11.04.2010

conversa 1629

(no café)

Ela - Com quantas mulheres é que já foste para a cama?
Eu - Sei lá.
Ela - Foram assim tantas?
Eu - Não é isso. Só que agora, assim de repente, não te sei dizer.
Ela - Se tivesses ido só com uma lembravas-te de certeza.
Eu - Mas porque é que raio queres saber isso agora?
Ela - Só curiosidade.
Eu - Mas não te sei responder...
Ela - Eu acho é que não queres responder.
Eu - Se calhar.
Ela - E no último ano? Com quantas mulheres é que foste para a cama no último ano?
Eu - Uma.
Ela - Uma?
Eu - Sim... namoro há dois anos.
Ela - Não tens piada nenhuma...

11.03.2010

conversa 1628

Ela - Tenho um problema: amo um homem de quem me cansei.
Eu - Mas amas mesmo?
Ela - Amo, sei que sim. O que eu queria era poder chegar ao pé dele e dizer que quero fazer um intervalo de um ano na nossa relação.
Eu - Hum... percebo. E o que é que fazias nesse ano?
Ela - Andava com outros homens, claro.
Eu - Claro?
Ela - Sim, um dos motivos pelos quais eu me sinto cansada é que ando com ele desde o liceu. Só tenho uma vida e nunca experimentei outra coisa. Percebes?
Eu - Mas se lhe pedires esse ano ele não vai aceitar facilmente, pois não?
Ela - Não. Embora eu ache que ele está tão cansado de mim quanto eu dele.
Eu - Isso não facilita as coisas?
Ela - Não. Se ele me viesse pedir esse ano eu também reagia mal. Não o quero perder, só quero desenjoar dele, percebes?
Eu - Sim, percebo. Queres esse ano de intervalo mas não queres que ele também queira. No entanto achas que ele também quer... O ideal seria ele compreender que tu tens essa necessidade de experimentar outras coisas e ficar à tua espera fechado em casa.
Ela - Sim... é mais ou menos isso.
Eu - Pois... as coisas não são assim, pois não?
Ela - Pois não, eu sei. O que é que hei-de fazer?
Eu - Tens três hipóteses. Ou lhe pedes esse ano e sofres as consequências, que podem ser várias; ou não lhe pedes e manténs esse cansaço na tua vida enquanto der.
Ela - E a terceira hipótese qual é?
Eu - Acabamos de beber esta garrafa de vinho, abrimos outra, eu asso uma chouriça e ficamos na conversa até às tantas.
Ela - Opto por essa.
Eu - Óptimo.

talvez um destes dias toque no tecto...

O que eu quero é dizer-te que te amo. O problema é que dizer isso só assim parece sempre pouco. Deixa-me ver... é a mesma sensação que tinha em criança quando saltava para tentar tocar no tecto da sala e nunca conseguia. Vou tentar saltar mais desta vez...
O que eu quero dizer-te é que há bocado estava sentado num banco dum jardim qualquer numa cidade qualquer e o vento veio tocar-me. Abraçou-me os ombros e eu pensei que eras tu, apesar de saber que estavas a muitos quilómetros de distância. Isso acontece-me sempre, pensar que és tu quando um estímulo qualquer investe no meu corpo. Depois pensei que aprendi contigo que o Amor também é isso: achar que és tu quando a natureza respira.
Ontem, por exemplo, fiquei a ver a luz levantar voo devagarinho enquanto as sombras povoavam as ruas. Cada uma dessas sombras que ia surgindo me parecia sempre que eras tu, mesmo sabendo que não eras. Até cheguei a seguir uma delas com o olhar, convencido que a sua metamorfose se revelaria em ti. Não revelou, acho que entrou num automóvel qualquer e depois partiu, mas fiquei a saber que aprendi contigo que o Amor também é isso: achar que és tu a revelação da natureza.
O que eu quero mesmo é dizer-te que te amo. O meu problema é que nunca consigo. Até já pensei que é por ser homem que não consigo. Mas tento, a sério que tento. Talvez um destes dias toque no tecto...

11.02.2010

conversa 1627

(entre duas crianças no comboio)

Ele - Não gosto nada de beijos.
Ela - Os grandes beijam-se uns aos outros na boca, não é na cara.
Ele - Isso não são beijos.
Ela - São beijos, sim.
Ele - Não são nada que eu já vi. Metem a língua dentro da boca do outro para lhe limpar os dentes.
Ela - É?
Ele - É.

10.29.2010

conversa 1626

(no café)

Eu - Que horas são?
Ela - São horas de eu decidir se ponho ou não fim a o meu namoro de dois anos.
Eu - Ahn?
Ela - São horas de eu decidir a minha vida.
Eu - Eu só queria mesmo saber que horas são. O relógio deste café está parado.
Ela - Ah! São duas e meia.

conversa 1625

Ela - Vou tirar este fim de semana para estar com algumas amigas minhas. Tudo mulheres.
Eu - Fazes bem.
Ela - Não sei se faço.
Eu - Porquê?
Ela - Isto de sair só com mulheres pode querer dizer duas coisas.
Eu - Que coisas?
Ela - Ou tenho uma idade mental ainda de garota ou já tenho uma idade mental própria da terceira idade.
Eu - Não percebo.
Ela - Acho que só tem lógica sair com as amigas quando ainda somos garotas ou quando já estamos velhinhas...
Eu - Mas porquê?
Ela - Quando somos garotas os homens ainda são estúpidos, quando ficamos velhinhas os homens já são estúpidos outra vez.

pensamentos catatónicos (220)

zapping ao pequeno-almoço

Os ecrãs dos nossos televisores estão empanturrados com uma publicidade da Meo, feita pelos Gato Fedorento, que apregoa que aquele é o serviço de televisão por cabo com o zapping mais rápido do mercado. Mais nada, só isso. E para prová-lo montaram um laboratório gigantesco onde comparam aquele ao zapping da concorrência. A Meo é portanto a assumpção de que as pessoas já não param para contemplar nada, nem que seja um mísero programa na televisão, e que preferem passar (que é como quem diz perder) as noites a saltar pelos canais todos.
O problema é quem faz zapping acaba por ver um pouco de tudo sem perceber de facto nada, e isto não seria um problema se não se estendesse à nossa própria vida, incluindo ao nosso próprio Amor que, principalmente por força do endeusamento da Economia, se está a transformar em mais um programa no meio de muitos pelo qual passamos às vezes os olhos. Hoje tomei café de manhã numa pastelaria dos subúrbios da cidade onde vi uma mulher despedir-se do companheiro levando a mão à boca para simular um beijo. Não o beijou de facto e depois saiu a correr para apanhar um autocarro cujos freios já se faziam ouvir. Depois vi-o a ele a encolher-se perante o copo de galão meio vazio e a torrada mal roída que ela deixou em cima da mesa. Acho que o povoou uma qualquer sensação de abandono.
O zapping é essencialmente isto: abandono. E eu não queria que ele passasse por mim. Se eu podia viver com ele? Podia. Mas não era a mesma coisa.

10.27.2010

significado uma pessoa flatulenta

Mais algumas busca no google que vieram aqui dar...

como ganhar um bom rabo
Eu, mesmo sem ser um grande especialista no assunto, aconselhava a pedir mais do que uma opinião neste assunto.

eu me apaixonei por um homem da net mas ele não me ama
Às tantas é por ter sido pela net. Digo eu, sei lá...

mulheres nervosas ao extremo
Isso não existe, pois não? Mulheres nervosas... naaaaa. Nunca ouvi falar.

Mais algumas buscas no Google que vieram aqui dar...
mulheres sensuais de rabo de peixe
Até podem ser sensuais. Não as aconselho é a dizer de onde são logo assim à primeira. Podem perder a sensualidade...

mulheres trazando com porco
Epá, isso tem muito que se lhe diga. Um gajo usa as mesmas meias três ou quatro dias seguidos e elas já acham que um gajo é porco.

porque as mulheres gostam de espremer espinhas
É verdade que gostam, mas eu acho que gostam mesmo é de espremer um gajo. As espinhas são uma desculpa.

sexo com velhas 95 anos
Se fosse com novas de 95 anos admito que ficava mais espantado.

sexo de porco com porcas
Portanto, tem um porco e várias porcas. É isso? Hum... hum... feliz, o porquinho.

significado uma pessoa flatulenta
Espero que não seja tarde demais mas vou dar uma pista: não é tocar flauta.

vidios de sexo gratis de mulheres com porcos
Um pedido tão específico e tem que ser grátis?

conversa 1624

Ela - Os homens deviam perceber que não se deve dizer a uma mulher mal dum amigo dela.
Eu - Porquê?
Ela - Primeiro porque dá mau aspecto falar mal doutro homem pelas costas.
Eu - Sim, concordo.
Ela - Segundo porque quem diz mal doutro normalmente tem problemas de afirmação, ou seja, para se afirmar precisa de denegrir a imagem doutra pessoa.
Eu - Sim, também concordo.
Ela - Terceiro porque não acho que sejas assim tão palhaço.
Eu - Ahn?
Ela - Estiveram-me a dizer mal de ti.

10.26.2010

conversa 1623

Ela - Um problema só é um problema se tiver solução.
Eu - Se não tiver solução é o quê?
Ela - É um homem.

