conversa 1569
Ela - Às vezes imagino-te na cama.
Eu - O quê?
Ela - Imagino muitas vezes como tu és na cama.
Eu - Ena... e ao menos sou bom?
Ela - Não sei, estás sempre a dormir.
Ela - Às vezes imagino-te na cama.
Eu - O quê?
Ela - Imagino muitas vezes como tu és na cama.
Eu - Ena... e ao menos sou bom?
Ela - Não sei, estás sempre a dormir.
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Eu - Bebemos uma cerveja hoje?
Ela - Estou triste. Não me apetece sair.
Eu - Então, o que é que se passa?
Ela - É um desgosto amoroso.
Eu - Então anda lá, talvez te faça bem beber um copo.
Ela - Não me apetece. Ainda me ponho a chorar, se bebo um copo...
Eu - Se calhar fazia-te bem...
Ela - Não faz bem nenhum. Apetece-me estar sozinha.
Eu - Pronto, tudo bem. Até à próxima.
Ela - Mas telefona-me daqui a dez minutos outra vez. Pode ser que entretanto mude de ideias.
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o Amor dos Velhos.
Quando eu era pequeno pensava que todos os velhos apaixonados só se tinham apaixonado uma vez. Para mim as pessoas apaixonavam-se, namoravam, casavam e viviam felizes uma com a outra até à morte. Aliás, nenhum casal de velhos se tinha apaixonado tardiamente mas sim ainda em tenra idade, e era desde aí que a vida de duas pessoas apaixonadas se desenhava em conjunto.
Talvez eu achasse isso porque o primeiro Amor da nossa vida, aquele de criança, seja tão forte que não pomos a hipótese de vir a ter outro igual. Mas acabamos por ter, igual e diferente. Durante a vida até nos chegamos a contentar com amores mais ou menos, que são aqueles amores que temos mas a que passamos os dias a dizer nim. Nem sim nem não, até ao dia em que inevitavelmente dizemos um grande não.
Esta nova forma probabilística de encarar o Amor decepcionou-me durante algum tempo. Decepcionou-me porque o Amor deixou de ser aquela coisa mágica para uma vida toda e passou a ser suave. Algo que vai e vem quando lhe apetece, às vezes com mais intensidade, outras vezes com menos, mas sempre suave.
Salvou-me dessa decepção total precisamente o Amor dos Velhos. Afinal todos os velhos que eu via na rua de mão dada já se tinham apaixonado milhentas vezes por outras pessoas, e isso fazia com que o Amor pudesse ser uma escolha de todos esses amores.
Passei então a viver bem com amores efémeros, convencido que mais tarde ou mais cedo me apareceria um que pudesse envelhecer comigo. Seria a escolha... e acho que já apareceu.
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Ele - Vejo os meus amigos quase todos a ir de férias com as mulheres e com as namoradas e começo a sentir-me um bicho.
Eu - Porquê?
Ele - Porque é mais um ano que eu vou de férias com mais dois ou três divorciados.
Eu - Pode ser giro. Enquanto estive divorciado também fiz férias com amigos e gostei.
Ele - O que é que três ou quatro divorciados fazem de férias? Sentam-se numa esplanada, bebem cerveja o dia todo e falam de gajas. É ou não é?
Eu - Não é bem assim.
Ele - Ora pensa bem. Não te esqueças que também fizeste férias comigo.
Eu - Não falávamos só de gajas. Também falávamos de futebol.
Ele - Pois...
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(numa esplanada na praia)
Eu - Adoro o Verão.
Ela - Porquê?
Eu - Tantas mulheres bonitas de biquíni fazem-me bem à alma.
Ela - Eu detesto o Verão.
Eu - Porquê?
Ela - Tantas mulheres bonitas de biquíni fazem-me mal à alma.
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(ao telefone)
Ela - Parabéns.
Eu - Obrigado por te lembrares.
Ela - Não me lembrei. Vi no Facebook.
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Acho que não há nenhum homem que, pelo menos uma vez na vida, não se tenha sentado esgotado num sofá e dito para si mesmo qualquer como "nunca mais quero saber de gajas". Eu já o fiz e mais do que uma vez, completamente convencido que nunca mais me ia chatear na vida por causa duma mulher que fosse. Enganei-me sempre.
