10.31.2007

conversa 430

(com uma ex-professora que encontrei na esplanada dum café)

Ela - E o que é que faz agora?
Eu - Trabalho.
Ela - Em quê?
Eu - Várias coisas....
Ela - Ah! muito bem, muito bem. Com que idade é que está?
Eu - Trinta e cinco. Seis, trinta e seis.
Ela - Ah! muito bem, muito bem. Já tem filhos...
Eu - Uma filha.
Ela - Ah! muito bem, muito bem. Então casou-se.
Eu - Mais ou menos.
Ela - Ah! muito bem, muito bem.
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

crónicas da cidade que sopra | todos os santos são de carne

Amanhã, por ser quinta-feira, sai mais uma crónica da cidade que sopra no Diário de Aveiro. Esta é a sexagésima nona crónica que escrevo naquele jornal. Um número místico, portanto...

Acumulam-se as horas no relógio da cozinha. Acumula-se a louça por lavar em cima do balcão e, orbitando-a, o cheiro à putrefacção do tempo que passa. Acumula-se o cotão atrás das portas e o pó debaixo do móveis. Numa gaveta qualquer do quarto acumulam-se as contas por pagar e, numa gaveta da sua vida acumulam-se decepções. São gavetas que estão sempre fechadas mas que um dia Eva terá que abrir. Ela sabe disso, e a sua sombra deitada na cama acumula a falta de coragem para o fazer. É como se fosse um satélite sem rumo, sem um planeta principal. No seu porta-moedas
"made in china" acumula-se a fome disfarçada e, na sua casa vazia acumula-se a solidão. Hoje é feriado e não foi trabalhar. Normalmente acumula o tempo na caixa dum supermercado qualquer que acumula em dinheiro o desespero dos outros.

conversa 429

Ela - Gostava de te dar agora um beijo na testa.
Eu - Gostava de te dar agora um beijo no escuro.

10.30.2007

conversa 428

Ela - Preciso de saber uma coisa. Posso fazer-te uma pergunta?
Eu - Podes.
Ela - Quando vais para a cama com uma mulher qualquer, gostas de lhe bater e de lhe chamar nomes? Gostas de alguma violência?
Eu - Não.... mas já apanhei duas mulheres que me pediram para lhes chamar nomes...
Ela - E o que é que fizeste?
Eu - Nada. Nada mesmo. Acabou ali.
Ela - Opá... comecei a andar agora com um gajo. Ainda não é nada sério mas já temos sexo e... nem sei se te conte.
Eu - Conta se quiseres. Só.
Ela - O gajo é porreiro, mas na cama trata-me de puta para baixo. Para além de que parece uma tuneladora, não te sei explicar. Depois disso acalma e é um tipo perfeitamente normal.
Eu - Está bem explicado. Não precisas de te explicar melhor.
Ela - O que é que eu faço?
Eu - Gostas muito dele?
Ela - Mais ou menos. Também não gosto assim tanto.
Eu - Não sei que faças. Vai para casa pensar...

eu cá acho que as melheres estacionarem bal


Li hoje no JN, na página do leitor, que o novo shopping da Sonae em São João da madeira, Oitava Avenida, tem lugares de estacionamento exclusivos, mais espaçosos, para mulheres. O mesmo leitor, chamado Mário Margaride, considera o facto um acto insultuoso e discriminatório para as mulheres e faz duas perguntas:
Será que as mulheres são piores condutoras do que os homens?
Será que necessitam de zonas específicas de estacionamento?
Na minha opinião a resposta à primeira pergunta é Não, a resposta à segunda pergunta é Sim. Tenho a certeza que a Sonae fez um estudo e chegou à conclusão que as mulheres fazem compras mais volumosas. Por isso mesmo é que precisam de lugares de estacionamento mais espaçosos. Se não foi por este motivo, estou mesmo a imaginar a brainstorming de onde saiu esta ideia, e um gestor de fatinho a dizer: eu cá acho que as melheres estacionarem bal, pá, e sermos precisos lugares mais grandes para elas. Depois coça os tomates e cospe para o chão. A empregada que limpe.

10.29.2007

aperto de mão



A maneira como um homem aperta a mão a outro quer dizer, segundo o senso comum, muito sobre a sua personalidade. Não sei se isso é verdade, para ser sincero, mas acredito que a maneira como um homem não aperta a mão a outro signifique realmente alguma coisa.
Se o que aconteceu ao Luis Amado neste vídeo me acontecesse a mim, eu nem me importava muito, mas se fosse ao tentar dar dois beijos a uma mulher, acho que ficava deprimido. Estou mesmo a ver... um gajo curvado a olhar para o vazio enquanto ela se desvia para ir beijar outro homem mais importante.

