11.24.2010

conversa 1644

Ela - Tenho que deixar de comer torradas com manteiga ao pequeno-almoço, pá.
Eu - Então?
Ela - Tenho que ter cuidado com o colesterol.
Eu - Ah! Fazes bem, nós somos mesmo aquilo que comemos.
Ela - Pois somos, eu que o diga. Ando a comer um colega do escritório desde o princípio do mês e ando toda alterada com isso.

11.23.2010

conversa 1643

(a propósito do meu pensamento catatónico 222)

Ela - Se eu morrer um dia destes fazes-me uma coisa?
Eu - O quê?
Ela - Em vez de ires ao meu funeral, juntas alguns amigos e bebem uns copos a pensar em mim.
Eu - Ah! Está bem. Isso não custa nada.
Ela - Caraças. Não custa nada?
Eu - Não. Quer dizer, não custa nada beber uns copos. Tu morreres ia custar um bocadinho.
Ela - Só um bocadinho? Vai-te lixar.
Eu - Eu disse só um bocadinho porque pensei que era isso que querias que eu dissesse. Se querias que eu bebesse uns copos era para não sofrer. Certo?
Ela - Errado.
Eu - Errado?
Ela - Errado. Era para tu sofreres muito mas a pensares que eu não queria que sofresses.
Eu - Começo a ficar com dores de cabeça com isto.
Ela - Esquece, esquece...
Eu - Já esqueci. Afinal nem sequer quero pensar na tua morte.
Ela - Ah! Assim é melhor.
Eu - Mas eu só falei por tua causa...
Ela - Não digas mais nada. É melhor. Quando falas, ou entra mosca ou sai asneira.

só sexo?

Ele decidiu fingir que adora o timbre da voz dela, mas não adora. Na verdade às vezes até o irrita, principalmente quando atinge um leque de frequências mais agudas que o faz lembrar uma mulher a ralhar com uma criança. Fê-lo de forma consciente, para não perder aquilo de que realmente gosta nela: o sexo. Ela decidiu fingir que gosta das piadas dele durante as refeições, mas não adora. Na verdade normalmente nem as percebe muito bem, já que são quase sempre sobre futebol, e do pouco que percebe até as acha estúpidas. Fê-lo de forma consciente, para não perder aquilo de que realmente gosta nele: o sexo.
Andam assim há anos, desde o deslumbramento da primeira noite na cama. A ela nunca lhe tinham feito um minete tão certo, e certo é o adjectivo que o qualifica realmente, pela pontaria e pela subtileza. Tanto, que a fez esquecer-se da língua de gato do seu ex-marido. A ele nunca lhe tinham feito um felatio tão profundo, e profundo é o adjectivo que o qualifica realmente, pela forma como ele se lembra dos lábios dela a beijarem-lhe os pêlos púbicos. Tanto, que o fez esquecer-se das constantes recusas da ex-namorada em fazer sexo oral. Desde então que estão juntos numa relação que depende exclusivamente do sexo. Quando este acabar, acaba também a relação. Algumas relações são assim, outras não. Ambos sabem disso.
É por ambos saberem disso que hoje aceitaram a mentira um do outro. Ele telefonou-lhe do escritório a meio da tarde, disse que tinha que trabalhar durante toda a noite e não podia ir dormir a casa. Ela fingiu acreditar e desejou-lhe boa sorte. Um “boa sorte” honesto até, já que sabia perfeitamente que ele ia sair para o engate. Depois de desligar desejou boa sorte a si mesma também.
Sair para o engate quando não se precisa de sexo é diferente de sair para o engate quando não se quer outra coisa. Ele percebeu isso na primeira tentativa, enquanto se oferecia para pagar, ao balcão de um botequim de esquina, uma bebida a uma desconhecida que se apressou a encostar-lhe as mamas na barriga e apertar-lhe o falo com os seus dedos de aranha. Ia perguntar se ele tinha alguma coisa no bolso ou se estava contente por a ver, mas ele não estava nada contente por vê-la. Infelizmente também não tinha nada no bolso. Pagou-lhe a bebida e foi-se embora fazer aquilo que pensara fazer por uma vez na vida com uma mulher: passear na marginal e falar. E fê-lo, só que falando consigo mesmo.
Sair para o engate quando não se precisa de sexo é diferente de sair para o engate quando não se quer outra coisa. Ela percebeu isso na primeira tentativa, enquanto apreciava os lábios dum homem a remexer um palito entre dentes com nódoas verdes de esparregado. Do peito saiam-lhe alguns pêlos arduamente penteados e da boca alguma palavras arduamente soletradas. Tens uns pára-choques fixes, cuspiu ele. Ela acabou por fugir aproveitando uma suposta ida à casa de banho. Queria, por uma vez, dar a mão a um homem e dividir o prazer de ver montras com ele, mas acabou por dar as suas próprias mãos uma à outra enquanto encostava a cabeça ao vidro duma loja abandonada.
Talvez por isso continuem os dois a dividir a vida. Ele fingindo que gosta da voz dela, ela fingindo que percebe as piadas dele. Sempre com muito sexo que, afinal, talvez não seja só isso.

11.22.2010

conversa 1642

Ela - As mulheres precisam menos de sexo do que os homens.
Eu - Como é que sabes?
Ela - Sou mulher e vivo com um homem.

conversa 1641

Ela - Ando a tentar ter uma vida social mais activa.
Eu - Acho que fazes bem.
Ela - Acho que se tiver uma vida social mais activa tenho também mais oportunidades de conhecer homens interessantes.
Eu - Pois... é possível. E o que é que andas a fazer para ter uma vida social mais activa?
Ela - Para já fiz uma lista com as minhas amigas que eu acho que são mais feias do que eu. Agora vou convidá-las, uma a uma, para sairmos uma noite destas.
Eu - Quem é que está na tua lista?
Ela - Que tu conheças está pelo menos a Márcia*
Eu - A Márcia não é...
Ela - Não é o quê? Não me digas que ela não é mais feia do que eu.
Eu - Não, não. Estava a dizer que a Márcia é bonita.
Ela - Bem... acho que é melhor riscar a Márcia e passar para a seguinte.
Eu - Qual é a seguinte?
Ela - Não digo. Começas a dizer que elas são bonitas e daqui a pouco não tenho ninguém para convidar.
Eu - Pronto. Quantos nomes tens?
Ela - Três.
Eu - Ok... ainda te restam duas amigas mais feias do que tu.
Ela - Não achas pouco?
Eu - Sei lá, não acho nada. O que é que eu hei-de achar?
Ela - Devias achar pouco.
Eu - Opá... se quiseres vou eu contigo. De certeza que a maior parte dos homens que se possa interessar por ti me acha mais feio do que tu.
Ela - Mas tu és homem. Se eu sair com um homem nenhum se vai interessar por mim.
Eu - Isso não é ter uma vida social mais activa. Isso é sair para o engate.
Ela - É?
Eu - É. Uma vida social mais activa é saíres comigo e ires conhecendo amigos meus e eu amigos teus.
Ela - Isso não quero. Prefiro o engate, então.

* nome fictício

pensamentos catatónicos (222)

Hoje o comboio onde eu seguia de manhã no sentido Porto-Aveiro atropelou uma senhora. O revisor percorreu todo o corredor central da composição para informar que a viagem ia atrasar bastante. Lá dentro, apesar da morte nos carris, a vida continuou. Uns protestavam com o atraso, outros telefonavam para parte incerta, outros liam o jornal como se nada fosse. Não sei explicar bem porquê mas esta mania que a vida tem de continuar sempre, independentemente do que nela acontece, faz-me confusão. Alguns passageiros saíam pela única porta aberta para ir ver o cadáver. Eu, que não tenho prazer nenhum em ver cadáveres, encostei a cabeça a uma das janelas e tentei adormecer. Quando a vida continua sem eu perceber porquê é o que faço: tento dormir.
Foi com a cabeça encostada ao vidro da janela que tentei visitar outros momentos em que fiz o mesmo: tentar adormecer para contornar a sôfrega e intrigante respiração da vida. Foram todos momentos em que, por uma razão ou outra, um Amor terminara ou estava em vias de terminar. Passei o resto do dia com esta transparente indisposição. Não pela morte da senhora em si, mas pelo paralelismo que estabeleci sem querer entre o fim da vida e o fim do Amor. Não é a mesma coisa, pois não?

11.19.2010

conversa 1640

Ela - Hoje não tenho ninguém para sair à noite.
Eu - E o teu marido?
Ela - Está um bocadinho chateado comigo.
Eu - Jantar fora e beber um copo num bar simpático pode ser uma boa maneira de fazer as pazes com alguém.
Ela - Bem... ele está muito chateado comigo.
Eu - Mas está assim tanto que nem as pazes quer fazer?
Ela - Para ser sincera ele está é amuado comigo.
Eu - Mas o que é raio aconteceu?
Ela - Perguntei-lhe se ele não era capaz de se despachar.
Eu - Despachar?
Ela - Sim, durante o sexo.
Eu - Ah!
Ela - Eu já estava satisfeita e ele nunca mais acabava...
Eu - Ah!
Ela - E estava quase a começar um programa de televisão que eu queria ver...

11.18.2010

conversa 1639

Ela - Ando há que tempos para explicar ao meu marido que preciso de vida própria.
Eu - Não tens vida própria?
Ela - Acho que o facto de viver com ele e praticamente já não fazer nada sem ele está a matar lentamente a nossa relação. A única coisa que faço sem ele é trabalhar no escritório...
Eu - Eu percebo isso perfeitamente.
Ela - Percebes?
Eu - Percebo.
Ela - Mas há uma vantagem nisto tudo.
Eu - Qual é?
Ela - Não odeio completamente o meu trabalho. Na verdade até começo a gostar de ir trabalhar.

são só palavras...

...para informar que hoje à noite no Clandestino Bar, em Aveiro, os Couscous Prosjekt vão passar música toda a noite. A mariana também vai...