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Ela - Tens saído muito com o meu namorado?
Eu - Algumas vezes. De vez em quando bebemos um copo.
Ela - E são só vocês ou há mais gajas?
Eu - Há mais gajas aonde?
Ela - Quando sais com ele vão sozinhos ou com mais gajas?
Eu - Essa pergunta traz água no bico.
Ela - É só por curiosidade.
Eu - Com esse tom de voz não me parece nada que seja só curiosidade.
Ela - Era só para saber.
Eu - Mas eu repondo. Com o teu namorado saio sempre sozinho. Não temos assim muitos amigos em comum, por isso saímos só os dois.
Ela - Não acredito.
Eu - Então para que é que perguntaste?
Ela - Para saber.
Eu - Mas se não acreditas em mim...
Ela - Se não acredito em ti fico a saber na mesma, não achas? Como vejo que estás a mentir quer dizer que a verdade é inversa.
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Ela - Estás mais magro.
Eu - Estou. Emagreci três quilos em quinze dias.
Ela - De propósito?
Eu - Mais ou menos. Substituí o carro pela bicicleta e os pastéis doces da tarde por peças de fruta. A verdade é que me sinto muito melhor.
Ela - Eu sabia... perto dos quarenta é sempre assim.
Eu - É sempre assim o quê?
Ela - Os homens começam a preocupar-se com a linha e as mulheres começam a engordar e a ficar feias. O meu ex-marido também parece rejuvenescido.
Eu - Que exagero...
Ela - Que exagero nada. Aposto que daqui a uns tempos até já estás a comprar hidratante para o corpo.
Eu - Daqui a uns tempos? Por acaso já comprei.
Ela - Já? Lá está... tenho razão.
Eu - Tu também podes ir para um ginásio, andar de bicicleta, comer fruta em vez de bolos e usar creme hidratante.
Ela - Não posso nada.
Eu - Não? Porquê?
Ela - Porque não tenho paciência. Essas coisas demoram muito tempo a fazer efeito e eu queria emagrecer já. Hoje, agora, neste momento.
Eu - Isso é falta de paciência.
Ela - É isso mesmo que eu te estou a dizer. Como é que tu queres que uma mulher de quarenta e dois anos tenha paciência?
Eu - Tem calma... não precisas gritar.
Ela - Não me digas para ter calma. Vocês não percebem nada. Ainda tenho duas filhas para criar, um emprego para manter...
Eu - Tem calma...
Ela - Os homens divorciam-se nesta idade, ficam com uma vida santa, saem com os amigos, mantêm-se em forma... e as mulheres que se lixem. As mulheres, que estão sempre ocupadas com tudo, só engordam.
Eu - Acho melhor abrirmos uma garrafa de vinho.
Ela - Também acho, também acho...
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As paixões não têm todas a mesma duração. Há paixões de anos, meses, semanas, dias e até de poucos minutos ou segundos. A intensidade da paixão não tem nada a ver com a sua duração, embora normalmente as características de cada uma dessas paixões sejam diferentes.
Posso apaixonar-me pela mulher que passa por mim na rua, e essa é uma paixão de dois ou três segundos. Posso apaixonar-me pela mulher que está a acampar mesmo em frente à minha tenda num Verão qualquer, e essa é uma paixão de alguns dias. Posso estar apaixonado pela mulher com quem vivo e essa é uma paixão de anos ou até de uma vida inteira.
O problema das paixões é que elas às vezes nos fazem confusão. Uma paixão de dois segundos pela mulher que passa por nós na rua é um ruído de fundo na paixão de uma vida. Pode ser um ruído de fundo de apenas dois segundos mas ainda assim um ruído.
Das poucas coisas que aprendi na vida acho que esta foi uma das mais importantes. Foi o que me ajudou a eliminar esse ruído de fundo da paixão de uma vida inteira.
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(no café)
Ela - Vou só ali fazer uma coisa. Depois telefono-te, se quiseres, para bebermos mais um fininho ao fim da tarde.
Eu - Vais só ali?
Ela - Sim.
Eu - Mas é segredo, esse "ali" onde vais?
Ela - É.
Eu - Ok.
Ela - Raios. Pronto, eu digo. Vou fazer a depilação.
Eu - Isso era segredo porquê?