10.22.2010

conversa 1622

(no café)

Ela - Ontem mandei-te um email.
Eu - Eu vi, eu vi...
Ela - Viste mas não respondeste.
Eu - Não me perguntaste nada.
Ela - Mas podias ter acusado a recepção, ao menos.
Eu - Poder podia, de facto, mas não achei importante.
Ela (levanta-se)
Eu - Vais embora? Ainda agora chegámos.
Ela - Eu podia ficar mas não acho importante.

conversa 1621

(numa sala escura depois do disjuntor ter disparado)

Eu - Onde é que estás?
Ela - Aqui.
Eu - Mas onde?
Ela - Aqui no meio da escuridão. Não me vês?
Eu - Não.
Ela - Cegueta.

piolho

Ainda há revistas de poesia a sério. Agradeço ao Centro Nacional de Contracultura o convite para participar na Piolho 002. Podem comprá-la contactando o editor num dos seguintes links: edições mortas, facebook piolho, e facebook edições mortas.

10.21.2010

conversa 1620

Ela - Pela primeira vez tive uma reclamação na cama.
Eu - Uma reclamação na cama?
Ela - Sim, um gajo que me disse que eu me mexo muito pouco. Estava sempre a dizer "mexe-te, mexe-te".
Eu (risos)
Ela - Não te rias, não tem piada nenhuma.
Eu - Tens que admitir que tem.
Ela - Só não percebo uma coisa.
Eu - O quê?
Ela - Como é que ele queria que eu me mexesse com ele em cima de mim. O gajo pesa uns noventa quilos e eu sou esta trinca-espinhas. Se eu me conseguisse mexer, acho que tinha fugido.

conversa 1619

Ela - Quando é que podes sair comigo à noite?
Eu - Hum... talvez este fim de semana.
Ela - Ando mesmo a precisar de beber uns copos?
Eu - Epá, tudo bem, mas olha que para copos não ando grande coisa.
Ela - Tudo bem, só preciso mesmo que me leves a casa ao fim da noite.

respostas a perguntas inexistentes (110)

Uma mulher tem inveja da própria sombra que se estende pela textura petrificada dos passeios da avenida. Está deitada, a sombra, e ela também queria estar. Na verdade era o que ela mais queria, que tem acumulado o cansaço dos dias num corpo cada vez mais fraco. Até a sua cabeça já só funciona em piloto automático. Agora olha para a sua própria sombra com inveja e esse é apenas mais um pensamento automático.
Um homem tem inveja da própria sombra que na parede vazia da sala fuma um cigarro descontraído. Ele também fuma um, só que preocupado e trémulo perante a incerteza dos dias. Tem acumulado essa incerteza numa dívida crescente que não consegue pagar, numa janela onde a chuva e o Sol não se decidem e, mais do que tudo, numa mulher cujos beijos da vida foram encolhendo até hoje de manhã, momento em que se despediu apenas com a timidez duma palavra: tchau.
Ela tem a tristeza do passado, pelo menos é o que acha. Ele tem a tristeza do futuro, pelo menos é o que acha. Ambos têm a incerteza do presente, pelo menos é que acham.
O que ambos acham também, é que a vida se cansa do amor quando o amor se cansa a si mesmo. Talvez logo à noite as suas sombras se possam tocar antes deles próprios o fazerem. Num beijo lento, numa mão dada ou noutra coisa qualquer. Às vezes é melhor assim.

sem surpresas

Hoje à noite, para quem não quiser ficar fechado em casa a ver miúdas giras na televisão, os Couscous Prosjekt, ou seja, o dj Bagaço Amarelo e a dj Moa Bord, estão no Clandestino bar em Aveiro a partir das 22:45. É muito provável que esta música ocupe o lugar do silêncio durante parte da noite.

10.20.2010

já estou pronta

Quando uma mulher grita do quarto que já está pronta enquanto ele espera encostado à porta de casa já entreaberta, definitivamente não está pronta. É uma questão técnica, primeiro que tudo, porque se ela estivesse mesmo pronta podia vir andando e não precisava de avisar. Até aqui nada de especial, o problema é que não é apenas a questão técnica que está por trás disto. O que ela quer dizer realmente quando grita que já está pronta, é mais ou menos "vai descendo e mesmo que aguentes mais uma hora à minha espera finge que não estás nada aborrecido!".
Era muito melhor se ela dissesse que demorava cinco minutos, vinte minutos ou mesmo meia-hora a arranjar-se, mas nunca o faz. Isso somos nós, os homens, a fazer, e somos palermas por fazê-lo. Quando um homem diz que precisa de cinco minutos, a pressão fica toda sobre ele. Quando ela diz que já está pronta e não aparece de imediato, não há pressão nenhuma. Mentiu. Ponto final.
Esta lógica do "já estou pronta" aplica-se, em abono da verdade, a tudo na vida o que diz respeito à relação entre um homem e uma mulher. Até porque se, quando ela o diz, ele for ao quarto averiguar por que motivo ela não aparece, a resposta dela é um simples "ai homem! és tão chato!", que na verdade quer dizer "desaparece já daqui!". É assim: para manter uma relação saudável e feliz, ele deve desaparecer sempre que tiver alguma razão numa possível discussão. Por outro lado, quando ele não tiver razão nenhuma o melhor é não desaparecer, que é para ela poder ganhar mais uma luta verbal.

10.19.2010

conversa 1618

Ela - Qual é o teu clube de futebol?
Eu - O Beira-Mar.
Ela - Não é isso... entre o Porto, o Benfica e o Sporting qual é o teu clube?
Eu - Nenhum.
Ela - Assim não dá para falar contigo.

conversa 1617

Ela - Não percebo a tara que os homens têm pelo sexo anal. Caraças, pá. Com o paraíso mesmo ali ao lado e só pensam em cu.
Eu - Qual paraíso ali mesmo ao lado?
Ela - Qual é que havia de ser? A vagina...
Eu - Ah!
Ela - Que cara é essa?
Eu - Desculpa lá, mas a contares-me isso como é que queres que eu olhe para o teu marido quando o encontrar?
Ela - Desculpa, tens razão. Não devia ter contado isto assim... é que ando nervosa.
Eu - Pronto, bebe um copo que isso passa.
Ela - Mas não olhes para ele com cara de cu que ele ainda te salta em cima.

conversa 1616

Ela - Dói-me tudo.
Eu - Tudo?
Ela - Tudo, tudo. Precisava duma massagem.
Eu - Hum... já ouvi falar muito bem duma massagista que trabalha ali perto do teatro Aveirense...
Ela - Pois... mas eu preciso é de um massagista.

respostas a perguntas inexistentes (109)

Um homem queixa-se ao balcão do bar. Diz ele que a vida vai de mal a pior e que se fosse mais novo mudava de país. Estou a tomar café sozinho mesmo ao lado e, apesar de ele olhar apenas para a barwoman que finge prestar-lhe atenção enquanto arruma melhor os pastéis de nata numa travessa, está a falar para todos os presentes. Está zangado e quer que todos o ouçam.
Eu concordo com ele, que este país vai de mal a pior, até porque esta manhã já tinha lido no Público Online que a mãe do nosso primeiro-ministro comprou a pronto um apartamento a um "offshore" num ano em que declarou menos de 250 euros de rendimento. É apenas mais um apontamento na cascata de más notícias que todos os dias nos assola. O que acho estranho é que todos os que se queixam queiram mudar de país e não mudar o país. Talvez seja por isso que estão sempre os mesmos no Governo.
Nas relações também é assim. Quando correm mal foge-se e não se tenta perceber. Não se tenta mudar. Ontem, também num café, um amigo dizia-me entre algumas garrafas de cerveja vazias que já vai no segundo casamento e que não está a resultar. Se fosse mais novo tentava já o terceiro. Nunca somos velhos demais para aceitar o sofrimento, respondi-lhe. Muito menos quando ainda estamos nos quarenta, insisti depois depois de mais um gole. O amor, por um homem, por uma mulher ou por todos nós (diga-se país), é também a nossa capacidade de intervir nele. Sem desistir...

10.18.2010

a torre das águias

Aspecto exterior da Torre das Águias
Diz uma placa colocada pela região de Turismo de Évora que a Torre das Águias, na Vila das Águias (pertencente à aldeia das Brotas no concelho de Mora), foi construída no século XIV por Dom Nuno Manuel, guarda-mor de D. Manuel I. O problema é que a única coisa em bom estado de conservação que se encontra por ali é mesmo a placa. De resto, a torre, um solar fortificado do tipo gótico-manuelino, com quatro pisos e paredes que chegam aos dois metros de grossura, está num estado de degradação tal que a queda da mesma se avizinha eminente
.
Estado de degradação geral do interior

Escada interior em caracol
Guaritas no último piso
Mesmo assim é um monumento que se deve visitar. A torre, em formato quadrado, tem quatro pisos e no último, a 22 metros de altura, algumas agulhas cónicas que serviam de guarita. Serviria essencialmente para apoio aos dias de caça e tem, a esse propósito, uma  lenda cristã por trás. Diz-se que os mouros emboscaram e mataram o senhor da Torre enquanto este andava à caça e que depois se dirigiram para a torre. A senhora da torre, avisada do perigo por um escudeiro, orou a Santa Maria de Aguiar para que esta a protegesse e esta enviou-lhe um cavalo alado para a fuga. O chefe dos mouros, ao ver o milagre, converteu-se ao cristianismo.