11.17.2010

conversa 1638

Ela - O ciúme que um homem tem é maior quanto mais inseguro esse homem é.
Eu - De certeza?
Ela - Sim, o meu marido anda muito ciumento, e isso tem a ver com o facto de estar a ganhar uma barriguinha e de ainda haver homens que olham para mim na rua...
Eu - Acredito que haja homens a olhar para ti na rua, não acredito é que ele esteja inseguro.
Ela - Está, está. Não o assume mas eu noto.
Eu - E tu? Nunca tens ciúmes?
Ela - Tenho, claro que tenho. Mas as mulheres não têm ciúmes por insegurança.
Eu - Então é porquê?
Ela - Quanto mais detestam a gaja que se meter com o homem delas, maior é o ciúme que sentem.

mataram o pião

Lembro-me de ter que pôr as duas mãos em cima do velho balcão de madeira da loja e içar-me para conseguir ver os vários piões que o senhor Chico punha à minha disposição. Depois pegava neles deixando-me cair no chão para os poder observar ao detalhe. Fazia isto um a um antes de escolher o pião ideal. À noite, o meu avô observava-o também e aprovava ou não a minha decisão.
E se cedo a minha vida com as mulheres começou a falhar (a Helena, a Teresa e a Márcia nunca me ligaram nenhuma durante o ciclo preparatório), não foi por causa da minha falta de investimento pessoal nessa primeira formar de afirmar a masculinidade. Os rapazes tinham piões, as raparigas não. E numa aula de Ciências da Natureza sobre transferências de energia em que era preciso escolher um aluno para demonstrar como se transferia a energia para o pião, fui eu o escolhido com o voto quase unânime de todas elas. Por uma vez na vida todas as miúdas, ou quase todas (raios Márcia, eras sempre tu), escolheram-me a mim para alguma coisa.
No recreio jogava-se ao Racha. Fazia-se um círculo no chão e tinha que se conseguir que o pião começasse dentro desse círculo e acabasse fora, caso contrário ficava onde estava para os outros jogadores tentarem parti-lo. Normalmente partiam-no mesmo. Depois vinham as lágrimas e um pontapé ou outro de vingança. Era um jogo viril e uma aprendizagem para a vida. Não se podia falhar.
Agora mataram o pião. Ontem os meus enteados apareceram em casa excitados com um brinquedo novo, uma coisa de plástico e metal chamada beyblade. É uma maquineta às cores que faz um pião girar sem hipótese de erro. Aquilo gira sempre, basta puxar uma espécie de cordel e já está. Depois os vários beyblades vão girando uns contra os outros até o último parar. Mais nada. Nunca se partem nem exigem o aperfeiçoamento da técnica para enrolar o cordel. É o fim do pião. É o fim de tudo.
O governo devia proibir imediatamente a importação do beyblade. Qualquer dia vemos os velhotes no parque a jogar à malha ou à petanca com peças de plástico e um contador electrónico a pilhas. Não me fodam, há coisas que não deviam mudar.

11.15.2010

conversa 1637

Ela - Mais uma amiga minha que engravidou sem querer.
Eu - Sem querer?
Ela - Sim, acho que ela e o namorado utilizam o método do "tirar fora na hora h".
Eu - Bem... deviam saber que não é um bom método.
Ela - Não deviam nada. Ela está tão feliz...
Eu - Feliz? Se calhar engravidou mas foi por querer engravidar.
Ela - Oficialmente foi sem querer, isso é que interessa.
Eu - Interessa como?
Ela - É mais bonito engravidar sem querer. Quer dizer que há tanta paixão naquele casal que nem conseguiram separar-se a tempo.
Eu - Não estás a falar a sério, pois não?
Ela - Claro que estou. Tu é que és um insensível.

11.12.2010

conversa 1636

(ao telefone)

Eu (atendendo) - Olá! Diz depressa que estou a conduzir.
Ela - Estás a ir para onde?
Eu - Para o trabalho. Diz depressa...
Ela - Encosta.
Eu - Não posso, estou na auto-estrada. Diz depressa...
Ela - Não dá para encostares só um bocadinho?
Eu - Não posso. Diz depressa...
Ela - Mas vai trabalhar até que horas?
Eu - Não sei. Até tarde de certeza. Diz o que querias dizer depressa, por favor...
Ela - Olha, esqueci-me do que te ia dizer. Telefono-te outra vez quando me lembrar.

pensamentos catatónicos (221)

Nunca durmo com a persiana totalmente fechada. Gosto que a luz do dia se intrometa lentamente nas minhas pálpebras e me acorde com a suavidade que só a luz sabe ter. Esta foi sempre uma das minhas incompatibilidades naturais com as mulheres, que têm a mania de tapar qualquer orifício do quarto por onde o Sol possa espreitar de manhã.

11.11.2010

conversa 1635

Ela - Acho que estou apaixonada.
Eu - Achas ou tens a certeza?
Ela - Acho. Ainda não fui para a cama com ele.
Eu - E só depois de ires para a cama com ele é que sabes se estás apaixonada?
Ela - Só depois de ir para a cama com ele é que sei se me quero apaixonar.

11.10.2010

esferográficas

Faço parte do grupo de pessoas que não se lembra de ver a tinta duma esferográfica chegar ao fim. Provavelmente nunca vi. Perco-as, 'emprestado-as' ou simplesmente estrago-lhes o bico ao escrever uma palavra mais nervosa, mas de todas as esferográficas que comprei nunca nenhuma morreu nas minhas mãos. Pior, comprando-as regularmente, sou aquele que nunca tem uma à mão quando é mesmo preciso.
Às vezes penso nisso e tenho pena. Gostava de pelo menos uma vez na vida fazer uma homenagem decente a quem me dá tanto (e este 'quem' refere-se, de facto, às esferográficas). É que numa esferográfica já vêm as palavras todas que nós queremos escrever. Basta-nos tirar a tampa, chamá-las no nosso pensamento, e dispô-las numa folha de papel pela ordem que queremos.
Engana-se quem acha que falar é o mesmo que escrever, e que por isso a nossa língua e os nossos lábios podem ser uma alternativa fiável a uma caneta e um pedaço de papel. Não é. Aliás, o Amor é a primeira prova disso. Sou capaz de jurar que todos aqueles que confessam o seu Amor pela primeira vez na vida o fazem através da escrita e não através da fala. A explicação é simples: a folha de papel na qual escrevemos é sempre compreensiva. Os outros, aqueles a quem falamos, não são. Principalmente quando falamos de amor.
Há uns dias, enquanto folheava alguns cadernos do liceu, encontrei uma folha de papel que tem uma das primeiras confissões de Amor que fiz. Li-a e reli-a várias vezes, como se aquele pedaço de papel fosse uma vida qualquer adormecida. E acordei-me. Lembro-me tão bem de o escrever numa aula de Matemática enquanto fingia ouvir a professora.

Passaste agora do outro lado da janela. Passaste e na paisagem ficaram os cabos de alta tensão que parecem a pauta duma música qualquer que fala de ti. Que te canta. Neles, com o céu ao fundo, os pardais são as notas soltas que dançam.

Há bocado sentei-me num café e rasguei uma folha dum caderno que tenho na mala do computador. Queria reescrever este pequeno pedaço da minha adolescência. Torná-lo mais adulto, talvez. Depois procurei em todos os bolsos do casaco uma caneta que comprei há uns dias num supermercado e nada, já não a tinha. Provavelmente deixei-a ontem num restaurante onde a usei para escrever uma nota num cartão de apresentação que entreguei a um conhecido. Fiquei por isso novamente a ler e reler aquela minha confissão fossilizada num papelinho há mais de vinte anos. Reli-a tantas vezes que acabei por falar alto sem querer. Talvez as pessoas que tomavam café na mesa ao lado tenham ouvido. Sei que pela primeira vez na minha vida fiquei feliz por não ter uma esferográfica à mão. Há, de facto, confissões de Amor que se fazem a uma folha de papel, mas só devemos fazê-las uma vez. À segunda, nem que seja mais de vinte anos depois, devemos dizê-las. Ou cantá-las até. Sei lá. E eu estou a dizê-la, sem a reescrever, à Raquel.

respostas a perguntas inexistentes (112)

 O resto... logo se vê

Seca a face com a toalha prolongando o momento. Já não se lembra muito bem do último abraço que recebeu sem ser duma toalha de rosto e, talvez por isso, a beije agora enquanto se enrola nela como um caracol que se fecha na própria concha.
Já se tinha habituado à falta duma voz constante dentro de casa, mas é a primeira vez que sente verdadeiramente solidão sexual. Talvez porque as vozes dos homens dos anúncios na secção Relax do Jornal de Notícias não passassem duma ou outra pergunta do tipo “quer ficar por cima ou por baixo?”, “quer começar com um minete?” e, antes de saírem, “posso usar a sua casa de banho?”. Sexualmente satisfaziam-na, verbalmente não. E com o tempo foi ligando cada vez menos até abandonar completamente a ideia de que um prostituto pode substituir um companheiro.
Quando se divorciou foi mesmo isso que pensou, que a partir daí o melhor era nunca mais se envolver emocionalmente com ninguém e, uma vez por outra, pagar para ter sexo. A ideia brilhante foi-se desfazendo até que um homem que, segundo o seu anúncio, era “um canhão latino pequeno mas grosso”, começou a chorar em pleno acto e perdeu o tesão. Acabaram os dois abraçados na cama com ele a contar a sua vida desgraçada e como tinha acabado na prostituição. No fim perguntou-lhe se podia usar a casa de banho e depois saiu envergonhado sem cobrar os oitenta euros estipulados.
Desde então que os sons do rádio da cozinha enquanto faz o jantar, da televisão da sala enquanto janta e do vibrador a pilhas quando se deita, têm sido os únicos a propagar-se dentro daquelas paredes. Talvez seja a altura de aniquilar esse silêncio constante da sua vida, pensa. Dá mais um beijo na toalha antes de a deixar cair no chão para se ver nua no espelho da casa de banho. Ver-se mesmo, com a coragem que uma divorciada de quarenta anos e três filhos tem que ter, e não apenas mirar-se como se tivesse medo de enfrentar o tempo que vai passando pelo corpo. Ainda está boa, considera, e considera-o para si mesma e não para mais ninguém. É ela que tem que se achar bonita, é ela que tem que gostar de si. Ponto final.
E gostando de si vai tirar os pêlos das pernas e o pó dos melhores vestidos que tem no armário. Vai jantar sozinha num bom restaurante da cidade e depois beber um vermute num bar qualquer. Consigo mesma. O resto... logo se vê.

conversa 1634

(no café)

