calhar disse...
Eu - Realmente há pessoas que nunca estão bem. Não gostam de chuva, não gostam de Sol...
Ela - Eu estou bem se o tempo estiver mais ou menos. Nem muito bom, nem muito mau. Aliás, quando estou sozinha quero que o mundo inteiro seja exactamente assim em tudo. Nem muito bom, nem muito mau...
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13:24
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Ela - Então?
Eu - Então o quê?
Ela - Não reparaste em nada de diferente em mim?
Eu - Hum... cortaste o cabelo...
Ela - Não.
Eu - Tens um vestido novo...
Ela - Não.
Eu - Emagreceste?
Ela - Não.
Eu - Compraste uns sapatos?
Ela - Não.
Eu - Tens uma carteira nova, uma pulseira nova, um colar novo, pintaste-te ou puseste pó de arroz... foi isso?
Ela - Não.
Eu - Então o que foi? Desisto.
Ela - És um amigo incrível. Nem sequer reparas que eu fiz uma tatuagem?
Eu - Tatuagem? Onde?
Ela - Aqui no braço.
Eu - Mas... está debaixo da camisola...
Ela - Sai um bocadinho, sai um bocadinho...
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Eu - Queres almoçar comigo?
Ela - Quero. Passo em tua casa para te ir buscar?
Eu - Sim, por favor.
Ela - Mas temos que ir a um sítio sem cheiro a comida, está bem?
Eu - Sem cheiro a comida?
Ela - Sim, ando numa fase em que o cheiro a cozinhados me enjoa. Não quero ir a nenhuma praça de alimentação nem a nenhum restaurante que seja muito fechado.
Eu - Tudo bem. Então vamos onde?
Ela - Escolhe tu. Estás à vontade para ir onde quiseres desde que seja com esta condição.
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A política de rabo na boca, texto que publiquei no site distrital de Aveiro do Bloco de Esquerda, é só uma visão, mais uma, de como nos podemos deixar adormecer pela política. O poder é hegemónico e determina aquilo que está certo mesmo quando está errado. E nós vamos aceitando...
O medo da mudança é tal que teimamos em preferir essa hegemonia mesmo quando ela nos esmaga todos os dias. Hoje, por exemplo, e a sério que é só mais um exemplo, o mesmo PS que votou contra a criação duma bolsa de manuais escolares para famílias pobres, decidiu também enquanto governo gastar 134 mil euros num carro para transportar individualidades. Se o governo PS formasse uma maioria absoluta, o projecto da bolsa de livros escolares não tinha passado, ou seja, uma proposta que é apoiada por uma larga maioria da sociedade tinha morrido ali.
Estou a falar nisto porque rejeito relações doentias, sejam elas do foro amoroso ou político, e acho que a relação doentia que os portugueses mantêm com o poder político PS/PSD é a mesma que muitos sentem na sua relação pseudoamorosa. Quem está mal numa ou noutra que se divorcie e comece uma vida nova. Divorciemo-nos...
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17:03
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