Tecto em abóboda
Devo ainda dizer que a aldeia das Brotas tem excelentes condições para acolher turistas e é um destino óptimo para quem precisa de desanuviar o stress. Eu, por mim, volto lá um dia destes...

10.15.2010

conversa 1615

(no café)

Ela - Estás a ver aquele gajo sentado ali no canto?
Eu - Sim.
Ela - As minhas amigas andam todas tolinhas por ele.
Eu - E tu não?
Ela - Eu não. Ele é bonito mas é demasiado bonito.
Eu - Demasiado bonito? Pode-se ser demasiado bonito?
Ela - Sim, um homem tem que ser um bocadinho feio também. Não muito, mas um bocadinho...

eighties

Tive a sorte de fazer nove anos em 1980. Não é que a década de oitenta tenha sido melhor que outra qualquer, mas foi com toda a certeza uma década de ilusão, ou de ilusões, e portanto a altura ideal para ser criança.
Em Portugal a ditadura e a guerra tinham acabado, o PREC também. No mundo vivia-se a expectativa do princípio do capitalismo especulativo e os jogos sem fronteiras, apresentados pelo Eládio Clímaco, eram um cheirinho infantil do que viria a ser a entrada na CEE em 1986. Lembro-me de ver com emoção a equipa de Aveiro vencer um desses jogos e andar orgulhoso com o feito durante um ano lectivo inteiro. O país unira-se em torno de tal conquista e Aveiro entrara no mapa. Portanto, a rua onde eu me divertia a pendurar fitas de Carnaval nas antenas dos poucos automóveis que iam passando também entrara. Eu estava a crescer e o mundo era cada vez mais pequeno. Parecia-me bem.
Em 1981 senti pela primeira vez que o mundo podia ser terrivelmente injusto, quando o Carlos Paião ficou em penúltimo lugar no festival da Eurovisão com a música PlayBack, mas nem por isso perdi a fé naquilo que para mim parecia ser o princípio da globalização: Jogos Sem Fronteiras, Festival da Eurovisão e a minha avó ir a Espanha comprar ananás enlatado em grandes quantidades.
Mas se em 1980 fiz nove anos, em 1985 fiz 14, e com essa idade vieram também as primeiras paixões a sério e as primeiras noites com a cabeça na almofada sem perceber muito bem o que me estava a acontecer, e a esta desordem emocional juntava-se a desordem racional. Percebi então que as mulheres de quem um homem gostava podiam, pura e simplesmente, não lhe ligar nada, e a união que eu sentira no país em relação aos Jogos Sem Fronteiras era falsa. Pelo menos uma fractura havia: aquela entre a maior parte dos retornados que diziam que Portugal precisava dum Salazar outra vez, e os comunas de que a cidade onde eu vivia dizia normalmente mal. Ao mesmo tempo que me apaixonei por uma morena do liceu que nunca me ligou nada optei por gostar desses comunas, um pouco contra tudo e contra todos. Afinal, do pouco que eu sabia, tinham sido sempre eles a protestar com a guerra.
Convém também lembrar que Portugal era um país racista nessa década, embora com dois tipos de racismo. Havia portugueses que simplesmente detestavam pretos, haviam outros portugueses que não os detestavam mas tinham pena deles por serem uns coitadinhos (se calhar este é o pior dos racismos) e, finalmente, outros que não os detestavam e não tinham pena deles. Incrível, achavam que eram pessoas como as outras todas. E eu também passei a achar.
Depois, como tudo, a década de 80 chegou ao fim. Em 1989, a morena por quem eu me apaixonara, desapareceu simplesmente do meu circuito e vim a apaixonar-me por outra mulher que acabou por ser a mãe da minha filha. A clarificação da minha vida emocional trouxe também alguma clarificação política: nem os retornados eram todos parvos à espera dum novo Salazar, nem os comunas eram todos uns reais ideólogos socialistas. Optei por esquecer definitivamente a morena e por adiar as minhas opções políticas para quando percebesse mais alguma coisa do assunto.
Estava a pensar nisto porque este fim de semana vou para uma festa dos anos 80 no Alentejo, que é também o aniversário dum amigo da Raquel, a minha companheira de vida actualmente. A Raquel é essa morena que, depois de se evadir da minha vida nos anos oitenta tornei a encontrar há cerca de dois anos, já divorciado e com uma filha grandota. Actualmente sou também aderente do Bloco de Esquerda em Aveiro. Estava a pensar no labirinto que a minha vida foi durante estes anos todos. A minha vida, como outra qualquer.

10.14.2010

conversa 1614

Ela - Sabes mesmo qual é o meu maior problema?
Eu - Ter quarenta e dois anos e não teres filhos?
Ela - Estúpido.
Eu - Estúpido porquê?
Ela - Podias enganar-te pelo menos uma ou duas vezes...

respostas a perguntas inexistentes (108)

É o quinto fósforo que tenta acender em vão. Todos se apagam com o ligeiro sopro que se insinua timidamente pela frincha da janela da cozinha. O bico aberto do fogão vai libertando gás e por isso desliga-o. Não é que seja grave não cozinhar agora o almoço, até porque nem sequer tem fome, mas de repente toda a sua vida lhe passou à frente nos cinco fósforos cuja chama se apagou de imediato. E conta pelos dedos as mulheres que ultimamente lhe fizeram o mesmo: incendiarem-no numa noite e apagarem-no na manhã seguinte. Talvez também cinco. Não tem a certeza.
O problema é que da última ainda restam algumas cinzas que se espalham com o vento morno que lhe varre o pensamento. A falta do amor é sempre assim, como um vento morno que vai semeando a preguiça dos nossos movimentos pela casa. A embalagem de cereais está em cima do frigorífico há três dias, o lixo está por levar há três dias, a toalha da mesa tem nódoas de vinho há três dias e ainda nem sequer está na máquina. Há três dias que a vida dele abrandou de ritmo, até agora em que desistiu de almoçar por causa de cinco fósforos sem chama.
Há três dias, durante o jantar, deram as mãos quase sem querer um ao outro e depois nenhum recuou. A seguir às mãos vieram os lábios e por fim o corpo. Acabaram por fazer amor no corredor por não conseguirem esperar pelo tempo que demorava chegar ao quarto. Ele estava a precisar disso e ela também. Foi o que disseram um ao outro e é verdade: não estavam nem estão a precisar de mais nada. O estranho é mesmo isso, ele não estar a precisar de mais nada. A falta de amor é sempre assim: a falta de precisar do que quer que seja.

conversa 1613

Ela - É engraçado, nunca te vi de aliança...
Eu - Detesto anéis. Aliás, detesto todo o tipo de acrescentos que se possam fazer ao corpo.
Ela - Porquê?
Eu - Não são práticos. Não consigo usar brincos, anéis nem nada disso.
Ela - E a tua namorada o que é que pensa disso?
Eu - Acho que não pensa nada. Sinceramente nunca falei com ela sobre isso.
Ela - Bem, no fundo até tem alguma sorte.
Eu - Porquê?
Ela - Um homem de aliança torna-se mais atraente, não sei bem explicar porquê.

10.12.2010

conversa 1612

Ela - Queres vir comigo a Fátima a pé?
Eu - Não.
Ela - Não?
Eu - Claro que não. Sou ateu e não vou lá de carro, muito menos a pé.
Ela - Hum... é que eu vou mesmo. Já prometi a mim mesma.
Eu - Já prometeste a ti mesma? Vais pagar alguma promessa?
Ela - Não. É para ficar com créditos...
Eu - Créditos?
Ela - Sim, se precisar no futuro de pagar uma promessa é como se já estivesse paga.

10.11.2010

conversa 1611

Ela - Detesto homens que andam uma eternidade à volta duma mulher, como cachorrinhos abandonados, e nunca dão um passo para a levar para a cama.
Eu - Isso aconteceu-te?
Ela - Conheci um gajo no infantário da minha filha com quem saí várias vezes. Ele até é interessante mas anda à minha volta e é só conversa, só conversa, só conversa...
Eu - Às tantas só quer conversa. Não está interessado em ti para mais do que isso.
Ela - Claro que está.
Eu - Pode não estar.
Ela - Claro que está. Achas que um gajo divorciado anda a convidar uma mulher para jantar, dia sim dia não, só para conversar com ela?
Eu - Acho...
Ela - Então é parvo.

conversa 1610

Ela - O que é que é mesmo bondage?
Eu - Bondage?
Ela - Sim.
Eu - É um fetiche sexual em que um domina e outro é dominado.
Ela - Um domina e outro é dominado?
Eu - Sim. Pode envolver algemas, cordas, chicotes e assim...
Ela (faz silêncio mas cora)
Eu - Não precisas de corar.
Ela - Não é isso. Acabei de dizer a um gajo na net que gosto muito de bondage.
Eu - Mas... se nem sabias o que era porque é que disseste que gostavas?
Ela - Ele é que falou nisso primeiro e a palavra nem me pareceu assim muito má. Bondage parece bondade...
Eu - Nem sei que te diga.
Ela - Não digas nada, não digas nada...