Ela – O meu marido perguntou-me se eu já o traí alguma vez desde que casámos. Acreditas nisto?
Eu – Acredito em quê? Que ele te perguntou isso ou que já o traíste?
Ela – Caraças! Vocês são todos iguais.
Eu – Iguais como?
Ela – Esquece.
Eu – Pronto, já me esqueci.
Ela – Não esqueças nada, pá. Tens que insistir comigo.
Eu – Insistir em quê?
Ela – Ao menos tenta perceber por que motivo eu acho anormal ele perguntar-me isso.
Eu – Ok... explica lá.
Ela – Tenta perceber sem eu explicar.
Eu – Sem tu explicares? Como é que eu faço isso?
Ela – Pensa...
Eu – Vou pedir uma cerveja, então. Queres uma?
Ela – Não se pergunta a uma mulher com quem se vive há mais de dez anos se ela o anda a trair ou não, porque isso é sinal de desconfiança. Percebes?
Eu – Percebo isso mas também acho que é melhor perguntar do que andar na dúvida, e se ele te perguntou isso é porque sente um ciúme qualquer e portanto ainda gosta de ti.
Ela – Ainda? Porquê ainda?
Eu – Nada, nada. Queres uma cerveja ou não?
Ela – Não pedes cerveja enquanto não me explicares esse 'ainda'. Achas que já não era suposto ele gostar de mim, é?
Eu – Acho que se ele te perguntou isso foi sincero. Podias simplesmente responder que não e deixar-te de merdas sobre o que se deve ou não perguntar à companheira.
Ela – Nem pensar nisso. Ele tem que confiar em mim ou ficar na dúvida.
Eu – Já posso pedir uma cerveja?
Ela – Pede lá a porcaria da cerveja. Eu quero um uísque e um chocolate.
Eu -Um uísque e um chocolate?
Ela – Sim.
Eu – De certeza?
Ela – Sim, não me chateies.

vai de comboio


"Desde que o meu marido vai de comboio, o meu amante tem mais tempo para me dedicar", é o que diz um cartaz da ala flamenga de um sindicato belga de ferroviários com a fotografia duma mulher em trajes menores, a propósito da falta de pontualidade dos comboios belgas. A ala francófona não gostou e diz que o cartaz é machista.
Não sei se o cartaz é machista ou não, mas sei que em Portugal os amantes devem ter todos muito tempo para as mulheres cujos maridos andam de comboio. Eu até proponho à CP que, pelo menos para os passageiros que usam o Vouguinha, faça uma publicidade a dizer: "Desde que o meu marido foi de Vouginha,nunca mais o vi".
ver no Sol

11.08.2010

conversa 1633

Ela - Este fim de semana aprendi uma grande lição de vida.
Eu - Qual?
Ela - Uma mulher nunca deve ir para a cama com o seu melhor amigo.
Eu - Não me digas que vais perder um bom amigo só porque foste para a cama com ele.
Ela - Não é isso.
Eu - Então.
Ela - É a imagem com que fiquei dele.
Eu - Imagem?
Ela - Sim, ele era um tipo que eu considerava estável e bom conselheiro. De repente vê-lo a babar-se todo... nem sei que te diga... acho que nunca mais olho para ele da mesma forma.

11.05.2010

conversa 1632

Eu - Estás tão bonita.
Ela - Isso são os teus olhos.
Eu - Se calhar são.
Ela - Não são nada, não são nada.

conversa 1631

(entre duas miúdas, hoje, no comboio urbano sentido Aveiro-Porto)

Ela - As bananas verdes são ideais para quem tem diarreia.
Ela 2 - São?
Ela - São.
Ela 2 - E onde é que as metes?
Ela - Não meto em lado nenhum. Como-as.
Ela 2 - Ah! Como disseste que eram só as bananas verdes...
Ela - As maduras têm o efeito contrário...

respostas a perguntas inexistentes (111)

Deu-se agora conta que tem passado bastante tempo a sonhar acordado. Por exemplo, viu um avião a cruzar os céus e imaginou-se nele a viajar para Banguecoque com aquela que acredita amar. Acabou de aterrar e percebeu que o café que a empregada lhe trouxe já está frio. Arrefeceu durante esse prolongado voo imaginário, assim como o seu espírito, que arrefece também também cada vez que desperta de um desses sonhos acordados. Têm sido tantos...
Deu-se agora conta que o Amor não o é apenas pela mulher acredita amar. É um desejo à partida seja por quem for, e por isso quando não se ama ninguém ama-se pelo menos a vontade de amar. Procura-se cumprir essa vontade, depois, em sonhos que se cumprem à hora do café. A uma hora qualquer, até, e assumiu que todas as pessoas absortas por quem passa estão a sonhar como ele. A mulher com a testa encostada à janela do autocarro, o homem sentado num banco de jardim, o condutor que não percebe que o semáforo passou de vermelho para verde, o estudante deitado na relva do liceu...
Deu-se agora conta que o desejo de amar é a nascente da solidão, e que um acto casual de sexo é mergulhar os pés na correnteza que dela brota. Sabe tão bem. Talvez por isso se tenha dado conta agora mesmo que a empregada é boa, e não quer usar outra palavra para a definir. É boa mesmo e pronto. Por isso é que lhe beija as costas cuja quietude dá início a um doce terramoto, e depois os lábios tremem, as mãos também, os seios também, as nádegas também e a vagina também. Talvez o mundo esteja todo a tremer. Por isso acorda. A chávena de café continua cheia. E fria.

11.04.2010

através do som



Gosto desta música como já gostei de algumas mulheres. Não é preciso dizer mais nada. Já gostei de algumas mulheres através da voz. Ouvi-as sem as ver e isso chegou para me apaixonar. Apaixonarmo-nos por uma música tem essa vantagem: basta ouvi-la para nos sentirmos bem. É como com as mulheres por quem nos apaixonamos desta maneira. Às vezes uma mulher pode ser uma música e uma música pode ser uma mulher.
A propósito, hoje os Couscous Prosjekt estão no mercado Negro, em Aveiro, a partir das 22:45 (mais ou menos). Sejam felizes...

conversa 1630

Ela - Hoje ao almoço tive uma discussão brutal com o meu marido.
Eu - Tens que ter calma. Às vezes acontece.
Ela - Calma o tanas. Estava mesmo a precisar...

conversa 1629

(no café)

Ela - Com quantas mulheres é que já foste para a cama?
Eu - Sei lá.
Ela - Foram assim tantas?
Eu - Não é isso. Só que agora, assim de repente, não te sei dizer.
Ela - Se tivesses ido só com uma lembravas-te de certeza.
Eu - Mas porque é que raio queres saber isso agora?
Ela - Só curiosidade.
Eu - Mas não te sei responder...
Ela - Eu acho é que não queres responder.
Eu - Se calhar.
Ela - E no último ano? Com quantas mulheres é que foste para a cama no último ano?
Eu - Uma.
Ela - Uma?
Eu - Sim... namoro há dois anos.
Ela - Não tens piada nenhuma...

11.03.2010

conversa 1628

Ela - Tenho um problema: amo um homem de quem me cansei.
Eu - Mas amas mesmo?
Ela - Amo, sei que sim. O que eu queria era poder chegar ao pé dele e dizer que quero fazer um intervalo de um ano na nossa relação.
Eu - Hum... percebo. E o que é que fazias nesse ano?
Ela - Andava com outros homens, claro.
Eu - Claro?
Ela - Sim, um dos motivos pelos quais eu me sinto cansada é que ando com ele desde o liceu. Só tenho uma vida e nunca experimentei outra coisa. Percebes?
Eu - Mas se lhe pedires esse ano ele não vai aceitar facilmente, pois não?
Ela - Não. Embora eu ache que ele está tão cansado de mim quanto eu dele.
Eu - Isso não facilita as coisas?
Ela - Não. Se ele me viesse pedir esse ano eu também reagia mal. Não o quero perder, só quero desenjoar dele, percebes?
Eu - Sim, percebo. Queres esse ano de intervalo mas não queres que ele também queira. No entanto achas que ele também quer... O ideal seria ele compreender que tu tens essa necessidade de experimentar outras coisas e ficar à tua espera fechado em casa.
Ela - Sim... é mais ou menos isso.
Eu - Pois... as coisas não são assim, pois não?
Ela - Pois não, eu sei. O que é que hei-de fazer?
Eu - Tens três hipóteses. Ou lhe pedes esse ano e sofres as consequências, que podem ser várias; ou não lhe pedes e manténs esse cansaço na tua vida enquanto der.
Ela - E a terceira hipótese qual é?
Eu - Acabamos de beber esta garrafa de vinho, abrimos outra, eu asso uma chouriça e ficamos na conversa até às tantas.
Ela - Opto por essa.
Eu - Óptimo.

talvez um destes dias toque no tecto...

O que eu quero é dizer-te que te amo. O problema é que dizer isso só assim parece sempre pouco. Deixa-me ver... é a mesma sensação que tinha em criança quando saltava para tentar tocar no tecto da sala e nunca conseguia. Vou tentar saltar mais desta vez...
O que eu quero dizer-te é que há bocado estava sentado num banco dum jardim qualquer numa cidade qualquer e o vento veio tocar-me. Abraçou-me os ombros e eu pensei que eras tu, apesar de saber que estavas a muitos quilómetros de distância. Isso acontece-me sempre, pensar que és tu quando um estímulo qualquer investe no meu corpo. Depois pensei que aprendi contigo que o Amor também é isso: achar que és tu quando a natureza respira.
Ontem, por exemplo, fiquei a ver a luz levantar voo devagarinho enquanto as sombras povoavam as ruas. Cada uma dessas sombras que ia surgindo me parecia sempre que eras tu, mesmo sabendo que não eras. Até cheguei a seguir uma delas com o olhar, convencido que a sua metamorfose se revelaria em ti. Não revelou, acho que entrou num automóvel qualquer e depois partiu, mas fiquei a saber que aprendi contigo que o Amor também é isso: achar que és tu a revelação da natureza.
O que eu quero mesmo é dizer-te que te amo. O meu problema é que nunca consigo. Até já pensei que é por ser homem que não consigo. Mas tento, a sério que tento. Talvez um destes dias toque no tecto...

11.02.2010

conversa 1627

(entre duas crianças no comboio)

Ele - Não gosto nada de beijos.
Ela - Os grandes beijam-se uns aos outros na boca, não é na cara.
Ele - Isso não são beijos.
Ela - São beijos, sim.
Ele - Não são nada que eu já vi. Metem a língua dentro da boca do outro para lhe limpar os dentes.
Ela - É?
Ele - É.

