O Amor das compras não é igual ao Amor per si.
Quando duas pessoas que se amam vão juntas às compras o Amor costuma ficar à porta do estabelecimento comercial, seja ele uma loja chinesa, um hipermercado ou um pronto-a-vestir. Penso sempre que ele foi tomar café e que depois nos tornamos a encontrar lá fora. É um processo de sobrevivência, este. Custa-me acreditar simplesmente que ele não entra na loja por medo. Mas se calhar é verdade...
No entanto há vários motivos para que o Amor tenha medo de entrar numa loja. É na loja que as diferenças entre ele e e ela se acentuam e é na loja que ele e ela percebem mais vezes que não foram feitos uma para o outro. Basta ele querer iogurtes cremosos de morango e ela iogurtes gregos com passas. Ele coloca oito iogurtes dos dele no carro e depois ela coloca oito iogurtes dos dela. O carrinho de compras passa a ser uma espécie de campo de batalha e ainda estamos no início das hostilidades.
O problema agudiza-se quando se quer comprar uma inutilidade, ou seja, uma coisa que não serve para nada mas que se quer muito ter vá lá o Diabo saber porquê. O outro manda sempre a boca que aquilo é gastar dinheiro em vão. E tem razão. Tem razão mas não perde pela demora, porque querer comprar uma coisa inútil calha a todos.
No fundo é como se o Amor fosse um sentimento a dividir sempre por dois e as compras fossem um sentimento a dividir por um, com a agravante que ninguém assume que ir às compras é um sentimento. E no fundo é este conflito de sentimentos que leva ao pé de guerra na passadeira rolante. Os soldados, perdão, os amantes chegam ali com os nervos à flor da pele. Ninguém se entende quanto à forma como se deve dispor as compras. Ele gosta que vá tudo direitinho como se as embalagens fossem as ruas e os edifícios duma cidade, ela irrita-se porque quer os ovos e os tomates por cima e a caixa de bolachas por baixo.
Eu cá não sei. Os tomates nunca me pareceram um bom telhado para bolachas de chocolate. Quando muito poderiam ser uma escultura ao lado da garrafa de vinho que até parece a Torre Eiffel. Por isso é que espero que o Amor esteja ali a tomar café já na esquina e não tenha ido dar uma volta maior.