10.08.2010

conversa 1609

Ela - Desde que me separei que tenho algumas saudades estranhas do meu ex.
Eu - Isso não é estranho, é normal. Passaste tantos anos com ele que é preciso algum tempo para a coisa normalizar.
Ela - Não é isso, normal já está. O que eu estou a dizer é que algumas saudades concretas que eu tenho dele são estranhas.
Eu - Estranhas porquê?
Ela - Porque acho que o que mais sinto falta é daquilo que me fazia implicar com ele.
Eu - Por exemplo?
Ela - Por exemplo, ele deixar as beatas dos cigarros num cinzeiro no chão da varanda durante dias. Isso irritava-me tanto...
Eu - E agora tens saudades disso?
Ela - Sim, acho eu. Não sei explicar muito bem. Acho que é mesmo só por não ter ninguém com quem implicar.

conversa 1608

Ela - O meu marido nunca diz que me ama. Não sei se...
Eu - Não sabes se quê?
Ela - Não sei se ele não o diz porque não está habituado ou simplesmente porque já não me ama mesmo.
Eu - Hum... que tal perguntar-lhe?
Ela - Isso não, senão ele começa a dizê-lo só por se sentir obrigado.
Eu - E tu, dizes-lhe que o amas?
Ela - Eu não. Mas eu não o amo mesmo, percebes?

respostas a perguntas inexistentes (107)

Admito que acho as praças de alimentação um sítio óptimo para tomar café, já que me permitem estar sozinho e acompanhado ao mesmo tempo. Quando estamos, como eu estive esta semana, quase todas as noites sozinhos, a  nossa casa começa a ser um deserto e é aí que procuramos a companhia dos que não nos acompanham de facto. Por isso mesmo me sentei um dia destes na mesa da praça de alimentação dum shopping qualquer com uma dose curta de cafeína à frente.
Retirei do bolso umas folhas brancas e uma esferográfica para ver se conseguia escrever qualquer coisa mas, à falta de ideias, fui semeando desenhos como quem atira à sorte sementes de crescimento espontâneo para a terra árida. Depois uma sombra cobriu essa aridez fazendo-me olhar para cima onde, de facto, estava o céu. Uma mulher sorriu e disse-me: - "Ainda não perdeste a mania de estar sempre a desenhar", afastando-se depois lentamente.
Era ela, uma das minhas grandes paixões do liceu e que eu já não via há mais de vinte anos. Fiquei a vê-la ir, na esperança de que ela olhasse para trás pelo menos uma vez para se despedir com o olhar. Não o fez... mas talvez o tenha feito em pensamento.

10.04.2010

conversa 1607

Ela - Este fim de semana esteve tanta chuva... detesto chuva.
Eu - Detestamos todos, acho eu.
Ela - Eu só detesto chuva desde que me separei. Sou obrigada a ficar em casa e ficar em casa sozinha é deprimente demais.
Eu - Engraçado, tenho a sensação que me disseste mais ou menos o mesmo no Verão passado.
Ela - Mais ou menos o mesmo?
Eu - Sim, que detestas o bom tempo desde que te separaste porque ir à praia sozinha é deprimente.
Ela - Ah! Se calhar disse...
Eu - Realmente há pessoas que nunca estão bem. Não gostam de chuva, não gostam de Sol...
Ela - Eu estou bem se o tempo estiver mais ou menos. Nem muito bom, nem muito mau. Aliás, quando estou sozinha quero que o mundo inteiro seja exactamente assim em tudo. Nem muito bom, nem muito mau...

10.01.2010

conversa 1606

Ela - Então?
Eu - Então o quê?
Ela - Não reparaste em nada de diferente em mim?
Eu - Hum... cortaste o cabelo...
Ela - Não.
Eu - Tens um vestido novo...
Ela - Não.
Eu - Emagreceste?
Ela - Não.
Eu - Compraste uns sapatos?
Ela - Não.
Eu - Tens uma carteira nova, uma pulseira nova, um colar novo, pintaste-te ou puseste pó de arroz... foi isso?
Ela - Não.
Eu - Então o que foi? Desisto.
Ela - És um amigo incrível. Nem sequer reparas que eu fiz uma tatuagem?
Eu - Tatuagem? Onde?
Ela - Aqui no braço.
Eu - Mas... está debaixo da camisola...
Ela - Sai um bocadinho, sai um bocadinho...

conversa 1605

Eu - Queres almoçar comigo?
Ela - Quero. Passo em tua casa para te ir buscar?
Eu - Sim, por favor.
Ela - Mas temos que ir a um sítio sem cheiro a comida, está bem?
Eu - Sem cheiro a comida?
Ela - Sim, ando numa fase em que o cheiro a cozinhados me enjoa. Não quero ir a nenhuma praça de alimentação nem a nenhum restaurante que seja muito fechado.
Eu - Tudo bem. Então vamos onde?
Ela - Escolhe tu. Estás à vontade para ir onde quiseres desde que seja com esta condição.

divorciemo-nos

A política de rabo na boca, texto que publiquei no site distrital de Aveiro do Bloco de Esquerda, é só uma visão, mais uma, de como nos podemos deixar adormecer pela política. O poder é hegemónico e determina aquilo que está certo mesmo quando está errado. E nós vamos aceitando...
O medo da mudança é tal que teimamos em preferir essa hegemonia mesmo quando ela nos esmaga todos os dias. Hoje, por exemplo, e a sério que é só mais um exemplo, o mesmo PS que votou contra a criação duma bolsa de manuais escolares para famílias pobres, decidiu também enquanto governo gastar 134 mil euros num carro para transportar individualidades. Se o governo PS formasse uma maioria absoluta, o projecto da bolsa de livros escolares não tinha passado, ou seja, uma proposta que é apoiada por uma larga maioria da sociedade tinha morrido ali.
Estou a falar nisto porque rejeito relações doentias, sejam elas do foro amoroso ou político, e acho que a relação doentia que os portugueses mantêm com o poder político PS/PSD é a mesma que muitos sentem na sua relação pseudoamorosa. Quem está mal numa ou noutra que se divorcie e comece uma vida nova. Divorciemo-nos...

9.29.2010

conversa 1604

Ela - Tenho tudo para ser feliz. Tenho uma boa casa já paga, um carro razoável, amigos, um emprego estável e que não é tão mal pago quanto isso, uma filha maravilhosa e um marido honesto e carinhoso...
Eu - E então?
Ela - Não me sinto feliz.

do outro lado do balcão

Do outro lado do balcão estavam dois homens sentados, com os olhos colados a um monitor de computador para o qual um deles ia apontando com um ar grave e sério. Desde que entrara naquela pequena agência bancária ainda nenhum deles se tinha dignado a olhar directamente para mim. Não estão a atender, pensei eu encostando-me em modo de espera num dos pontos de atendimento.
E esperei. Esperei, esperei e tornei a esperar. Esperei até que uma morena giraça de saia curta entrou no local e os mesmos dois homens se atropelaram um ao outro para a poder atender.
- Mas eu sou transparente? - Perguntei.
- Não, não é. Esta senhora também não é. A questão é precisamente essa. - respondeu o mais baixinho.

9.28.2010

conversa 1603

(no café)

Ela - Sinto-me tão sozinha...
Eu - Agora neste momento ou habitualmente?
Ela - Deixa-te de ser estúpido. Sinto-me sempre sozinha...
Eu - Como és casada pensei que podias estar a sentir-te sozinha só hoje, sei lá...
Ela - O problema é precisamente esse, sentir-me sozinha apesar de partilhar a vida com outra pessoa. Se eu estivesse mesmo sozinha não me sentiria tão sozinha, percebes?
Eu - Acho que vou pedir uma cerveja. Queres uma?
Ela - Não, não percebes...
Eu - Perceber até percebo... acho eu.
Ela - Se eu estivesse sozinha sempre tinha a expectativa de poder conhecer alguém novo e dar uma volta de cento e oitenta graus à vida, percebes?
Eu - Então... se o problema é só esse, separas-te e pronto, já está.
Ela - Sim, quero uma cerveja. Pede-me uma das grandes, por favor.
Eu - Um príncipe, pode ser?
Ela - Claro que pode, um príncipe qualquer... mas isso não é assim tão simples.
Eu - Estou a falar da cerveja. O príncipe é um fino mas maior...
Ela - Ah! Pode, pode...

conversa 1602

(na casa dela, depois dela abrir uma garrafa de vinho)

Eu - É bom, este vinho. Não conhecia.
Ela - É razoável.
Eu - Para mim é bom.
Ela - Ainda bem que achas, mas eu tenho aí vinho bem melhor.
Eu - Tens?
Ela - Tenho, só que não vou abrir uma garrafa de quinze euros por tua causa. Tu já tens namorada e esse vinho é só para engates.

conversa 1601

Ela - Estou a precisar de férias e queria falar contigo.
Eu - Diz...
Ela - Preciso que me ajudes a marcar uma viagem e uma estadia baratas...
Eu - Epá, a minha namorada é que costuma tratar disso...
Ela - Pois, as mulheres é que tratam sempre de tudo. Eu também tenho que preparar tudo para mim, para o meu marido e para o meu filho.
Eu - Vão os três? Então é melhor marcar uma casa com cozinha...
Ela - Claro que vamos os três, o que é que pensavas?
Eu - Pensava que podias eventualmente deixar o puto com uma avó e ires só com o teu marido.
Ela - Queres que o meu filho cresça sem conhecer os pais?
Eu - Eu não quero nada. Estava só a supor, mais nada. Acho que às vezes também é importante abdicar dos filhos uns dias para estar com o marido... mas isso sou eu.
Ela - Eu não acho.
Eu - Eu acho que, assim como se pode correr o risco de afastamento dos filhos se se abusar nas saídas sem eles, um homem e uma mulher também podem afastar-se um do outro por dedicarem a vida só aos putos.
Ela - Sim... mas isso não me interessa.
Eu - Não interessa?
Ela - Não. De marido pode-se trocar facilmente. De filho não.