10.29.2010

conversa 1626

(no café)

Eu - Que horas são?
Ela - São horas de eu decidir se ponho ou não fim a o meu namoro de dois anos.
Eu - Ahn?
Ela - São horas de eu decidir a minha vida.
Eu - Eu só queria mesmo saber que horas são. O relógio deste café está parado.
Ela - Ah! São duas e meia.

conversa 1625

Ela - Vou tirar este fim de semana para estar com algumas amigas minhas. Tudo mulheres.
Eu - Fazes bem.
Ela - Não sei se faço.
Eu - Porquê?
Ela - Isto de sair só com mulheres pode querer dizer duas coisas.
Eu - Que coisas?
Ela - Ou tenho uma idade mental ainda de garota ou já tenho uma idade mental própria da terceira idade.
Eu - Não percebo.
Ela - Acho que só tem lógica sair com as amigas quando ainda somos garotas ou quando já estamos velhinhas...
Eu - Mas porquê?
Ela - Quando somos garotas os homens ainda são estúpidos, quando ficamos velhinhas os homens já são estúpidos outra vez.

pensamentos catatónicos (220)

zapping ao pequeno-almoço

Os ecrãs dos nossos televisores estão empanturrados com uma publicidade da Meo, feita pelos Gato Fedorento, que apregoa que aquele é o serviço de televisão por cabo com o zapping mais rápido do mercado. Mais nada, só isso. E para prová-lo montaram um laboratório gigantesco onde comparam aquele ao zapping da concorrência. A Meo é portanto a assumpção de que as pessoas já não param para contemplar nada, nem que seja um mísero programa na televisão, e que preferem passar (que é como quem diz perder) as noites a saltar pelos canais todos.
O problema é quem faz zapping acaba por ver um pouco de tudo sem perceber de facto nada, e isto não seria um problema se não se estendesse à nossa própria vida, incluindo ao nosso próprio Amor que, principalmente por força do endeusamento da Economia, se está a transformar em mais um programa no meio de muitos pelo qual passamos às vezes os olhos. Hoje tomei café de manhã numa pastelaria dos subúrbios da cidade onde vi uma mulher despedir-se do companheiro levando a mão à boca para simular um beijo. Não o beijou de facto e depois saiu a correr para apanhar um autocarro cujos freios já se faziam ouvir. Depois vi-o a ele a encolher-se perante o copo de galão meio vazio e a torrada mal roída que ela deixou em cima da mesa. Acho que o povoou uma qualquer sensação de abandono.
O zapping é essencialmente isto: abandono. E eu não queria que ele passasse por mim. Se eu podia viver com ele? Podia. Mas não era a mesma coisa.

10.27.2010

significado uma pessoa flatulenta

Mais algumas busca no google que vieram aqui dar...

como ganhar um bom rabo
Eu, mesmo sem ser um grande especialista no assunto, aconselhava a pedir mais do que uma opinião neste assunto.

eu me apaixonei por um homem da net mas ele não me ama
Às tantas é por ter sido pela net. Digo eu, sei lá...

mulheres nervosas ao extremo
Isso não existe, pois não? Mulheres nervosas... naaaaa. Nunca ouvi falar.

Mais algumas buscas no Google que vieram aqui dar...
mulheres sensuais de rabo de peixe
Até podem ser sensuais. Não as aconselho é a dizer de onde são logo assim à primeira. Podem perder a sensualidade...

mulheres trazando com porco
Epá, isso tem muito que se lhe diga. Um gajo usa as mesmas meias três ou quatro dias seguidos e elas já acham que um gajo é porco.

porque as mulheres gostam de espremer espinhas
É verdade que gostam, mas eu acho que gostam mesmo é de espremer um gajo. As espinhas são uma desculpa.

sexo com velhas 95 anos
Se fosse com novas de 95 anos admito que ficava mais espantado.

sexo de porco com porcas
Portanto, tem um porco e várias porcas. É isso? Hum... hum... feliz, o porquinho.

significado uma pessoa flatulenta
Espero que não seja tarde demais mas vou dar uma pista: não é tocar flauta.

vidios de sexo gratis de mulheres com porcos
Um pedido tão específico e tem que ser grátis?

conversa 1624

Ela - Os homens deviam perceber que não se deve dizer a uma mulher mal dum amigo dela.
Eu - Porquê?
Ela - Primeiro porque dá mau aspecto falar mal doutro homem pelas costas.
Eu - Sim, concordo.
Ela - Segundo porque quem diz mal doutro normalmente tem problemas de afirmação, ou seja, para se afirmar precisa de denegrir a imagem doutra pessoa.
Eu - Sim, também concordo.
Ela - Terceiro porque não acho que sejas assim tão palhaço.
Eu - Ahn?
Ela - Estiveram-me a dizer mal de ti.

10.26.2010

conversa 1623

Ela - Um problema só é um problema se tiver solução.
Eu - Se não tiver solução é o quê?
Ela - É um homem.

10.22.2010

conversa 1622

(no café)

Ela - Ontem mandei-te um email.
Eu - Eu vi, eu vi...
Ela - Viste mas não respondeste.
Eu - Não me perguntaste nada.
Ela - Mas podias ter acusado a recepção, ao menos.
Eu - Poder podia, de facto, mas não achei importante.
Ela (levanta-se)
Eu - Vais embora? Ainda agora chegámos.
Ela - Eu podia ficar mas não acho importante.

conversa 1621

(numa sala escura depois do disjuntor ter disparado)

Eu - Onde é que estás?
Ela - Aqui.
Eu - Mas onde?
Ela - Aqui no meio da escuridão. Não me vês?
Eu - Não.
Ela - Cegueta.

piolho

Ainda há revistas de poesia a sério. Agradeço ao Centro Nacional de Contracultura o convite para participar na Piolho 002. Podem comprá-la contactando o editor num dos seguintes links: edições mortas, facebook piolho, e facebook edições mortas.

10.21.2010

conversa 1620

Ela - Pela primeira vez tive uma reclamação na cama.
Eu - Uma reclamação na cama?
Ela - Sim, um gajo que me disse que eu me mexo muito pouco. Estava sempre a dizer "mexe-te, mexe-te".
Eu (risos)
Ela - Não te rias, não tem piada nenhuma.
Eu - Tens que admitir que tem.
Ela - Só não percebo uma coisa.
Eu - O quê?
Ela - Como é que ele queria que eu me mexesse com ele em cima de mim. O gajo pesa uns noventa quilos e eu sou esta trinca-espinhas. Se eu me conseguisse mexer, acho que tinha fugido.

conversa 1619

Ela - Quando é que podes sair comigo à noite?
Eu - Hum... talvez este fim de semana.
Ela - Ando mesmo a precisar de beber uns copos?
Eu - Epá, tudo bem, mas olha que para copos não ando grande coisa.
Ela - Tudo bem, só preciso mesmo que me leves a casa ao fim da noite.

respostas a perguntas inexistentes (110)

Uma mulher tem inveja da própria sombra que se estende pela textura petrificada dos passeios da avenida. Está deitada, a sombra, e ela também queria estar. Na verdade era o que ela mais queria, que tem acumulado o cansaço dos dias num corpo cada vez mais fraco. Até a sua cabeça já só funciona em piloto automático. Agora olha para a sua própria sombra com inveja e esse é apenas mais um pensamento automático.
Um homem tem inveja da própria sombra que na parede vazia da sala fuma um cigarro descontraído. Ele também fuma um, só que preocupado e trémulo perante a incerteza dos dias. Tem acumulado essa incerteza numa dívida crescente que não consegue pagar, numa janela onde a chuva e o Sol não se decidem e, mais do que tudo, numa mulher cujos beijos da vida foram encolhendo até hoje de manhã, momento em que se despediu apenas com a timidez duma palavra: tchau.
Ela tem a tristeza do passado, pelo menos é o que acha. Ele tem a tristeza do futuro, pelo menos é o que acha. Ambos têm a incerteza do presente, pelo menos é que acham.
O que ambos acham também, é que a vida se cansa do amor quando o amor se cansa a si mesmo. Talvez logo à noite as suas sombras se possam tocar antes deles próprios o fazerem. Num beijo lento, numa mão dada ou noutra coisa qualquer. Às vezes é melhor assim.

sem surpresas

Hoje à noite, para quem não quiser ficar fechado em casa a ver miúdas giras na televisão, os Couscous Prosjekt, ou seja, o dj Bagaço Amarelo e a dj Moa Bord, estão no Clandestino bar em Aveiro a partir das 22:45. É muito provável que esta música ocupe o lugar do silêncio durante parte da noite.

10.20.2010

já estou pronta

Quando uma mulher grita do quarto que já está pronta enquanto ele espera encostado à porta de casa já entreaberta, definitivamente não está pronta. É uma questão técnica, primeiro que tudo, porque se ela estivesse mesmo pronta podia vir andando e não precisava de avisar. Até aqui nada de especial, o problema é que não é apenas a questão técnica que está por trás disto. O que ela quer dizer realmente quando grita que já está pronta, é mais ou menos "vai descendo e mesmo que aguentes mais uma hora à minha espera finge que não estás nada aborrecido!".
Era muito melhor se ela dissesse que demorava cinco minutos, vinte minutos ou mesmo meia-hora a arranjar-se, mas nunca o faz. Isso somos nós, os homens, a fazer, e somos palermas por fazê-lo. Quando um homem diz que precisa de cinco minutos, a pressão fica toda sobre ele. Quando ela diz que já está pronta e não aparece de imediato, não há pressão nenhuma. Mentiu. Ponto final.
Esta lógica do "já estou pronta" aplica-se, em abono da verdade, a tudo na vida o que diz respeito à relação entre um homem e uma mulher. Até porque se, quando ela o diz, ele for ao quarto averiguar por que motivo ela não aparece, a resposta dela é um simples "ai homem! és tão chato!", que na verdade quer dizer "desaparece já daqui!". É assim: para manter uma relação saudável e feliz, ele deve desaparecer sempre que tiver alguma razão numa possível discussão. Por outro lado, quando ele não tiver razão nenhuma o melhor é não desaparecer, que é para ela poder ganhar mais uma luta verbal.

