Hoje fui ao médico. Quando se vai ao médico é porque se suspeita que se pode estar doente. Eu suspeito. O médico mandou-me fazer uma série de análises mas acalmou-me. Não estás a morrer, disse-me. Estou sim, respondi-lhe. Espero é estar a morrer ao mesmo ritmo do meu envelhecimento. Não disse isto por nenhum motivo especial. Saiu-me. Só isso. Depois fui tomar café.
Gosto muito de café mas nem sempre o tomo por gostar dele. Tomo-o para poder estar sozinho no meio de muitas pessoas que não conheço de lado nenhum. E estive. Reparei que quase todas as pessoas que eu não conhecia de lado nenhum também tomavam café. Talvez o fizessem pelo mesmo motivo que eu e, nesse caso, era eu uma pessoa que elas não conheciam de lado nenhum. Foi isso que me fez olhar para elas com atenção redobrada.
Afinal conhecia uma delas. Um velho amigo que emigrou para a Holanda há uns anos atrás. Cumprimentei-o e mudei-me para a mesa dele. Então e a vida? É sempre o que se pergunta a alguém que não vemos há muitos anos. A vida, disse ele, está a zero. Voltou da Holanda por se ter apaixonado e desapaixonado por lá. Não se consegue viver num país em que nos apaixonámos e desapaixonámos, pois não? Não, confirmei eu. A não ser que seja o nosso.
Saímos do café ao mesmo tempo e demos um abraço. Acho que nunca tinha dado um abraço a um amigo que já não via há anos. Isso fez-me pensar que somos mesmo amigos. Pelo menos éramos. Perguntou-me pela minha vida. Os que são mesmo nossos amigos também perguntam sempre pela nossa vida. Acho que estou doente e tenho a certeza que estou apaixonado, respondi. A certeza mesmo? Sim. Doente de quê? Ando com umas tonturas repentinas, não sei bem porquê.
Uma criança com um prato de plástico em forma de volante interrompeu-nos. Apitou e disse que queria passar. Pi! Pi! O meu amigo deu-me uma pancada no ombro. Isso não é nada, disse. Depois foi-se embora. Acho que estava a precisar dessa pancada no ombro. Às vezes é preciso. Ter tonturas e estar apaixonado é uma sorte, pensei depois. Até porque as tonturas se resolvem.