9.27.2010

pensamentos catatónicos (219)

Um dos passos mais importantes na passagem da adolescência para a fase adulta dum homem é perceber que uma mulher, de facto, pode contribuir decisivamente para a sua felicidade. E para a infelicidade também...

conversa 1600

Ela - Opá, antes de me separar imaginava que, se um dia isso me acontecesse, a minha vida ia ser muito melhor.
Eu - E então? É pior?
Ela - Tenho ficado muito em casa a ver televisão. Não saio com amigos e amigas como sempre pensei que ia fazer.
Eu - Então faz. Amigos não te faltam para isso...
Ela - Pois... acho que primeiro vou mandar desligar a tv por cabo.

9.22.2010

respostas a perguntas inexistentes (106)

Lembro-me com alguma nostalgia do tempo em que me sentava em qualquer lado para namorar. Podia ser na beira dum passeio, num muro qualquer ou até no chão arenoso do liceu. Agora não o faço a não ser no conforto do sofá da sala e, vá lá, uma vez por outra na areia da praia ou numa relva que por acaso se encontre fofa e sem detritos caninos. O que interessa é que dantes estar perto dela era o mais importante, agora o mais importante é estar perto dela e em condições de higiene e conforto mínimas. Não é que esteja mal, mas continuo a acreditar que a adolescência é uma fase única da vida.

conversa 1599

(no café)

Ela - Tenho consciência que não sou muito feia nem muito bonita.
Eu - Eu acho que és bonita.
Ela - Também acho que de corpo não sou assim nem muito má nem muito boa. Sou mais ou menos...
Eu - Hum, hum...
Ela - Então não dizes que sou boa?
Eu - Digo, digo... se quiseres eu digo.
Ela - Oh! Agora já não conta.
Eu - Desculpa. Estou a tomar café, nem te estava a dar atenção.
Ela - Pois... é que em conversa também só sou mais ou menos, não é?
Eu - Não, não. És boa de conversa.
Ela - Não mintas.
Eu - Então faço o quê?
Ela - Cala-te!

9.21.2010

conversa 1598

Ela - Achas muito mal uma mulher ir para a cama com um homem que é o ex-marido da sua melhor amiga?
Eu - Não, não acho nada mal.
Ela - Porquê?
Eu - Sei lá porquê. Não acho e pronto.
Ela - Caraças. Precisava dum argumento...

conversa 1597

Ela - Só a partir dos trinta e poucos anos é que me apercebi do que é ter sexo a sério.
Eu - Desde que te divorciaste, queres tu dizer...
Ela - Pois.
Eu - Preferia que não me dissesses isso.
Ela - Porquê?
Eu - Sou amigo do teu ex-marido e às vezes até bebo um copo com ele...
Ela - Por isso mesmo é que te digo isto.
Eu - Por isso mesmo? Não queres que eu lhe vá dizer que tu me disseste que não gostavas dele na cama, pois não?
Ela - Querer não quero, mas podes dizer à vontade.

lista de natal. epá! as gajas não tinham dinheiro?

Nos anos 50 as mulheres tinham o trabalho facilitado para o Natal. As listas de prendas já vinham publicadas em revistas e elas só tinham que escolher, chorar um bocadinho, e o marido comprava. Claro que a lista era só coisas úteis para elas poderem diverti... hum... hum... ter a vida doméstica facilitada. Pois...

Esposas, vejam este anúncio cuidadosamente. Façam um círculo à volta dos itens que querem para o Natal. Mostrem-no aos vossos maridos. Se ele não for ao armazém imediatamente chorem um pouco. Não muito. Só um pouco. Ele vai, ele vai.
Maridos, vejam este anúncio cuidadosamente. Escolham o que as vossa mulheres querem e vão comprar. Antes que elas comecem a chorar.

9.20.2010

couscous no mercado

amanhã, dia 21 de Setembro, é noite de Couscous Prosjekt no Mercado Negro.

conversa 1596

Ela - Qual foi a coisa mais maluca que fizeste por causa duma mulher?
Eu - Não sei... sei lá.
Ela - Ora pensa bem.
Eu - Talvez ter trepado a um segundo andar pelas varandas dum prédio quando era puto.
Ela - Fizeste isso?
Eu - Sim, uma vez. E tu? Qual foi a coisa mais maluca que fizeste por causa dum homem?
Ela - Bem... agora que falas nisso talvez tenha sido deixar que um gajo trepasse à minha janela pelo exterior do prédio.
Eu - O quê? Isso aconteceu-te mesmo?
Ela - Aconteceu... mas eu vivia num rés do chão.
Eu - Ah! Isso é fácil.
Ela - Pois é. Eu devia era ter obrigado o gajo a trepar dois ou três andares na casa duma vizinha...
Eu - Devias? Para quê?
Ela - Quando somos miúdas dá-nos gozo ver os rapazes perdidos a fazer essas figurinhas para nos impressionar.
Eu - Sim, esta conversa é a prova de que são os homens que andam sempre atrás das mulheres e não contrário.
Ela - Isso é verdade mas só até aos trinta anos.
Eu - Só até aos trinta?
Ela - Sim... aos trinta começamos a querer ter filhos.

os que não o estão...

É quando estou apaixonado que reparo mais facilmente nas pessoas que não o estão. Eu, porque estou apaixonado, não tiro os olhos da praia que corre do lado de lá da janela do comboio, como se ela me estivesse a convidar para ir lá com por quem me apaixonei; quem não está apaixonado viaja sempre a olhar para o chão ou a desviar o seu olhar do dos outros. Eu, porque estou apaixonado, bebo o copo de vinho ao almoço em suaves e prolongados goles, daqueles que acabam com um doce lamber dos lábios e um "ah!" saído do interior do peito; quem não está apaixonado bebe-o sem lhe perceber o aroma.
É quando estou apaixonado que reparo mais facilmente nas pessoas que não o estão, e é então que reparo que quase ninguém o está. Hoje de manhã as pessoas foram ocupando os bancos do comboio um a um, preferindo sempre os lugares mais vazios e distantes dos que já estavam ocupados. Ao almoço, depois de terminado o processo de mastigação, fiquei a saborear o que sobrava do vinho e do tempo entre mesas já abandonadas com copos deixados a meio. É como se todos se evitassem uns aos outros constantemente e não tivessem tempo para viver. Só para sobreviver.
É quando estou apaixonado que reparo mais facilmente nas pessoas que não o estão. Acabei o vinho a perceber que a diferença entre estar e não estar apaixonado é a mesma que distingue a vivência e a sobrevivência. Nada de novo, a não ser o facto de perceber que sobrevivi a isso...

9.19.2010

conversa 1595

Ela - Estou tão cansada. Não dormi nada esta noite.
Eu - Insónias?
Ela - Dormi com um gajo, um engate de ontem, que deixa a janela toda aberta. Logo de madrugada acordei com a luz do Sol a entrar no quarto. Eu só consigo dormir com tudo escuro...
Eu - E porque é que não fechaste a janela?
Ela - Ele estava a ressonar tão alto que achei melhor levantar-me de fininho, vestir-me e vir embora tomar café. Também não consigo dormir com barulho...
Eu (risos) - Então... e vieste embora assim? Quando ele acordar e não te vir pode ficar confuso.
Ela - Não. Eu avisei a mãe dele que ia embora porque não estava a conseguir dormir.
Eu - Espera aí. Desculpa lá a curiosidade, mas foste dormir a casa de um engate fortuito e a mãe dele estava lá?
Ela - Sim... um gajo com quase quarenta anos que deixa a janela aberta durante a noite, ainda vive com a mãe e ressona alto não pode ser grande coisa.
Eu (mais risos)
Ela - Agora só quero esquecer este fim de semana e ver se não encontro o gajo por aí nos próximos dias.
Eu - Eu acho que ele te vai telefonar mal acorde.
Ela - Não... o número de telefone que lhe dei é falso.