10.19.2010

conversa 1618

Ela - Qual é o teu clube de futebol?
Eu - O Beira-Mar.
Ela - Não é isso... entre o Porto, o Benfica e o Sporting qual é o teu clube?
Eu - Nenhum.
Ela - Assim não dá para falar contigo.

conversa 1617

Ela - Não percebo a tara que os homens têm pelo sexo anal. Caraças, pá. Com o paraíso mesmo ali ao lado e só pensam em cu.
Eu - Qual paraíso ali mesmo ao lado?
Ela - Qual é que havia de ser? A vagina...
Eu - Ah!
Ela - Que cara é essa?
Eu - Desculpa lá, mas a contares-me isso como é que queres que eu olhe para o teu marido quando o encontrar?
Ela - Desculpa, tens razão. Não devia ter contado isto assim... é que ando nervosa.
Eu - Pronto, bebe um copo que isso passa.
Ela - Mas não olhes para ele com cara de cu que ele ainda te salta em cima.

conversa 1616

Ela - Dói-me tudo.
Eu - Tudo?
Ela - Tudo, tudo. Precisava duma massagem.
Eu - Hum... já ouvi falar muito bem duma massagista que trabalha ali perto do teatro Aveirense...
Ela - Pois... mas eu preciso é de um massagista.

respostas a perguntas inexistentes (109)

Um homem queixa-se ao balcão do bar. Diz ele que a vida vai de mal a pior e que se fosse mais novo mudava de país. Estou a tomar café sozinho mesmo ao lado e, apesar de ele olhar apenas para a barwoman que finge prestar-lhe atenção enquanto arruma melhor os pastéis de nata numa travessa, está a falar para todos os presentes. Está zangado e quer que todos o ouçam.
Eu concordo com ele, que este país vai de mal a pior, até porque esta manhã já tinha lido no Público Online que a mãe do nosso primeiro-ministro comprou a pronto um apartamento a um "offshore" num ano em que declarou menos de 250 euros de rendimento. É apenas mais um apontamento na cascata de más notícias que todos os dias nos assola. O que acho estranho é que todos os que se queixam queiram mudar de país e não mudar o país. Talvez seja por isso que estão sempre os mesmos no Governo.
Nas relações também é assim. Quando correm mal foge-se e não se tenta perceber. Não se tenta mudar. Ontem, também num café, um amigo dizia-me entre algumas garrafas de cerveja vazias que já vai no segundo casamento e que não está a resultar. Se fosse mais novo tentava já o terceiro. Nunca somos velhos demais para aceitar o sofrimento, respondi-lhe. Muito menos quando ainda estamos nos quarenta, insisti depois depois de mais um gole. O amor, por um homem, por uma mulher ou por todos nós (diga-se país), é também a nossa capacidade de intervir nele. Sem desistir...

10.18.2010

a torre das águias

Aspecto exterior da Torre das Águias
Diz uma placa colocada pela região de Turismo de Évora que a Torre das Águias, na Vila das Águias (pertencente à aldeia das Brotas no concelho de Mora), foi construída no século XIV por Dom Nuno Manuel, guarda-mor de D. Manuel I. O problema é que a única coisa em bom estado de conservação que se encontra por ali é mesmo a placa. De resto, a torre, um solar fortificado do tipo gótico-manuelino, com quatro pisos e paredes que chegam aos dois metros de grossura, está num estado de degradação tal que a queda da mesma se avizinha eminente
.
Estado de degradação geral do interior

Escada interior em caracol
Guaritas no último piso
Mesmo assim é um monumento que se deve visitar. A torre, em formato quadrado, tem quatro pisos e no último, a 22 metros de altura, algumas agulhas cónicas que serviam de guarita. Serviria essencialmente para apoio aos dias de caça e tem, a esse propósito, uma  lenda cristã por trás. Diz-se que os mouros emboscaram e mataram o senhor da Torre enquanto este andava à caça e que depois se dirigiram para a torre. A senhora da torre, avisada do perigo por um escudeiro, orou a Santa Maria de Aguiar para que esta a protegesse e esta enviou-lhe um cavalo alado para a fuga. O chefe dos mouros, ao ver o milagre, converteu-se ao cristianismo.

Tecto em abóboda
Devo ainda dizer que a aldeia das Brotas tem excelentes condições para acolher turistas e é um destino óptimo para quem precisa de desanuviar o stress. Eu, por mim, volto lá um dia destes...

10.15.2010

conversa 1615

(no café)

Ela - Estás a ver aquele gajo sentado ali no canto?
Eu - Sim.
Ela - As minhas amigas andam todas tolinhas por ele.
Eu - E tu não?
Ela - Eu não. Ele é bonito mas é demasiado bonito.
Eu - Demasiado bonito? Pode-se ser demasiado bonito?
Ela - Sim, um homem tem que ser um bocadinho feio também. Não muito, mas um bocadinho...

eighties

Tive a sorte de fazer nove anos em 1980. Não é que a década de oitenta tenha sido melhor que outra qualquer, mas foi com toda a certeza uma década de ilusão, ou de ilusões, e portanto a altura ideal para ser criança.
Em Portugal a ditadura e a guerra tinham acabado, o PREC também. No mundo vivia-se a expectativa do princípio do capitalismo especulativo e os jogos sem fronteiras, apresentados pelo Eládio Clímaco, eram um cheirinho infantil do que viria a ser a entrada na CEE em 1986. Lembro-me de ver com emoção a equipa de Aveiro vencer um desses jogos e andar orgulhoso com o feito durante um ano lectivo inteiro. O país unira-se em torno de tal conquista e Aveiro entrara no mapa. Portanto, a rua onde eu me divertia a pendurar fitas de Carnaval nas antenas dos poucos automóveis que iam passando também entrara. Eu estava a crescer e o mundo era cada vez mais pequeno. Parecia-me bem.
Em 1981 senti pela primeira vez que o mundo podia ser terrivelmente injusto, quando o Carlos Paião ficou em penúltimo lugar no festival da Eurovisão com a música PlayBack, mas nem por isso perdi a fé naquilo que para mim parecia ser o princípio da globalização: Jogos Sem Fronteiras, Festival da Eurovisão e a minha avó ir a Espanha comprar ananás enlatado em grandes quantidades.
Mas se em 1980 fiz nove anos, em 1985 fiz 14, e com essa idade vieram também as primeiras paixões a sério e as primeiras noites com a cabeça na almofada sem perceber muito bem o que me estava a acontecer, e a esta desordem emocional juntava-se a desordem racional. Percebi então que as mulheres de quem um homem gostava podiam, pura e simplesmente, não lhe ligar nada, e a união que eu sentira no país em relação aos Jogos Sem Fronteiras era falsa. Pelo menos uma fractura havia: aquela entre a maior parte dos retornados que diziam que Portugal precisava dum Salazar outra vez, e os comunas de que a cidade onde eu vivia dizia normalmente mal. Ao mesmo tempo que me apaixonei por uma morena do liceu que nunca me ligou nada optei por gostar desses comunas, um pouco contra tudo e contra todos. Afinal, do pouco que eu sabia, tinham sido sempre eles a protestar com a guerra.
Convém também lembrar que Portugal era um país racista nessa década, embora com dois tipos de racismo. Havia portugueses que simplesmente detestavam pretos, haviam outros portugueses que não os detestavam mas tinham pena deles por serem uns coitadinhos (se calhar este é o pior dos racismos) e, finalmente, outros que não os detestavam e não tinham pena deles. Incrível, achavam que eram pessoas como as outras todas. E eu também passei a achar.
Depois, como tudo, a década de 80 chegou ao fim. Em 1989, a morena por quem eu me apaixonara, desapareceu simplesmente do meu circuito e vim a apaixonar-me por outra mulher que acabou por ser a mãe da minha filha. A clarificação da minha vida emocional trouxe também alguma clarificação política: nem os retornados eram todos parvos à espera dum novo Salazar, nem os comunas eram todos uns reais ideólogos socialistas. Optei por esquecer definitivamente a morena e por adiar as minhas opções políticas para quando percebesse mais alguma coisa do assunto.
Estava a pensar nisto porque este fim de semana vou para uma festa dos anos 80 no Alentejo, que é também o aniversário dum amigo da Raquel, a minha companheira de vida actualmente. A Raquel é essa morena que, depois de se evadir da minha vida nos anos oitenta tornei a encontrar há cerca de dois anos, já divorciado e com uma filha grandota. Actualmente sou também aderente do Bloco de Esquerda em Aveiro. Estava a pensar no labirinto que a minha vida foi durante estes anos todos. A minha vida, como outra qualquer.

10.14.2010

conversa 1614

Ela - Sabes mesmo qual é o meu maior problema?
Eu - Ter quarenta e dois anos e não teres filhos?
Ela - Estúpido.
Eu - Estúpido porquê?
Ela - Podias enganar-te pelo menos uma ou duas vezes...

respostas a perguntas inexistentes (108)

É o quinto fósforo que tenta acender em vão. Todos se apagam com o ligeiro sopro que se insinua timidamente pela frincha da janela da cozinha. O bico aberto do fogão vai libertando gás e por isso desliga-o. Não é que seja grave não cozinhar agora o almoço, até porque nem sequer tem fome, mas de repente toda a sua vida lhe passou à frente nos cinco fósforos cuja chama se apagou de imediato. E conta pelos dedos as mulheres que ultimamente lhe fizeram o mesmo: incendiarem-no numa noite e apagarem-no na manhã seguinte. Talvez também cinco. Não tem a certeza.
O problema é que da última ainda restam algumas cinzas que se espalham com o vento morno que lhe varre o pensamento. A falta do amor é sempre assim, como um vento morno que vai semeando a preguiça dos nossos movimentos pela casa. A embalagem de cereais está em cima do frigorífico há três dias, o lixo está por levar há três dias, a toalha da mesa tem nódoas de vinho há três dias e ainda nem sequer está na máquina. Há três dias que a vida dele abrandou de ritmo, até agora em que desistiu de almoçar por causa de cinco fósforos sem chama.
Há três dias, durante o jantar, deram as mãos quase sem querer um ao outro e depois nenhum recuou. A seguir às mãos vieram os lábios e por fim o corpo. Acabaram por fazer amor no corredor por não conseguirem esperar pelo tempo que demorava chegar ao quarto. Ele estava a precisar disso e ela também. Foi o que disseram um ao outro e é verdade: não estavam nem estão a precisar de mais nada. O estranho é mesmo isso, ele não estar a precisar de mais nada. A falta de amor é sempre assim: a falta de precisar do que quer que seja.

conversa 1613

Ela - É engraçado, nunca te vi de aliança...
Eu - Detesto anéis. Aliás, detesto todo o tipo de acrescentos que se possam fazer ao corpo.
Ela - Porquê?
Eu - Não são práticos. Não consigo usar brincos, anéis nem nada disso.
Ela - E a tua namorada o que é que pensa disso?
Eu - Acho que não pensa nada. Sinceramente nunca falei com ela sobre isso.
Ela - Bem, no fundo até tem alguma sorte.
Eu - Porquê?
Ela - Um homem de aliança torna-se mais atraente, não sei bem explicar porquê.

10.12.2010

conversa 1612

Ela - Queres vir comigo a Fátima a pé?
Eu - Não.
Ela - Não?
Eu - Claro que não. Sou ateu e não vou lá de carro, muito menos a pé.
Ela - Hum... é que eu vou mesmo. Já prometi a mim mesma.
Eu - Já prometeste a ti mesma? Vais pagar alguma promessa?
Ela - Não. É para ficar com créditos...
Eu - Créditos?
Ela - Sim, se precisar no futuro de pagar uma promessa é como se já estivesse paga.