Eu, que não vejo televisão, agradeço ao Nélson pelo vídeo.

mulheres que eu gostava de poder não compreender (60)



nome: Nawal
origem: Ilhas Comoro
info: É provavelmente a voz mais famosa das ilhas Comoro, situadas entre Madagáscar e Moçambique. Na revista Global Rhythm de Outubro vem uma reportagem sobre ela. Nasceu nas ilhas Comoro mas em 1976 (com apenas onze anos) partiu para França, por causa da mudança de regime do seu país cujo poder tinha sido ocupado por um fundamentalista islâmico. Durante toda a sua infância tocou com uma guitarra artesanal feita com fio de pesca, e esta frase publicada na revista é sua: "In 1975 my uncle beat me because I was playing guitar on stage. A woman never did that. Women singing, yes, but a woman that played guitar like a man? They said "sorry, not our family". Costuma dizer que a voz é o músculo da alma e, pelo menos no seu caso, eu concordo. Podem visitar o seu site oficial aqui.

pensamentos catatónicos (106)

Às vezes só acho que a vida devia ser cognitivamente mais simples.

10.28.2007

conversa 427

Ela - És a única pessoa no mundo que come kiwis com a casca.
Eu - Não devo ser. Isso incomoda-te?
Ela - Incomoda. Faz-me impressão.
Eu - Porquê?
Ela - Quem come essa casca é capaz de comer tudo...
Eu - Olha que não...

domingo



Para qualquer divorciado, os fins de semana com os filhos (no meu caso com a filha) são dias melhores. São dias em que nos rimos mais vezes, dizemos mais piadas e fazemos mais pequenas asneiras. Também são dias em que a energia se esgota mais rapidamente. A única coisa que consegui fazer para o nosso almoço foi massa com atum e depois esmaguei-lhe uma banana com sumo de laranja, só para juntar algumas vitaminas aos hidratos de carbono. Tendo em conta que vivo num segundo andar, quando ela me perguntou toda entusiasmada se eu conseguia sair de casa pela varanda, eu só respondi que não. Não, não consigo. Acho que ficou decepcionada.

10.27.2007

conversas 426 / pensamentos catatónicos (105)

As mulheres deviam ser como professoras primárias. Nós punhamos o dedo no ar, fazíamos uma pergunta e ela respondiam como se tivéssemos cinco anos. Mas não... às perguntas mais simples respondem sempre como se estivessem a explicar os fundamentos da mecânica quântica. Exemplo:

Eu - Queres sair comigo amanhã?
Ela - Eu diria que em certas situações a intenção e vontade de fazer alguma coisa não justifica, por si só, a uma obrigação solene. Há manifestamente, no nosso caso, mais para além do querer. Parece-me necessária uma primeira abordagem a certas e pertinentes questões, não é?
Eu - Isso é sim ou não?
Ela - Eu depois telefono-te.

10.26.2007

um dois três, un passito adelante maria...

1] Cortei o cabelo na barbearia Aveirense por seis euros, comprei umas sapatilhas tipo sapato na lefties por 11.95 euros, tomei um café no bar da estação de Aveiro por 0.50 euros. Ao todo, este dia vai em 18.45 euros.

2] Logo à noite há Couscous Prosjekt no Riff bar, e isso é suficiente para eu estar bem disposto.

3] Vi uma mulher bonita, mas daquelas mesmo bonitas. Ia a passar em frente à barbearia, quando entrei, com uma mochila enorme às costas. Depois, em vez de entrar pela porta, fui contra o vidro do estabelecimento primeiro. Está tudo bem: não o parti.

as mulheres vistas por um tuga divorciado

Suecas
As suecas são um mito entre os jovens adultos portugueses. Todos já contaram aos amigos uma história qualquer em que paparam uma sueca e ela teve tanto prazer que acabou por confessar que os suecos, apesar de grandes, têm todos a pila pequena e são maus na cama. Ora bem... o problema é que estas histórias são sempre mentira e, as maiores vítimas, nem sequer são os suecos. São mesmo todas as mulheres loiras com mais de um metro e setenta e dois que, cada vez que passam férias em Portugal, não conseguem andar na rua sem ouvir bocas foleiras de taxistas à espera de clientes, homens com botas texanas em cima duma famel zundap, e adolescentes com óculos escuros maiores que a própria face.
De qualquer maneira quero contar aqui uma cena que tive com uma sueca. Uma vez papei uma e ela gostou tanto que no fim me disse que os suecos têm todos a pila pequena e são maus na cama.