9.17.2010

conversa 1594

Ela - Preciso de um homem para ir ao cinema comigo este fim de semana.
Eu - Eu até posso ir. Qual é o filme?
Ela - Ainda não sei. Sei que o meu ex vai ao cinema com a namorada dele e eu quero aparecer lá de braço dado a um gajo qualquer.
Eu - O teu ex conhece-me e sabe que tu não és minha namorada.
Ela - Tens razão, não serves. Tens algum amigo que me possa ajudar?
Eu - Mas... tu estás bem? A ti basta-te estalar os dedos e de certeza que tens muitos homens para ir contigo ao cinema, jantar contigo ou o que te apetecer.
Ela - Mas isso não quero. Quero um gajo que vá comigo e depois não me chateie mais.
Eu - Ahn?
Ela - Não quero que o meu ex pense que eu não consigo arranjar nenhum homem para companhia. Ao mesmo tempo estou numa fase em que prefiro não ser incomodada por nenhum ser que tenha o órgão sexual no lugar do cérebro...

conversa 1593

Ela - Tens uns óculos novos?
Eu - Tenho. Como é que reparaste? São tão parecidos com os outros...
Ela - Estão limpos.

9.16.2010

couscous depois do jantar

Hoje à noite há Couscous no Clandestino bar em Aveiro, a partir das onze da noite, mais coisa menos coisa...

conversa 1592

Ela - Finalmente consegui que o meu marido faça alguma coisa lá em casa.
Eu - Conseguiste o quê?
Ela - Que o meu marido ajude um pouco nas tarefas domésticas lá em casa.
Eu - Ah! E como?
Ela - Dou-lhe as meias e cuecas para dobrar no princípio de um jogo de futebol e ele dobra tudo enquanto o vê na televisão.
Eu (risos) - Só o deixas ver o jogo na televisão se ele fizer isso, é?
Ela - Não... mas se o fizer prometo que o deixo em paz e nem sequer entro na sala.

conversa 1591

Ela - Ainda tens aquele livro que eu te emprestei?
Eu - Qual livro? Não me lembro de me teres emprestado nenhum livro...
Ela - Ok, era só para saber.
Eu - Só para saber o quê?
Ela - Se tinhas algum livro meu em tua casa. É que empresto tantos livros que já nem sei onde está a maior parte deles.
Eu - Podias ter perguntado directamente se eu tinha ou não algum livro teu.
Ela - Pois podia, mas aí tu ficavas a saber que eu não tinha a certeza se te tinha ou não emprestado algum.
Eu - E não confias em mim?
Ela - Não tem a ver com confiança. É uma questão de método.

9.13.2010

voar pela primeira vez

A minha filha faz anos hoje e nunca voou. Para festejar a data vou voar com ela pela primeira vez até Madrid e volto um dia depois. Não sei porquê mas apeteceu-me dizer isto, talvez por gostar da expressão "voar com a minha filha pela primeira vez". Só isso. E de repente acho que Madrid esteve ali sempre à espera deste dia.
Esta sensação de que uma imensidão esperou por nós uma eternidade é dum profundo egoísmo, admito, e acho que é por isso que só acontece em casos de amor.

conversa 1590

Ela - Ando tão ansiosa.
Eu - Andas?
Ela - Sim. É como se estivesse à espera que alguma coisa acontecesse na minha vida.
Eu - Alguma coisa? Mas o quê?
Ela - Não sei. Ainda não aconteceu.
Eu - Estás a gozar?
Ela - Não, deixa lá. Isto é mais uma das coisas que os homens não percebem.
Eu - Os homens não percebem a ansiedade duma mulher que está à espera duma coisa que não sabe o que é... muito bem...
Ela - Não sabe o que é mas sabe que vai acontecer.
Eu - Estou curioso. Quando acontecer diz-me para ver se eu percebo.
Ela - Está bem. Se puder dizer...
Eu (silêncio)
Ela - Mas escusas de olhar para o relógio. Não vai acontecer hoje.

conversa 1589

(ao telefone durante a noite)

Ela - Como é que estás?
Eu - Bem... mas com dificuldades em dormir.
Ela - Insónia?
Eu - Não é bem... é mais por tua causa.
Ela - Por minha causa? Mas eu estou na minha casa e tu na tua.
Eu - Exacto.

respostas a perguntas inexistentes (105)

alfinetes

Há poucas histórias sóbrias sobre o Amor que me interessem. Acho que as boas histórias sobre Amor são sempre histórias embriagadas. A mesma coisa se passa com o álcool. Há poucas bebedeiras que me interessem se não estiver apaixonado. Talvez os estados de ébrio e de apaixonado sejam mesmo semelhantes.
O Amor, no entanto, está muito longe de ser um gajo porreiro que bebe uns copos e conta histórias. Sabe quem já se apaixonou por uma mulher que não se apaixonou por ele. Sei-o eu, sabemo-lo todos. Aliás, a maior parte das conversas que tive com esse gajo foram tristes, acho eu, em frente a um mapa cheio de alfinetes.
É que também sei que as mulheres por quem me apaixonei e que nunca se apaixonaram por mim se foram transformando em alfinetes espetados num mapa, como aqueles que indicam os lugares que nunca visitámos mas queríamos visitar um dia.
Hoje por acaso tive uma conversa feliz com ele. É que o mapa só tem um alfinete e eu já o visitei. Acho que ele queria falar mais, mas eu disse-lhe que há poucas histórias sóbrias sobre o Amor que me interessem...

9.12.2010

conversa 1588

Ela - Há pessoas que detesto mesmo sem as conhecer de lado nenhum.
Eu - Não te preocupes. Isso é mais normal do que possas pensar...
Ela - É?
Eu - É. Pelo menos eu acho que sim.
Ela - Que tipo de pessoas detestas tu?
Eu - Sei lá... olha, por exemplo, pessoas racistas detesto de certeza.
Ela - Eu detesto as pessoas que me detestam a mim.

9.11.2010

conversa 1587

Ela - Lembras-te daquele rapaz de quem te falei?
Eu - Aquele com quem saíste algumas vezes?
Ela - Sim.
Eu - Lembro.
Ela - Esquece. Já não vai dar nada com ele.
Eu - Fiquei com a impressão que até estavas a gostar dele...
Ela - E estava... mas... na hora da verdade não gostei e desisti.
Eu - Na hora da verdade? Mas quê? O sexo correu mal? Isso às vezes corre mal a primeira ou a segunda vez mas depois vai melhorando...
Ela - Qual sexo qual quê? A hora da verdade foi o restaurante que o gajo escolheu para me levar a jantar fora a primeira vez. Que restaurante de merda.

pensamentos catatónicos (218)

As mulheres são boas

Estou perfeitamente convencido que por norma as mulheres são boas. Boas pessoas, quero eu dizer. Preocupam-se com o bem estar dos outros como nenhum homem o faz. Talvez isso tenha, de facto, a ver com questões biológicas ou talvez não. Sei lá. Sei que não é por acaso que elas deixam os homens convencerem-se que mandam nisto tudo e que o modelo social em que vivemos é masculino. É por serem boas. Os homens não mandam nada e só se apercebem disso quando se apaixonam. Mas mesmo quando um homem se apaixona por uma mulher, ela deixa-o convencer-se que ele manda em tudo. Em tudo menos nela, e que essa excepção se deve à grande força da natureza que é o Amor.

respostas a perguntas inexistentes (104)

A dança dos machos

Há uma relação directa entre o mundo do amor nas aves e na nossa espécie. Percebi isso ontem enquanto bebia uma cerveja num bar em Aveiro onde outra mesa era ocupada por uma mulher também sozinha. Uma mulher sozinha num bar nunca é uma coisa qualquer, é uma ilha para onde alguns homens querem navegar mas não têm permissão para aportar. Por isso pedem-na, e pedem-na da mesma forma que uma ave macho qualquer o faz para conseguir acasalar, ou seja, realizando performances pouco discretas para chamar a atenção.
Um grupo de homens entrou na sala e começou imediatamente a dança do acasalamento. Todos pediram cerveja, o que para além de mostrar alguma maturidade ajuda a ganhar alguma coragem. Imediatamente subiram o tom da voz, entrando numa conversa em que todos falavam sem se ouvirem uns aos outros. Mas eu (e já agora o bar inteiro) ouvia tudo. Fiquei a saber que estavam todos disponíveis, que todos tinham uma vida agitada e interessante, ou porque um praticava desporto ou porque o outro andava a ser perseguido no emprego por ser o melhor naquilo que faz.
As aves macho fazem mais ou menos o mesmo: abrem as asas e erguem o rabo em redor da fêmea enquanto cantam. Esta fêmea não lhes ligou nada e saiu depois da bebida. Eles baixaram todos o nível de intensidade vocal e eu lá pude escrever o que acontecera num bloquinho para não me esquecer. Depois também saí. Nenhuma fêmea me ligou nada durante a noite inteira.

9.10.2010

conversa 1586

Ela - Às vezes acho que é mais difícil de suportar o ciúme dum amigo do que o ciúme de um ex-namorado.
Eu - Não percebi.
Ela - Para mim, se um amigo meu deixa de me telefonar com regularidade porque arranjou uma namorada é pior do que ver o meu ex-namorado com uma namorada nova.
Eu - Ah! Porquê?
Ela - Porque a um amigo não consigo desejar mal, a um ex-namorado normalmente só quero é que a vida lhe corra mal.

pensamentos catatónicos (217)

Acho que o mais difícil de compreender numa mulher, ou seja, em todas as mulheres que tive o prazer de conhecer intimamente até hoje, é o síndrome da inexplicável e repentina alteração de humor.