10.11.2010

conversa 1611

Ela - Detesto homens que andam uma eternidade à volta duma mulher, como cachorrinhos abandonados, e nunca dão um passo para a levar para a cama.
Eu - Isso aconteceu-te?
Ela - Conheci um gajo no infantário da minha filha com quem saí várias vezes. Ele até é interessante mas anda à minha volta e é só conversa, só conversa, só conversa...
Eu - Às tantas só quer conversa. Não está interessado em ti para mais do que isso.
Ela - Claro que está.
Eu - Pode não estar.
Ela - Claro que está. Achas que um gajo divorciado anda a convidar uma mulher para jantar, dia sim dia não, só para conversar com ela?
Eu - Acho...
Ela - Então é parvo.

conversa 1610

Ela - O que é que é mesmo bondage?
Eu - Bondage?
Ela - Sim.
Eu - É um fetiche sexual em que um domina e outro é dominado.
Ela - Um domina e outro é dominado?
Eu - Sim. Pode envolver algemas, cordas, chicotes e assim...
Ela (faz silêncio mas cora)
Eu - Não precisas de corar.
Ela - Não é isso. Acabei de dizer a um gajo na net que gosto muito de bondage.
Eu - Mas... se nem sabias o que era porque é que disseste que gostavas?
Ela - Ele é que falou nisso primeiro e a palavra nem me pareceu assim muito má. Bondage parece bondade...
Eu - Nem sei que te diga.
Ela - Não digas nada, não digas nada...

10.08.2010

conversa 1609

Ela - Desde que me separei que tenho algumas saudades estranhas do meu ex.
Eu - Isso não é estranho, é normal. Passaste tantos anos com ele que é preciso algum tempo para a coisa normalizar.
Ela - Não é isso, normal já está. O que eu estou a dizer é que algumas saudades concretas que eu tenho dele são estranhas.
Eu - Estranhas porquê?
Ela - Porque acho que o que mais sinto falta é daquilo que me fazia implicar com ele.
Eu - Por exemplo?
Ela - Por exemplo, ele deixar as beatas dos cigarros num cinzeiro no chão da varanda durante dias. Isso irritava-me tanto...
Eu - E agora tens saudades disso?
Ela - Sim, acho eu. Não sei explicar muito bem. Acho que é mesmo só por não ter ninguém com quem implicar.

conversa 1608

Ela - O meu marido nunca diz que me ama. Não sei se...
Eu - Não sabes se quê?
Ela - Não sei se ele não o diz porque não está habituado ou simplesmente porque já não me ama mesmo.
Eu - Hum... que tal perguntar-lhe?
Ela - Isso não, senão ele começa a dizê-lo só por se sentir obrigado.
Eu - E tu, dizes-lhe que o amas?
Ela - Eu não. Mas eu não o amo mesmo, percebes?

respostas a perguntas inexistentes (107)

Admito que acho as praças de alimentação um sítio óptimo para tomar café, já que me permitem estar sozinho e acompanhado ao mesmo tempo. Quando estamos, como eu estive esta semana, quase todas as noites sozinhos, a  nossa casa começa a ser um deserto e é aí que procuramos a companhia dos que não nos acompanham de facto. Por isso mesmo me sentei um dia destes na mesa da praça de alimentação dum shopping qualquer com uma dose curta de cafeína à frente.
Retirei do bolso umas folhas brancas e uma esferográfica para ver se conseguia escrever qualquer coisa mas, à falta de ideias, fui semeando desenhos como quem atira à sorte sementes de crescimento espontâneo para a terra árida. Depois uma sombra cobriu essa aridez fazendo-me olhar para cima onde, de facto, estava o céu. Uma mulher sorriu e disse-me: - "Ainda não perdeste a mania de estar sempre a desenhar", afastando-se depois lentamente.
Era ela, uma das minhas grandes paixões do liceu e que eu já não via há mais de vinte anos. Fiquei a vê-la ir, na esperança de que ela olhasse para trás pelo menos uma vez para se despedir com o olhar. Não o fez... mas talvez o tenha feito em pensamento.

10.04.2010

conversa 1607

Ela - Este fim de semana esteve tanta chuva... detesto chuva.
Eu - Detestamos todos, acho eu.
Ela - Eu só detesto chuva desde que me separei. Sou obrigada a ficar em casa e ficar em casa sozinha é deprimente demais.
Eu - Engraçado, tenho a sensação que me disseste mais ou menos o mesmo no Verão passado.
Ela - Mais ou menos o mesmo?
Eu - Sim, que detestas o bom tempo desde que te separaste porque ir à praia sozinha é deprimente.
Ela - Ah! Se calhar disse...
Eu - Realmente há pessoas que nunca estão bem. Não gostam de chuva, não gostam de Sol...
Ela - Eu estou bem se o tempo estiver mais ou menos. Nem muito bom, nem muito mau. Aliás, quando estou sozinha quero que o mundo inteiro seja exactamente assim em tudo. Nem muito bom, nem muito mau...

10.01.2010

conversa 1606

Ela - Então?
Eu - Então o quê?
Ela - Não reparaste em nada de diferente em mim?
Eu - Hum... cortaste o cabelo...
Ela - Não.
Eu - Tens um vestido novo...
Ela - Não.
Eu - Emagreceste?
Ela - Não.
Eu - Compraste uns sapatos?
Ela - Não.
Eu - Tens uma carteira nova, uma pulseira nova, um colar novo, pintaste-te ou puseste pó de arroz... foi isso?
Ela - Não.
Eu - Então o que foi? Desisto.
Ela - És um amigo incrível. Nem sequer reparas que eu fiz uma tatuagem?
Eu - Tatuagem? Onde?
Ela - Aqui no braço.
Eu - Mas... está debaixo da camisola...
Ela - Sai um bocadinho, sai um bocadinho...

conversa 1605

Eu - Queres almoçar comigo?
Ela - Quero. Passo em tua casa para te ir buscar?
Eu - Sim, por favor.
Ela - Mas temos que ir a um sítio sem cheiro a comida, está bem?
Eu - Sem cheiro a comida?
Ela - Sim, ando numa fase em que o cheiro a cozinhados me enjoa. Não quero ir a nenhuma praça de alimentação nem a nenhum restaurante que seja muito fechado.
Eu - Tudo bem. Então vamos onde?
Ela - Escolhe tu. Estás à vontade para ir onde quiseres desde que seja com esta condição.

divorciemo-nos

A política de rabo na boca, texto que publiquei no site distrital de Aveiro do Bloco de Esquerda, é só uma visão, mais uma, de como nos podemos deixar adormecer pela política. O poder é hegemónico e determina aquilo que está certo mesmo quando está errado. E nós vamos aceitando...
O medo da mudança é tal que teimamos em preferir essa hegemonia mesmo quando ela nos esmaga todos os dias. Hoje, por exemplo, e a sério que é só mais um exemplo, o mesmo PS que votou contra a criação duma bolsa de manuais escolares para famílias pobres, decidiu também enquanto governo gastar 134 mil euros num carro para transportar individualidades. Se o governo PS formasse uma maioria absoluta, o projecto da bolsa de livros escolares não tinha passado, ou seja, uma proposta que é apoiada por uma larga maioria da sociedade tinha morrido ali.
Estou a falar nisto porque rejeito relações doentias, sejam elas do foro amoroso ou político, e acho que a relação doentia que os portugueses mantêm com o poder político PS/PSD é a mesma que muitos sentem na sua relação pseudoamorosa. Quem está mal numa ou noutra que se divorcie e comece uma vida nova. Divorciemo-nos...

9.29.2010

conversa 1604

Ela - Tenho tudo para ser feliz. Tenho uma boa casa já paga, um carro razoável, amigos, um emprego estável e que não é tão mal pago quanto isso, uma filha maravilhosa e um marido honesto e carinhoso...
Eu - E então?
Ela - Não me sinto feliz.

do outro lado do balcão

Do outro lado do balcão estavam dois homens sentados, com os olhos colados a um monitor de computador para o qual um deles ia apontando com um ar grave e sério. Desde que entrara naquela pequena agência bancária ainda nenhum deles se tinha dignado a olhar directamente para mim. Não estão a atender, pensei eu encostando-me em modo de espera num dos pontos de atendimento.
E esperei. Esperei, esperei e tornei a esperar. Esperei até que uma morena giraça de saia curta entrou no local e os mesmos dois homens se atropelaram um ao outro para a poder atender.
- Mas eu sou transparente? - Perguntei.
- Não, não é. Esta senhora também não é. A questão é precisamente essa. - respondeu o mais baixinho.

9.28.2010

conversa 1603

(no café)

Ela - Sinto-me tão sozinha...
Eu - Agora neste momento ou habitualmente?
Ela - Deixa-te de ser estúpido. Sinto-me sempre sozinha...
Eu - Como és casada pensei que podias estar a sentir-te sozinha só hoje, sei lá...
Ela - O problema é precisamente esse, sentir-me sozinha apesar de partilhar a vida com outra pessoa. Se eu estivesse mesmo sozinha não me sentiria tão sozinha, percebes?
Eu - Acho que vou pedir uma cerveja. Queres uma?
Ela - Não, não percebes...
Eu - Perceber até percebo... acho eu.
Ela - Se eu estivesse sozinha sempre tinha a expectativa de poder conhecer alguém novo e dar uma volta de cento e oitenta graus à vida, percebes?
Eu - Então... se o problema é só esse, separas-te e pronto, já está.
Ela - Sim, quero uma cerveja. Pede-me uma das grandes, por favor.
Eu - Um príncipe, pode ser?
Ela - Claro que pode, um príncipe qualquer... mas isso não é assim tão simples.
Eu - Estou a falar da cerveja. O príncipe é um fino mas maior...
Ela - Ah! Pode, pode...

conversa 1602

(na casa dela, depois dela abrir uma garrafa de vinho)

Eu - É bom, este vinho. Não conhecia.
Ela - É razoável.
Eu - Para mim é bom.
Ela - Ainda bem que achas, mas eu tenho aí vinho bem melhor.
Eu - Tens?
Ela - Tenho, só que não vou abrir uma garrafa de quinze euros por tua causa. Tu já tens namorada e esse vinho é só para engates.

conversa 1601

Ela - Estou a precisar de férias e queria falar contigo.
Eu - Diz...
Ela - Preciso que me ajudes a marcar uma viagem e uma estadia baratas...
Eu - Epá, a minha namorada é que costuma tratar disso...
Ela - Pois, as mulheres é que tratam sempre de tudo. Eu também tenho que preparar tudo para mim, para o meu marido e para o meu filho.
Eu - Vão os três? Então é melhor marcar uma casa com cozinha...
Ela - Claro que vamos os três, o que é que pensavas?
Eu - Pensava que podias eventualmente deixar o puto com uma avó e ires só com o teu marido.
Ela - Queres que o meu filho cresça sem conhecer os pais?
Eu - Eu não quero nada. Estava só a supor, mais nada. Acho que às vezes também é importante abdicar dos filhos uns dias para estar com o marido... mas isso sou eu.
Ela - Eu não acho.
Eu - Eu acho que, assim como se pode correr o risco de afastamento dos filhos se se abusar nas saídas sem eles, um homem e uma mulher também podem afastar-se um do outro por dedicarem a vida só aos putos.
Ela - Sim... mas isso não me interessa.
Eu - Não interessa?
Ela - Não. De marido pode-se trocar facilmente. De filho não.