Ela - Porque sim. Todas as casas de beleza feminina deviam ser clandestinas e secretas.
Eu (risos) - A que propósito?
Ela - Assim as mulheres andavam bonitas e os homens não sabiam porquê.
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Ela - As mulheres distinguem muito mais as palavras 'sexo' e 'amor'.
Eu - Distinguem?
Ela - Sim, acho que sim.
Eu - Talvez...
Ela - Acho que as mulheres dão muito mais importância à palavra 'amor' do que à palavra 'sexo'.
Eu - Ah!
Ela - No entanto hoje apetecia-me esquecer a palavra 'amor'.
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Não tenho bem a certeza mas acho que esta é uma pequena história de amor, e só não tenho a certeza porque não a conheço.
Hoje de manhã vi um homem reconstruir as pedras da calçada na Avenida principal da cidade. Pegou nas pedras soltas, uma a uma, e tapou o buraco aberto. Depois empurrou com os pés alguma terra e tentou fixá-las. Parecia que estava a tratar cuidadosamente duma ferida, só que esta ferida não era de ninguém. Era de todos. Era uma ferida da cidade e ele tratou-a.
Por fim, uma mulher que lhe segurava a bengala enquanto ele fazia isto devolveu-lha e lá foram os dois embora, de braço dado, lentamente como se tivessem todo o tempo do mundo. É sempre estranho ver idosos tão calmos numa artéria onde todos parecem ter pressa.
Talvez aquele abraço que eu vi a desaparecer depois numa curva se deva à forma como eles tratam as feridas um do outro, e desta vez estou a falar das feridas a sério, aquelas que não se vêem mas que os dias nos vão abrindo cá dentro. O amor também é isso, sarar a ferida do outro.
Talvez ali, naquele abraço, fosse uma história de amor. Apetece-me acreditar que sim.
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(na praia)
Ela - Não percebo bem o que procuramos mesmo numa relação.
Eu - O que procuramos?
Ela - Sim... em termos emocionais principalmente. Procuramos uma vida emocional mais agitada ou mais calma?
Eu - Quando alguém vai ao cinema ver um filme blockbuster, ao futebol ou simplesmente a um carrossel procura emoções fortes, mas essas emoções são efémeras. Como não é suposto uma relação amorosa ser efémera, creio que o tipo de vivência emocional que aí se procura é outro.
Ela - É o quê?
Eu - Se compararmos essas emoções efémeras a estas ondas fortes do mar, eu diria que numa relação normalmente queremos um mar de ondas suaves onde se possa nadar sempre. As ondas grandes podem dar gozo mas cansam-nos rapidamente.
Ela (levanta-se)
Eu - Onde vais?
Ela - Vou dar um mergulho, a ver se me passa esta necessidade de emoções fortes.
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Ela - O meu marido tem tantas coisas que eu não gosto.
Eu - Isso é normal. Vais sempre encontrar coisas que não gostas em pessoas que amas.
Ela - Achas?
Eu - Tenho a certeza.
Ela - Mas ele tem uma coisa que eu detesto mesmo.
Eu - O que é?
Ela - Há muitas coisas em mim que ele não gosta.
Eu - Estás a brincar comigo...
Ela - Não estou não.
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16:24
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Ela - Estou farta de estudar. Acho que já queimei os fusíveis...
Eu - Isso não faz mal.
Ela - Não faz mal?
Eu - Não. Os fusíveis existem precisamente para isso. Os fusíveis queimam para que o resto não queime. É uma protecção.
Ela - Não me chateies.
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16:19
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Ela - Gosto de me sentir bonita e não me ando a sentir nada bonita.
Eu - A mim pareces-me bonita. Podes não te sentir mas garanto-te que estás.
Ela - Eu sei que estou. O problema é que não me sinto.
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O Amor das compras não é igual ao Amor per si.
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Ela - Tu estás a viver com a tua namorada?
Eu - Mais ou menos.
Ela - Mais ou menos?
Eu - Sim, como ela não é de Aveiro só às vezes é que estou em casa dela. Em média uns quatro ou cinco dias por semana...
Ela - Ena... que fixe.
Eu - Que fixe?
Ela - Sim, acho que é isso que eu precisava. Que o meu marido só vivesse lá em casa quatro ou cinco dias por semana.
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