9.09.2010

ausência

Este blogue esteve um pouco parado esta semana por motivos pessoais, ou seja, a administração do meu local de trabalho/executivo PSD da Câmara Municipal de Espinho deixou de me pagar o salário sem explicar nada a ninguém nem dar satisfações. Como devem percebem facilmente, trabalhar e não receber tem implicações directas no dia-a-dia de qualquer pessoa, para além da óbvia falta de respeito por mim que o facto demonstra, tive que me mexer para conseguir pagar algumas das minhas obrigações mensais. Daí a minha ausência. Era só para vos explicar...

conversa 1585

Ela - Convidei um amigo meu para o meu aniversário, ele agradeceu e disse-me que ia pedir permissão à mulher para aparecer. Acreditas nisto?
Eu - Acreditar, acredito...
Ela - Mais uma relação em que a mulher é que manda.
Eu - Sim... pelo menos parece. Mas também parece que ele aceita bem isso.
Ela - Aceita mais ou menos. Depois admitiu que até prefere que ela não o deixe.
Eu - Que não o deixe? Porquê?
Ela - Porque se ela não deixar vir ao meu aniversário depois não tem coragem para não o deixar ir ao futebol no fim de semana.

9.03.2010

conversa 1584

Ela - Estou farta daqueles beijos entre marido e mulher em que os só os lábios é que se tocam...
Eu (risos) - Estás? São assim tão maus?
Ela - Não é que sejam maus, pá, mas quando me casei pensei que ia ter beijos de língua todos os dias.
Eu - Pois... com o tempo os beijos de língua vão-se transformando em beijos mornos, sim...
Ela - E eu que tive tanto cuidado para escolher um marido que lavasse bem os dentes.

bacalhau à brás

Esta semana tive muito pouco tempo para vir até aqui, o que na verdade me deixa com uma pedrinha na alma. Hoje, pelo menos, poderão ler a última crónica de engate, crónicas de engate essas que a partir de agora serão publicadas no site amulher.com. Hoje saiu a primeira e chama-se Bacalhau à Brás.

9.02.2010

conversa 1583

(no café)

Ela - Caraças, pus açúcar no café.
Eu - E depois?
Ela - Decidi que não bebo mais café com açúcar. Estou a ficar muito gorda.
Eu - Fazes bem.
Ela - Faço bem?! Estás a dizer que estou gorda?
Eu - Não, estou só a dizer que fazes bem. Toda a gente sabe que se deve controlar o consumo de açúcar.
Ela - Hum...
Eu - E desde quando é que tomas o café sem açúcar?
Ela - Na verdade esta ia ser a primeira vez.

9.01.2010

conversa 1582

Ela - Já alguma tiveste a sensação de que uma relação pode não funcionar apesar dos envolvidos gostarem muito um do outro?
Eu - Hum... já, já tive.
Ela - É a sensação que eu ando a ter agora. Passo a vida a discutir com o meu marido apesar de gostar muito dele e acho que não aguento mais...
Eu - Às vezes essa sensação é temporária. Há fases melhores e fases piores em todas as relações.
Ela - O pior é que eu estou nesta fase desde que me casei.
Eu - Desde que casaste?
Ela - Bem... desde o dia seguinte ao casamento. Nesse dia discutimos logo no Hotel onde passámos a noite de núpcias por causa de qualquer coisa que já nem me lembro.
Eu - Há quanto tempo casaste?
Ela - Há dez anos.

8.27.2010

azul/vermelho

E sobre mulheres que amamos sem conhecer, a simpática Ana, dona do café, atribuiu-me um prémio à mesa do mesmo. A mulher que eu amava vestia-se sempre de vermelho menos nos dias em que eu a via, em que se vestia de azul...

conversa 1581

Eu – Lembras-te de mim no liceu?
Ela – No liceu?
Eu – Sim, no liceu. Eu estava completamente apaixonado por ti e sempre todo corado a mandar-te olhares...
Ela – Até termos sido apresentados hoje nunca tinha visto a tua cara.

respostas a perguntas inexistentes (103)

Passei a acreditar que o Amor é sempre uma coincidência. Aliás, convenci-me que o mundo se faz exclusivamente de coincidências para que o Amor seja sempre uma. É-nos agradável pensar na sorte que tivemos em encontrar alguém, e escusamos de pensar que se não fosse essa a dar-se seria outra qualquer. É por isso que quando vivemos um amor o mundo é o primeiro a quem nos lembramos de agradecer. E agradecemos-lhe sempre, nem que seja pelo simples facto de o percorrermos com um ar feliz.
O problema das coincidências é terem a mania que se fazem sozinhas e que depois vêm ter connosco. Não vêm. Somos nós os pais e as mães de todas as coincidências que se passam à face da Terra e temos que fazer por elas.

conversa 1580

Ela – Não percebo o motivo... alguns homens agem como se estivessem apaixonados por nós, levam-nos a acreditar que temos algum futuro juntos e depois, de repente, desaparecem...
Eu – Hum... para ser sincero já fiz isso e já me fizeram isso. Não acho que seja uma questão de género.
Ela – Eu nunca fiz isso a ninguém e não percebo por que motivo se faz.
Eu – Acho que às vezes é uma incerteza, só. Não se tem a certeza se se quer dar o segundo passo, mas para saber se se quer ou não há que dar o primeiro. Percebes?
Ela – Percebo que isso é uma desculpa de mau pagador para um gajo que mente a uma mulher quando diz que a ama.

8.26.2010

conversa 1579

Ela - O meu problema com os homens passa pelas fotografias.
Eu - Que fotografias?
Ela - As fotografias deles.
Eu - Não percebo...
Ela - Já dei por mim várias vezes, depois de começar a namorar com um homem, a olhar para a fotografia dele e a pensar: "Eu não gosto deste gajo".

8.24.2010

vinte

Lembrei-me hoje que o índice ívariano, que reflecte o meu estado emocional e amoroso, está no 20 desde Dezembro de 2008.

como ele e ela cozinham arroz de legumes...

ele:
1] Corta a cebola, o alho e os legumes todos colocando-os em recipientes diferentes pela ordem com que os vais usar.
2] Coloca num copo o arroz que vai usar e enche dois copos iguais com água.
3] Enche o fundo do tacho com azeite e frita um pouco o arroz com a cebola e o alho.
4] Põe os legumes no tacho, um a um, e faz o refogado.
5] Despeja os dois copos de água, deixa ferver.
6] Tempera a gosto.

ela:
1] Enche o fundo do tacho com azeite e põe ao lume.
2] Atira com todos os legumes para cima da banca enquanto telefona à melhor amiga para contar que o ex-namorado dela se vai casar com uma gaja feiosa.
3] Procura o tacho no armário outra vez porque entretanto se esqueceu que ele já está ao lume.
4] Como o azeite já está quentíssimo corta a cebola e o alho à pressa e corta-se num dedo. Põe lá dentro o que conseguiu cortar e algumas gotas de sangue.
5] Vai à casa de banho procurar um penso rápido, aproveita e traz a "Dica da Semana" que estava junto da sanita para ler enquanto cozinha.
6] Repara que ainda tem o telefone no ouvido apesar de já ter acabado telefonema no ponto 2.
7] Desliga o fogão para ter tempo de cortar os legumes.
8] Põe os legumes na panela mais algumas gostas de sangue e diz duas asneiras por se ter esquecido de pôr o penso rápido no dedo.
9] Despeja água a olho e acende o lume.
10] Tempera a gosto.

conversa 1578

Ela - É incrível como uma mulher muda com a vida.
Eu - Então?
Ela - Quando eu era novinha sentia-me muito mais atraída pelos rapazes que não gostavam de mim do que pelos que demonstravam interesse.
Eu - Era?
Ela - Sim...
Eu - Ok...
Ela - Agora, a única coisa que me interessa num homem é que ele goste de mim.

respostas a perguntas inexistentes (102)

As pessoas que marcam lugar têm uma grande probabilidade de falhar no Amor. Hoje estive algum tempo sentado na praça da alimentação dum shopping do grande Porto e vi uma mulher atirar-se desalmadamente para uma das poucas mesas disponíveis. Depois tirou o casaco e cobriu-a com ele antes de ir para uma slow fila duma casa de fast food. Quando voltou trazia a comida e o marido, com quem passou o jantar a discutir por ele se ter atrasado numa loja qualquer. Fez-de de vítima e de heroína, por ter conseguido arranjar aquela mesa.
O Amor não marca lugar. Procura-o quando já tem o tabuleiro na mão mesmo que demore mais a encontrá-lo. Aliás, procura-o quando já tem o tabuleiro na mão precisamente para que demore mais a encontrá-lo. É que o corpo alimenta-se do que está no tabuleiro e o Amor alimenta-se dessa procura, dos olhares que nela se cruzam, dos ombros que nela se tangem, dos cheiros que nela se misturam. O Amor é só uma probabilidade, não é uma marcação.
Marcar um lugar desta forma é virarmo-nos de frente para esse pequeno lugar e de costas para o grande resto do mundo inteiro, ainda por cima para comer uma dose de batatas fritas e um hambúrguer com queijo...