9.27.2010

pensamentos catatónicos (219)

Um dos passos mais importantes na passagem da adolescência para a fase adulta dum homem é perceber que uma mulher, de facto, pode contribuir decisivamente para a sua felicidade. E para a infelicidade também...

conversa 1600

Ela - Opá, antes de me separar imaginava que, se um dia isso me acontecesse, a minha vida ia ser muito melhor.
Eu - E então? É pior?
Ela - Tenho ficado muito em casa a ver televisão. Não saio com amigos e amigas como sempre pensei que ia fazer.
Eu - Então faz. Amigos não te faltam para isso...
Ela - Pois... acho que primeiro vou mandar desligar a tv por cabo.

9.22.2010

respostas a perguntas inexistentes (106)

Lembro-me com alguma nostalgia do tempo em que me sentava em qualquer lado para namorar. Podia ser na beira dum passeio, num muro qualquer ou até no chão arenoso do liceu. Agora não o faço a não ser no conforto do sofá da sala e, vá lá, uma vez por outra na areia da praia ou numa relva que por acaso se encontre fofa e sem detritos caninos. O que interessa é que dantes estar perto dela era o mais importante, agora o mais importante é estar perto dela e em condições de higiene e conforto mínimas. Não é que esteja mal, mas continuo a acreditar que a adolescência é uma fase única da vida.

conversa 1599

(no café)

Ela - Tenho consciência que não sou muito feia nem muito bonita.
Eu - Eu acho que és bonita.
Ela - Também acho que de corpo não sou assim nem muito má nem muito boa. Sou mais ou menos...
Eu - Hum, hum...
Ela - Então não dizes que sou boa?
Eu - Digo, digo... se quiseres eu digo.
Ela - Oh! Agora já não conta.
Eu - Desculpa. Estou a tomar café, nem te estava a dar atenção.
Ela - Pois... é que em conversa também só sou mais ou menos, não é?
Eu - Não, não. És boa de conversa.
Ela - Não mintas.
Eu - Então faço o quê?
Ela - Cala-te!

9.21.2010

conversa 1598

Ela - Achas muito mal uma mulher ir para a cama com um homem que é o ex-marido da sua melhor amiga?
Eu - Não, não acho nada mal.
Ela - Porquê?
Eu - Sei lá porquê. Não acho e pronto.
Ela - Caraças. Precisava dum argumento...

conversa 1597

Ela - Só a partir dos trinta e poucos anos é que me apercebi do que é ter sexo a sério.
Eu - Desde que te divorciaste, queres tu dizer...
Ela - Pois.
Eu - Preferia que não me dissesses isso.
Ela - Porquê?
Eu - Sou amigo do teu ex-marido e às vezes até bebo um copo com ele...
Ela - Por isso mesmo é que te digo isto.
Eu - Por isso mesmo? Não queres que eu lhe vá dizer que tu me disseste que não gostavas dele na cama, pois não?
Ela - Querer não quero, mas podes dizer à vontade.

lista de natal. epá! as gajas não tinham dinheiro?

Nos anos 50 as mulheres tinham o trabalho facilitado para o Natal. As listas de prendas já vinham publicadas em revistas e elas só tinham que escolher, chorar um bocadinho, e o marido comprava. Claro que a lista era só coisas úteis para elas poderem diverti... hum... hum... ter a vida doméstica facilitada. Pois...

Esposas, vejam este anúncio cuidadosamente. Façam um círculo à volta dos itens que querem para o Natal. Mostrem-no aos vossos maridos. Se ele não for ao armazém imediatamente chorem um pouco. Não muito. Só um pouco. Ele vai, ele vai.
Maridos, vejam este anúncio cuidadosamente. Escolham o que as vossa mulheres querem e vão comprar. Antes que elas comecem a chorar.

9.20.2010

couscous no mercado

amanhã, dia 21 de Setembro, é noite de Couscous Prosjekt no Mercado Negro.

conversa 1596

Ela - Qual foi a coisa mais maluca que fizeste por causa duma mulher?
Eu - Não sei... sei lá.
Ela - Ora pensa bem.
Eu - Talvez ter trepado a um segundo andar pelas varandas dum prédio quando era puto.
Ela - Fizeste isso?
Eu - Sim, uma vez. E tu? Qual foi a coisa mais maluca que fizeste por causa dum homem?
Ela - Bem... agora que falas nisso talvez tenha sido deixar que um gajo trepasse à minha janela pelo exterior do prédio.
Eu - O quê? Isso aconteceu-te mesmo?
Ela - Aconteceu... mas eu vivia num rés do chão.
Eu - Ah! Isso é fácil.
Ela - Pois é. Eu devia era ter obrigado o gajo a trepar dois ou três andares na casa duma vizinha...
Eu - Devias? Para quê?
Ela - Quando somos miúdas dá-nos gozo ver os rapazes perdidos a fazer essas figurinhas para nos impressionar.
Eu - Sim, esta conversa é a prova de que são os homens que andam sempre atrás das mulheres e não contrário.
Ela - Isso é verdade mas só até aos trinta anos.
Eu - Só até aos trinta?
Ela - Sim... aos trinta começamos a querer ter filhos.

os que não o estão...

É quando estou apaixonado que reparo mais facilmente nas pessoas que não o estão. Eu, porque estou apaixonado, não tiro os olhos da praia que corre do lado de lá da janela do comboio, como se ela me estivesse a convidar para ir lá com por quem me apaixonei; quem não está apaixonado viaja sempre a olhar para o chão ou a desviar o seu olhar do dos outros. Eu, porque estou apaixonado, bebo o copo de vinho ao almoço em suaves e prolongados goles, daqueles que acabam com um doce lamber dos lábios e um "ah!" saído do interior do peito; quem não está apaixonado bebe-o sem lhe perceber o aroma.
É quando estou apaixonado que reparo mais facilmente nas pessoas que não o estão, e é então que reparo que quase ninguém o está. Hoje de manhã as pessoas foram ocupando os bancos do comboio um a um, preferindo sempre os lugares mais vazios e distantes dos que já estavam ocupados. Ao almoço, depois de terminado o processo de mastigação, fiquei a saborear o que sobrava do vinho e do tempo entre mesas já abandonadas com copos deixados a meio. É como se todos se evitassem uns aos outros constantemente e não tivessem tempo para viver. Só para sobreviver.
É quando estou apaixonado que reparo mais facilmente nas pessoas que não o estão. Acabei o vinho a perceber que a diferença entre estar e não estar apaixonado é a mesma que distingue a vivência e a sobrevivência. Nada de novo, a não ser o facto de perceber que sobrevivi a isso...

9.19.2010

conversa 1595

Ela - Estou tão cansada. Não dormi nada esta noite.
Eu - Insónias?
Ela - Dormi com um gajo, um engate de ontem, que deixa a janela toda aberta. Logo de madrugada acordei com a luz do Sol a entrar no quarto. Eu só consigo dormir com tudo escuro...
Eu - E porque é que não fechaste a janela?
Ela - Ele estava a ressonar tão alto que achei melhor levantar-me de fininho, vestir-me e vir embora tomar café. Também não consigo dormir com barulho...
Eu (risos) - Então... e vieste embora assim? Quando ele acordar e não te vir pode ficar confuso.
Ela - Não. Eu avisei a mãe dele que ia embora porque não estava a conseguir dormir.
Eu - Espera aí. Desculpa lá a curiosidade, mas foste dormir a casa de um engate fortuito e a mãe dele estava lá?
Ela - Sim... um gajo com quase quarenta anos que deixa a janela aberta durante a noite, ainda vive com a mãe e ressona alto não pode ser grande coisa.
Eu (mais risos)
Ela - Agora só quero esquecer este fim de semana e ver se não encontro o gajo por aí nos próximos dias.
Eu - Eu acho que ele te vai telefonar mal acorde.
Ela - Não... o número de telefone que lhe dei é falso.

9.17.2010

conversa 1594

Ela - Preciso de um homem para ir ao cinema comigo este fim de semana.
Eu - Eu até posso ir. Qual é o filme?
Ela - Ainda não sei. Sei que o meu ex vai ao cinema com a namorada dele e eu quero aparecer lá de braço dado a um gajo qualquer.
Eu - O teu ex conhece-me e sabe que tu não és minha namorada.
Ela - Tens razão, não serves. Tens algum amigo que me possa ajudar?
Eu - Mas... tu estás bem? A ti basta-te estalar os dedos e de certeza que tens muitos homens para ir contigo ao cinema, jantar contigo ou o que te apetecer.
Ela - Mas isso não quero. Quero um gajo que vá comigo e depois não me chateie mais.
Eu - Ahn?
Ela - Não quero que o meu ex pense que eu não consigo arranjar nenhum homem para companhia. Ao mesmo tempo estou numa fase em que prefiro não ser incomodada por nenhum ser que tenha o órgão sexual no lugar do cérebro...

conversa 1593

Ela - Tens uns óculos novos?
Eu - Tenho. Como é que reparaste? São tão parecidos com os outros...
Ela - Estão limpos.

9.16.2010

couscous depois do jantar

Hoje à noite há Couscous no Clandestino bar em Aveiro, a partir das onze da noite, mais coisa menos coisa...

conversa 1592

Ela - Finalmente consegui que o meu marido faça alguma coisa lá em casa.
Eu - Conseguiste o quê?
Ela - Que o meu marido ajude um pouco nas tarefas domésticas lá em casa.
Eu - Ah! E como?
Ela - Dou-lhe as meias e cuecas para dobrar no princípio de um jogo de futebol e ele dobra tudo enquanto o vê na televisão.
Eu (risos) - Só o deixas ver o jogo na televisão se ele fizer isso, é?
Ela - Não... mas se o fizer prometo que o deixo em paz e nem sequer entro na sala.

conversa 1591

Ela - Ainda tens aquele livro que eu te emprestei?
Eu - Qual livro? Não me lembro de me teres emprestado nenhum livro...
Ela - Ok, era só para saber.
Eu - Só para saber o quê?
Ela - Se tinhas algum livro meu em tua casa. É que empresto tantos livros que já nem sei onde está a maior parte deles.
Eu - Podias ter perguntado directamente se eu tinha ou não algum livro teu.
Ela - Pois podia, mas aí tu ficavas a saber que eu não tinha a certeza se te tinha ou não emprestado algum.
Eu - E não confias em mim?
Ela - Não tem a ver com confiança. É uma questão de método.