Espanholas
As espanholas têm a vantagem da técnica a que elas próprias deram o nome: a espanholada. Para quem não sabe, a espanholada consiste em roçar os seios no falo do parceiro até ele se vir. Pronto, a espanholada é isso.
Como todos sabem, o único país com que Portugal faz fronteira é a Espanha, ou seja, as espanholas são as estrangeiras mais à mão de qualquer português e, por isso, tornaram-se num fetiche inevitável. Expressões como “olha que eu arranjo uma espanhola” ou “vou ter com a espanhola” são frequentemente usadas nos lares portugueses quando o homem quer chatear um cadito a sua companheira. Foi assim que as espanholas ganharam a fama de mulheres fáceis e boazonas na cama. Ora bem... eu que já trabalhei em Barcelona, vou frequentemente à Galiza e, uma vez, urinei numa parede em Badajoz que afinal não era uma parede mas sim um espanhol bêbado (eu estava totalmente sóbrio), posso confirmar que isto é mentira. As espanholas não são mais fáceis que as portuguesas. Ou então é de mim.

Chinesas
As chinesas são responsáveis por mais um mito urbano: todos os portugueses acreditam que elas têm a vagina perpendicular ao normal. Ora... bem... isto deve-se ao facto, mais uma vez, de todos os homens portugueses contarem aos amigos que já paparam uma chinesa e isso ser mentira. Para sustentar a história contam a descoberta, normalmente enquanto coçam os tomates e bebem uma cerveja, e dizem: - “epá, a gaja tinha a racha ao contrário”. Ora o amigo, que também está com os copos, acredita e conta a mesma história no dia seguinte. A verdade é que eu já trabalhei em Hong-Kong e posso confirmar que as chinesas não têm a vagina na posição que se diz, não porque tenha tido experiências sexuais com alguma (não é que não tenha tentado), mas porque perguntei a uma com quem ganhei confiança: - “Ei, do you have your vagine on horizontal?” - perguntei. “Nor you la hei katsu mintu alaei”, repondeu ela. Eu acho que aquilo quer dizer não, porque ela a seguir abanou a cabeça negativamente e até me deu uma chapada.

Norte-americanas
As norte-americanas também são famosas por gostarem muito de portugueses, e estou a falar das norte-americanas tipo Miami Bitch, ou melhor, beach. Claro que andei a passar fome durante dois anos para ir até lá ver se tirava a barriga de misérias (esta frase tem qualquer coisa de incoerente mas eu não sei bem o que é). Epá, desenganem-se os que acham que as gajas gostam de portugueses. A verdade, nua e crua, é que elas nem sabem que Portugal existe, e mesmo quando um tipo topa isso e começa a dizer que é alemão, a única coisa que ela fazem é abrir muito os olhos e dizer: - “Oh yeah! It's so great. I really love south america”. Pois...

Brasileiras
As brasileiras conseguiram criar em Portugal o famoso movimento “mães de bragança”, um movimento justo que eu apoiei imediatamente, e que defende o seguinte: é melhor um gajo ficar em casa a descascar batatas junto a uma mulher com bigode do que sair e ter sexo com uma miúda de vinte anos que faz, segundo um dos poucos homens que deu a cara na altura, maravilhas com a boca. As “mães de bragança” justificam-se dizendo que as brasileiras estavam a destruir os casamentos. Claro que sim. Apoiado. O meu sonho agora é casar com uma tipa que deixe crescer o bigode e passe as noites comigo a descascar batatas para um alguidar de plástico. Muito bem. Brasileiras boazonas voltem pró Brasil. Nós aqui só queremos mulheres-batata, que isto é um país agrícola. Além disso, o casamento entre uma mulher e um homem que gasta o salário todo em meninas de alterne, é sagrado e deve continuar até à morte.

Mulheres Girafa
As mulheres girafa são aquelas que, em alguns países asiáticos, colocam tantos colares durante o seu crescimento que ficam com um pescoço enorme. Eu admito que já escrevi a umas cinquenta a perguntar se casam comigo, isto porque adorava passar as noites a ir ao cinema com uma tipa assim, eh eh. Estou mesmo a ver o gajo atrás todo lixado... opá, adorava, adorava, adorava. Se alguma mulher girafa ler isto, por favor, contacte-me via email. Eu não tenho dinheiro e não posso pagar mas, em troca dum casamento e de uma ida por semana ao cinema, prometo muito amor e beijos na boca. Quer dizer, beijos na boca não, a não ser que ande sempre com um escadote atrás, mas posso tentar.