8.23.2010

conversa 1577

Eu - Olá! (dou-lhe um abraço)
Ela - Ai! Detesto homens que quando me abraçam parece que me querem partir os ossos.
Eu - Epá... desculpa. Aleijei-te?
Ela - Não faz mal... mas lembra-me de nunca ir para a cama contigo.

conversa 1576

Ela - O que mais me irrita nas mulheres é a facilidade com que se metem com um homem casado.
Eu - Achas que isso é verdade?
Ela - Acho. As colegas de trabalho do meu marido irritam-me tanto, sempre com olhinhos e sorrisinhos...
Eu - Ah! Estás só com ciúmes.
Ela - Pois estou. Os homens não se metem com mulheres casadas assim com a mesma facilidade.
Eu - Sabes lá.
Ela - Sei, sei. Sou mulher.

pensamentos catatónicos (216)

O problema do amor é vir com a idade. A idade estraga sempre tudo porque nos faz pensar na morte. Não na morte como uma tragédia iminente mas pelo menos como uma inevitabilidade. É por causa desse fim que achamos que está sempre qualquer coisa mal. Se fossemos eternos não havia problema nenhum porque podíamos tentar sempre outra vez até que o Amor saísse perfeito. Só que não podemos, por isso é que as vicissitudes do Amor nos irritam tanto.

8.20.2010

respostas a perguntas inexistentes (101)

Houve um dia em que adormeci na toalha. Acordei com a Raquel a afastar-se para ir tomar café numa das esplanadas da praia e fiquei a vê-la a desenhar na areia pegadas mudas. É estranho como a repentina ausência de quem gostamos nos acorda e a sua presença nos embala num sono leve. Sempre em silêncio.

blandícia

Precisava da tua blandícia agora!

conversa 1575

Ela - Eu já desisti de amar alguém há muito tempo.
Eu - Desististe de quê?
Ela - De amar alguém.
Eu - Mas porquê?
Ela - Desculpa se te digo isto assim, mas os homens são uns incapazes no amor.
Eu - Lá vem essa conversa.
Ela - Não é conversa nenhuma. Não acredito no amor e estou muito bem sozinha. Aliás, estou muito bem assim há mais de cinco anos.
Eu - Há mais de cinco anos?!
Ela - Sim.
Eu - Isso é muito.
Ela - Tem passado a correr.
Eu - E como é que?...
Ela - Como é que o quê?
Eu - Como é que é a vida sexual duma pessoa que desiste de amar?
Ela - Estás a ver? A tua primeira pergunta tinha que ser essa. É o que eu digo, os homens são uns incapazes de amar.

conversa 1574

(no automóvel dela)

Eu - Está calor, apetece-me mesmo uma cervejinha. Paramos aí num café qualquer?
Ela - Eu estou a conduzir, não posso beber.
Eu - Se for só uma podes.
Ela - Quando conduzo não bebo nada.
Eu - Então bebe uma cerveja sem álcool.
Ela - Não gosto.
Eu - Então não bebes nada, pronto. Bebo só eu.
Ela - Não queria mais nada. Tu a beber uma cervejinha e eu a ver...
Eu - Qual é o problema?
Ela - O problema é que eu não posso beber porque estou a conduzir para nos levar aos dois até Aveiro, logo não é justo que tu bebas uma cerveja e eu não.
Eu - E o que é fazemos?
Ela - Aguentas até Aveiro e lá já posso beber também.
Eu - Mas... ainda faltam mais de cinquenta quilómetros.
Ela - Não me pressiones.

8.17.2010

conversa 1573

Ela - Depois do último namorado que tive nunca mais quero passar pelo mesmo pesadelo.
Eu - Foi assim tão mau?
Ela - Foi. A partir de agora, sempre que me aparecer um potencial candidato a namorado faço logo um teste na primeira noite.
Eu- Que teste?
Ela - Vejo-lhe as cuecas.
Eu - Vês-lhe as cuecas?
Ela - Sim, para ficar a saber se ele sabe limpar o rabo quando vai à casa de banho.
Eu - Estás a brincar.
Ela - Não estou não. A maior parte dos homens não limpa bem o rabo depois de ir à casa de banho.

8.11.2010

camping

Disse adeus ao Algarve e deixei-me de hotéis. Agora ando em parques de campismo onde, por razões óbvias, o acesso à net é muito mais raro e difícil. Se tiver oportunidade passarei por aqui, senão... até segunda. :)

8.06.2010

conversa 1572

Ela - Estive a pensar na minha vida.
Eu - Estiveste?
Ela - Sim, estou feliz no meu casamento mas nem sei se o mantenha ou se o termine.
Eu - Se estás feliz... não percebo a dúvida.
Ela - É que se calhar só estou feliz porque nunca experimentei outro.

conversas 1571

(ao telefone)

Ela - Então, estás bem?
Eu - Estou. Acabei agora de almoçar num restaurante com vista para o mar, por isso não podia estar melhor.
Ela - Não me consegues fazer inveja, eu hoje nem posso almoçar.
Eu - Não podes almoçar?
Ela - Não.
Eu - Mas porquê? Está tudo bem?
Ela - Ontem à noite fiz um chá.
Eu - E depois?
Ela - Depois comi um pacote inteiro de bolachas.

8.05.2010

pensamentos catatónicos (215)

O divórcio é contagioso, diz um estudo norte-americano, ou seja, assistir ao divórcio de amigos aumenta em 75 por cento a probabilidade de o casal se separar.
Um passarinho engaiolado vê outro passarinho a voar em liberdade e... também quer.

conversa 1570

Ela - Dói-me a cabeça.
Eu - Toma um comprimido.
Ela - Não tenho.
Eu - Eu também não tenho...
Ela - Estou tramada.
Eu - Aguenta um pouco...
Ela - Não é fácil aguentar.
Eu - E queres que eu faça o quê?
Ela - Que fiques também com dor de cabeça.

8.04.2010

coisas que fascinam (109)

o voo da abelha

Lá dentro o meu pai falava com outros adultos sempre com ar sério e grave, normalmente em grupos de dois ou três. Era muito raro vê-lo num grupo maior e quando o via reparava sempre que ele se limitava a ouvir. Nunca falava. Acho que herdei essa característica dele, a de gostar de conversar com poucas pessoas ao mesmo tempo. Talvez como eu, ele sentisse que nas conversas com muitos interlocutores as nossas palavras percam força por baterem nas palavras dos outros, e que por isso acabamos por não falar com ninguém apesar de estarmos a falar com muitas pessoas.
Cá fora os filhos dos adultos brincavam, sempre com um ar despreocupado de quem não tem que pensar em pôr comida na mesa no dia seguinte. Também aí eu recusava os grupos numerosos. Não jogava à bola no maior grupo de rapazes que por ali andava, não gostava de jogar às escondidas nem à apanhada e por isso nem sequer conhecia muito bem a maior parte das crianças que o fazia. E foi assim que conheci a Alice, sozinha num baloiço.
A Alice era morena e tinha um vestido branco com bolas grandes vermelhas. Vi-a sentada no baloiço e uma abelha a orbita-la. Cuidado com a abelha, disse-lhe eu tentando mostrar um ar sério igual ao do meu pai. A abelha não te faz mal se te sentares aqui e não lhe fizeres mal, respondeu ela. Sentei-me no baloiço ao lado dela e logo a seguir apaixonei-me. Não pensei mais na abelha.
Passámos ali a tarde quase sem palavras. Apenas baloiçando entre as marcas quase indeléveis que os pés dela deixavam na areia e os cabelos dançantes ao som do vento. Depois os adultos começaram a sair cá para fora despedindo-se com apertos de mão firmes e o pai dela também se despediu do meu. É o teu filho? Perguntou ele. É a tua filha filha? Perguntou o meu pai. E ambos concordaram com a cabeça. Depois afastaram-se desejando boa sorte um ao outro. Nunca mais a vi.
Hoje, mais de trinta anos depois, lembrei-me deste dia enquanto uma abelha voava à minha volta, estava eu sentado num baloiço de criança a descansar. Talvez o vento e as marcas deixadas no chão pela minha companheira fossem os mesmos, ou nem por isso. Mas percebi que nós não somos apenas nós para quem nos ama. Somos também aquilo que lhe proporcionamos, seja um cabelo ao vento ou o voo duma abelha, e às vezes é isso que fica na nossa memória.
Sejam felizes.

respostas a perguntas inexistentes (100)

No Verão e de férias é possível perceber que algumas das pequenas chatices que temos com a pessoa que partilha a nossa vida se devem essencialmente ao stress do dia-a-dia. É por isso altura de pensarmos que podemos melhorar um bocadinho esse aspecto.

8.03.2010

allgarve

Lembro-me de em criança passar férias no Algarve com os meus pais. Agora sou eu que, com a minha companheira, trago os putos todos os anos ao Algarve. Tenho a certeza que eles também não se esquecerão destes dias.

Entre uma piscina fenomenal e uma praia ainda melhor, a sério que não me importava nada de viver aqui, entre Lagos, Alvor e Portimão. 
Isto tudo para explicar porque é que tenho vindo menos aqui...