9.13.2010

voar pela primeira vez

A minha filha faz anos hoje e nunca voou. Para festejar a data vou voar com ela pela primeira vez até Madrid e volto um dia depois. Não sei porquê mas apeteceu-me dizer isto, talvez por gostar da expressão "voar com a minha filha pela primeira vez". Só isso. E de repente acho que Madrid esteve ali sempre à espera deste dia.
Esta sensação de que uma imensidão esperou por nós uma eternidade é dum profundo egoísmo, admito, e acho que é por isso que só acontece em casos de amor.

conversa 1590

Ela - Ando tão ansiosa.
Eu - Andas?
Ela - Sim. É como se estivesse à espera que alguma coisa acontecesse na minha vida.
Eu - Alguma coisa? Mas o quê?
Ela - Não sei. Ainda não aconteceu.
Eu - Estás a gozar?
Ela - Não, deixa lá. Isto é mais uma das coisas que os homens não percebem.
Eu - Os homens não percebem a ansiedade duma mulher que está à espera duma coisa que não sabe o que é... muito bem...
Ela - Não sabe o que é mas sabe que vai acontecer.
Eu - Estou curioso. Quando acontecer diz-me para ver se eu percebo.
Ela - Está bem. Se puder dizer...
Eu (silêncio)
Ela - Mas escusas de olhar para o relógio. Não vai acontecer hoje.

conversa 1589

(ao telefone durante a noite)

Ela - Como é que estás?
Eu - Bem... mas com dificuldades em dormir.
Ela - Insónia?
Eu - Não é bem... é mais por tua causa.
Ela - Por minha causa? Mas eu estou na minha casa e tu na tua.
Eu - Exacto.

respostas a perguntas inexistentes (105)

alfinetes

Há poucas histórias sóbrias sobre o Amor que me interessem. Acho que as boas histórias sobre Amor são sempre histórias embriagadas. A mesma coisa se passa com o álcool. Há poucas bebedeiras que me interessem se não estiver apaixonado. Talvez os estados de ébrio e de apaixonado sejam mesmo semelhantes.
O Amor, no entanto, está muito longe de ser um gajo porreiro que bebe uns copos e conta histórias. Sabe quem já se apaixonou por uma mulher que não se apaixonou por ele. Sei-o eu, sabemo-lo todos. Aliás, a maior parte das conversas que tive com esse gajo foram tristes, acho eu, em frente a um mapa cheio de alfinetes.
É que também sei que as mulheres por quem me apaixonei e que nunca se apaixonaram por mim se foram transformando em alfinetes espetados num mapa, como aqueles que indicam os lugares que nunca visitámos mas queríamos visitar um dia.
Hoje por acaso tive uma conversa feliz com ele. É que o mapa só tem um alfinete e eu já o visitei. Acho que ele queria falar mais, mas eu disse-lhe que há poucas histórias sóbrias sobre o Amor que me interessem...

9.12.2010

conversa 1588

Ela - Há pessoas que detesto mesmo sem as conhecer de lado nenhum.
Eu - Não te preocupes. Isso é mais normal do que possas pensar...
Ela - É?
Eu - É. Pelo menos eu acho que sim.
Ela - Que tipo de pessoas detestas tu?
Eu - Sei lá... olha, por exemplo, pessoas racistas detesto de certeza.
Ela - Eu detesto as pessoas que me detestam a mim.

9.11.2010

conversa 1587

Ela - Lembras-te daquele rapaz de quem te falei?
Eu - Aquele com quem saíste algumas vezes?
Ela - Sim.
Eu - Lembro.
Ela - Esquece. Já não vai dar nada com ele.
Eu - Fiquei com a impressão que até estavas a gostar dele...
Ela - E estava... mas... na hora da verdade não gostei e desisti.
Eu - Na hora da verdade? Mas quê? O sexo correu mal? Isso às vezes corre mal a primeira ou a segunda vez mas depois vai melhorando...
Ela - Qual sexo qual quê? A hora da verdade foi o restaurante que o gajo escolheu para me levar a jantar fora a primeira vez. Que restaurante de merda.

pensamentos catatónicos (218)

As mulheres são boas

Estou perfeitamente convencido que por norma as mulheres são boas. Boas pessoas, quero eu dizer. Preocupam-se com o bem estar dos outros como nenhum homem o faz. Talvez isso tenha, de facto, a ver com questões biológicas ou talvez não. Sei lá. Sei que não é por acaso que elas deixam os homens convencerem-se que mandam nisto tudo e que o modelo social em que vivemos é masculino. É por serem boas. Os homens não mandam nada e só se apercebem disso quando se apaixonam. Mas mesmo quando um homem se apaixona por uma mulher, ela deixa-o convencer-se que ele manda em tudo. Em tudo menos nela, e que essa excepção se deve à grande força da natureza que é o Amor.

respostas a perguntas inexistentes (104)

A dança dos machos

Há uma relação directa entre o mundo do amor nas aves e na nossa espécie. Percebi isso ontem enquanto bebia uma cerveja num bar em Aveiro onde outra mesa era ocupada por uma mulher também sozinha. Uma mulher sozinha num bar nunca é uma coisa qualquer, é uma ilha para onde alguns homens querem navegar mas não têm permissão para aportar. Por isso pedem-na, e pedem-na da mesma forma que uma ave macho qualquer o faz para conseguir acasalar, ou seja, realizando performances pouco discretas para chamar a atenção.
Um grupo de homens entrou na sala e começou imediatamente a dança do acasalamento. Todos pediram cerveja, o que para além de mostrar alguma maturidade ajuda a ganhar alguma coragem. Imediatamente subiram o tom da voz, entrando numa conversa em que todos falavam sem se ouvirem uns aos outros. Mas eu (e já agora o bar inteiro) ouvia tudo. Fiquei a saber que estavam todos disponíveis, que todos tinham uma vida agitada e interessante, ou porque um praticava desporto ou porque o outro andava a ser perseguido no emprego por ser o melhor naquilo que faz.
As aves macho fazem mais ou menos o mesmo: abrem as asas e erguem o rabo em redor da fêmea enquanto cantam. Esta fêmea não lhes ligou nada e saiu depois da bebida. Eles baixaram todos o nível de intensidade vocal e eu lá pude escrever o que acontecera num bloquinho para não me esquecer. Depois também saí. Nenhuma fêmea me ligou nada durante a noite inteira.

9.10.2010

conversa 1586

Ela - Às vezes acho que é mais difícil de suportar o ciúme dum amigo do que o ciúme de um ex-namorado.
Eu - Não percebi.
Ela - Para mim, se um amigo meu deixa de me telefonar com regularidade porque arranjou uma namorada é pior do que ver o meu ex-namorado com uma namorada nova.
Eu - Ah! Porquê?
Ela - Porque a um amigo não consigo desejar mal, a um ex-namorado normalmente só quero é que a vida lhe corra mal.

pensamentos catatónicos (217)

Acho que o mais difícil de compreender numa mulher, ou seja, em todas as mulheres que tive o prazer de conhecer intimamente até hoje, é o síndrome da inexplicável e repentina alteração de humor.

9.09.2010

ausência

Este blogue esteve um pouco parado esta semana por motivos pessoais, ou seja, a administração do meu local de trabalho/executivo PSD da Câmara Municipal de Espinho deixou de me pagar o salário sem explicar nada a ninguém nem dar satisfações. Como devem percebem facilmente, trabalhar e não receber tem implicações directas no dia-a-dia de qualquer pessoa, para além da óbvia falta de respeito por mim que o facto demonstra, tive que me mexer para conseguir pagar algumas das minhas obrigações mensais. Daí a minha ausência. Era só para vos explicar...

conversa 1585

Ela - Convidei um amigo meu para o meu aniversário, ele agradeceu e disse-me que ia pedir permissão à mulher para aparecer. Acreditas nisto?
Eu - Acreditar, acredito...
Ela - Mais uma relação em que a mulher é que manda.
Eu - Sim... pelo menos parece. Mas também parece que ele aceita bem isso.
Ela - Aceita mais ou menos. Depois admitiu que até prefere que ela não o deixe.
Eu - Que não o deixe? Porquê?
Ela - Porque se ela não deixar vir ao meu aniversário depois não tem coragem para não o deixar ir ao futebol no fim de semana.

9.03.2010

conversa 1584

Ela - Estou farta daqueles beijos entre marido e mulher em que os só os lábios é que se tocam...
Eu (risos) - Estás? São assim tão maus?
Ela - Não é que sejam maus, pá, mas quando me casei pensei que ia ter beijos de língua todos os dias.
Eu - Pois... com o tempo os beijos de língua vão-se transformando em beijos mornos, sim...
Ela - E eu que tive tanto cuidado para escolher um marido que lavasse bem os dentes.

bacalhau à brás

Esta semana tive muito pouco tempo para vir até aqui, o que na verdade me deixa com uma pedrinha na alma. Hoje, pelo menos, poderão ler a última crónica de engate, crónicas de engate essas que a partir de agora serão publicadas no site amulher.com. Hoje saiu a primeira e chama-se Bacalhau à Brás.

9.02.2010

conversa 1583

(no café)

Ela - Caraças, pus açúcar no café.
Eu - E depois?
Ela - Decidi que não bebo mais café com açúcar. Estou a ficar muito gorda.
Eu - Fazes bem.
Ela - Faço bem?! Estás a dizer que estou gorda?
Eu - Não, estou só a dizer que fazes bem. Toda a gente sabe que se deve controlar o consumo de açúcar.
Ela - Hum...
Eu - E desde quando é que tomas o café sem açúcar?
Ela - Na verdade esta ia ser a primeira vez.

9.01.2010

conversa 1582

Ela - Já alguma tiveste a sensação de que uma relação pode não funcionar apesar dos envolvidos gostarem muito um do outro?
Eu - Hum... já, já tive.
Ela - É a sensação que eu ando a ter agora. Passo a vida a discutir com o meu marido apesar de gostar muito dele e acho que não aguento mais...
Eu - Às vezes essa sensação é temporária. Há fases melhores e fases piores em todas as relações.
Ela - O pior é que eu estou nesta fase desde que me casei.
Eu - Desde que casaste?
Ela - Bem... desde o dia seguinte ao casamento. Nesse dia discutimos logo no Hotel onde passámos a noite de núpcias por causa de qualquer coisa que já nem me lembro.
Eu - Há quanto tempo casaste?
Ela - Há dez anos.