Portuguesas
As portuguesas têm fama de difíceis entre os portugueses, e isto tem uma explicação óbvia: é das portuguesas que um gajo leva mais negas. Phónix. Claro que como um tipo não aceita um não muito facilmente, a culpa é sempre delas, que são muito inibidas, conservadoras e mais não sei o quê. Eu acho que tenho uma taxa de sucesso razoável entre as portuguesas, mesmo assim, e consigo levar uma para a cama em cada quinhentas e doze tentativas. Claro que como até agora, durante a minha vida toda, só tentei vinte e seis, ainda me faltam quatrocentas e tal para ir outra vez... cof, cof, cof... acho que o melhor é nem fazer as contas. Vou emigrar, pá, nem que seja para a China, onde elas a têm atravessada. Quero lá saber...

10.25.2007

dia obstinado

Estou a ter um dia... não lhe quero chamar mau porque não é mas... sei lá... chamar-lhe-ia obstinado. Preciso mesmo dum copo logo à noite. Antes ainda vou fazer lulas grelhadas em limão e arroz de alho para o jantar, abrir uma Quinta de Cabriz branco e fumar um cubano na varanda. Depois logo se vê...

o princípio do fim

Até pode ser inevitável haver, ocasionalmente, uma discussão ou outra entre duas pessoas que vivem juntas e maritalmente, mas é sempre bom evitar a agressão com coisas que se vão buscar ao passado. Quando isso acontece o futuro fica compremetido. Acho.

Não sou a pessoa ideal para servir de conselheiro matrimonial entre dois amigos que estão a passar um mau bocado, mas estou sempre disponível para me sentar a beber um copo e ouvir desabafos. De resto, só há duas coisas que me apetece dizer:


1] Acabar uma relação não é o fim de nada. Pelo contrário, pode ser o princípio de tudo. E é melhor ver a coisa assim.
2] Epá... não se bulhem tanto.



filho da puta



Este gajo, Sergi Xavier, de Barcelona, que agrediu uma miúda só por ser sul-americana devia ser enterrado vivo. É a minha opinião.

conversas 425

Ela - Pensaste em mim algumas vezes depois daquela noite?
Eu - Sim, claro que sim.
Ela - Quantas?
Eu - Exactamente seiscentas e vinte e duas.
Ela - A sério?
Eu - Ou isso ou quatrocentas e cinquenta e quatro. Agora não sei bem.
Ela (ri-se) - Estás a gozar...
Eu - Não, não...

conversa 424

Ela - Mulher portuguesa tem a pele tão bilhante. Brasileira não. Eu só queria ter a minha pele assim como as portuguesas.
Eu - Porquê?
Ela - Eu é só espinhas. Ninguém merece.
Eu - Isso não é por seres brasileira, é por teres dezoito anos.
Ela - Não é não.
Eu - É, é. Não te preocupes que isso desaparece.

10.24.2007

mulheres que eu gostava de poder não compreender (59)


nome: Maki Nomiya
origem: Japão
info: Cá em Portugal acho que é principalmente conhecida por ter sido a vocalista dos Pizzicato Five, mas a verdade é que os Pizzicato foram apenas um breve interregno na sua carreira a solo. Está fartinha de produzir música sozinha. Nasceu em 1960, ou seja, tem mais nove aninhos do que eu, o que não é nada numa relação com uma mulher que pinta o cabelo com cores vivas (não me peçam para explicar isto, por favor). Acho que lhe vou escrever um email, sei lá... tipo: ey! Maki, I´me sending you my photo. I love you so much until no more I can (ey! Maki, envio-te a minha foto. Amo-te tanto até não mais poder).

vídeo de apresentação:

crónicas da cidade que sopra | um copo de água

Hoje estou a ter um dia tão complicado que estava a ver que não conseguia escrever a crónica de amanhã, no Diário de Aveiro. Quase nem tive tempo para respirar.

Respirar não é só inspirar e expirar, transformando involuntariamente oxigénio em dióxido de carbono, e cada segundo que passa em nada. Respirar é mais do que isso. É o que vem depois: sentir o gosto e o cheiro do pão quente a cada manhã, deixar que a música do rádio dance secretamente nos nossos lábios, acreditar que a luz do Sol invade a sala porque nos quer acariciar a pele. Pelo menos é esse o pensamento de Sandra, que não se lembra da última vez que respirou, e quem não respira é porque morreu. Sente-se só.