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11.24.2015

limpar os pés e pedir licença

Uma excitação levemente alcoolizada. Era o momento perfeito, pensou ele assim que ela o convidou para subir. Tinha-a acompanhado a casa apenas pelo tradicional cavalheirismo e agora adivinhava um mundo de prazer à sua frente, pelo menos por uma noite. Sexo quase de certeza e, com sorte, repetido na manhã seguinte. 

- Só um copo de vinho, então! - disse.

Ela sorriu. Adorava que os homens não admitissem ao que iam. Sempre lhe pareceu que eram os mais sinceros na cama, aqueles que eram mais mentirosos nas palavras. O último com que tinha tentado rasgar a solidão em que vive dissera apenas "claro!" e, com tanta ânsia e clarividência masculina, ela acabara a olhar para uma melga que tropeçava no tecto do quarto enquanto ele se masturbava dentro dela. Fez-lhe o favor de o deixar acabar e depois inventou uma desculpa qualquer para o mandar embora. Não houve manhã seguinte.
Subiram num elevador demasiado pequeno para os dois. Ainda não era o momento de se tocarem e, sobretudo, de se cheirarem. Depois de uma noite a dançar num dos poucos bares da cidade onde ainda se fuma, não era pelos aromas que se iam atrair. 

- Em que andar vives?
- Quinto. É rápido.

Ela abriu a porta e entrou primeiro, sem limpar os sapatos no tapete. Foi à cozinha confirmar que tinha uma garrafa de vinho tinto com um rótulo que não parecesse muito mau. Ele demorou alguns segundos no tapete de entrada e depois, já sem contacto visual com ela, pôs a cabeça dentro de casa e pediu licença com o primeiro passo.

- Não sejas tolo. Entra!

A vantagem do vinho é que substitui as palavras quando elas ficam presas na língua. Deram alguns goles pequenos entre sorrisos amarelos e atrapalhados, até ele se encostar à parede e desligar o interruptor da luz com as costas. Foi sem querer, mas pareceu de propósito. O primeiro beijo não teve testemunhas oculares.
Não era a primeira vez que passava a noite na casa duma mulher acabada de conhecer, mas sentia-se um pouco intimidado. Além disso, sempre achou que o melhor Amor é aquele em que se entra devagar, a pedir licença depois de limpar bem os pés. 
Já na cama, nu e com o falo no descanso do guerreiro, lembrou-se do seu primeiro pensamento: "com sorte, sexo na manhã seguinte". Ela também já dormia mas, entre os seus sonhos, abraçou-o e pousou-lhe a cabeça no peito com a leveza duma andorinha.
O sexo em que se limpa os pés à entrada e se pede licença é o sexo que se prolonga no tempo. Às vezes na vida.
Quem sabe?

11.21.2015

Você é linda!

Estava na cozinha a abrir uma lata de tomate aos pedaços, daquelas mais baratas, quando o telemóvel tocou. Tu não sabes, mas há vários meses que me lembro de ti sempre que ele toca. Cada vez que o ouço, corro para ele na esperança de ver o teu nome no ecrã e preparo-me para te dizer "olá" com a voz mais natural possível.
Mais uma vez não eras tu e acabei, como é costume, por dizer "olá" num tom decepcionado. Prendi o telemóvel entre o ombro e a orelha para libertar as mãos e poder continuar a cozinhar. Despejei os pedaços de tomate para o wook, juntei dois dentes de alho esmagados, um fio de azeite e uma malagueta. Depois acendi o lume e encostei-me a uma das paredes da cozinha a ouvir a minha interlocutora.
Uma vez perguntaste-me se havia alguma música que me lembrasse de ti e eu respondi-te que sim. Aconselhaste-me a configurar o telemóvel para tocá-la sempre que fosses tu a ligar-me. Deixa-me dizer-te que ainda bem que nunca o fiz. Assim, agora ganho uma vã esperança de seres tu mesmo quando não és. São alguns segundos em que a minha vida volta a ganhar cor. E sabem-me bem, esses segundos. Obrigado por seres uma música.
Não sei se já te aconteceu não conseguir ouvir uma pessoa por estares a pensar noutra. A mim acontece-me frequentemente por estar a pensar em ti e admito que perdi, muito provavelmente, mais de metade do telefonema. Ainda assim, nesse pântano sonoro em que me encontrava, uma frase ficou-me gravada na memória como se fosse uma tatuagem definitiva.

- Não era bem contigo que queria falar, mas ele não me atende o telefone e eu preciso desabafar...

Não percebi logo o contexto em que ela me disse aquilo, mas foi como se me despertasse do hipnotismo em que estava por ter saudades tuas. Talvez, não sendo tu a telefonar-me, eu possa aproveitar a voz de outra pessoa qualquer, mesmo que seja de alguém que me chama apenas para desabafar. É como se nós pudéssemos emprestar um bocadinho do que somos a quem não quer tudo mas, de facto, um bocadinho dá jeito naquele momento.

- O que é que estás a fazer? - perguntou.
- A pôr dois ovos a escalfar em tomate frito. Se quiseres ponho quatro e vens cá jantar...

Um quarto de hora depois ouvi-a tocar à campainha. Já eu tinha a mesa posta com dois pratos, uma garrafa de vinho branco e uma música a passar no antigo sistema midi que ainda tenho na sala. "Você é Linda" do Caetano.

11.05.2015

É por isso que estou aqui

Estou sentado ao balcão de um bar qualquer onde nunca tinha entrado. É pequeno, o espaço, e do outro lado uma mulher vai fingindo que tem coisas urgentes para fazer. Eu percebo-a. Não a conheço de lado nenhum e, se ela estivesse desocupada, estaríamos demasiado perto um do outro para quem não tem nada a dizer ao outro. Provavelmente seria eu a beber este copo de uísque a correr para procurar alguma privacidade noutro lado qualquer.
Porque é que não vou para casa? Porque preciso de estar sozinho com alguém perto de mim. De preferência alguém que não me conheça e finja estar a fazer alguma coisa para não cruzar o seu olhar com o meu. É assim que estamos os dois, a fingir que não damos pelo outro apesar de ambos termos uma presença pesada.
Ela é bonita. Tenho a sensação que muitos homens já se apaixonaram neste mesmo balcão. Talvez alguns tenham tentado meter conversa com ela e outros tenham simplesmente bebido demais para esticar o tempo deste impasse.
Ela não sabe, mas eu não estou assim tão sozinho como parece. Tudo o que eu faço já fiz contigo ao meu lado. É por isso que continuas a estar comigo, apesar de não estares. Por exemplo, há bocado abraçaste-me e pediste-me para molhar os lábios no meu copo. Depois disseste-me que não percebes como é que eu bebo estas coisas. Fizeste uma careta e eu saboreei o simples facto de existires.
É por isso que bebo estas coisas. Tudo o que bebo, o que como ou o que respiro sabe-me à tua existência e isso chega-me para me sentir feliz. Feliz é a palavra. Não há outra para definir o meu Amor por ti.
Ou então há. Estar assim num espaço pequeno, com uma mulher à minha frente sem fingir que está ocupada a fazer qualquer coisa, só me acontece contigo. Mesmo que tão calada como este copo que bebo. É por isso que estou aqui. 
Onde estiver estarei bem.

7.10.2015

Não!

Para eu gostar de alguém, não basta que esse alguém goste de mim, embora essa seja uma condição sine qua non. A minha exigência é que esse alguém goste de pessoas em geral. Eu, para além de mim, ou até antes de mim, sou uma pessoa.
Lembro-me duma tarde qualquer em Lisboa, com muito calor e a cidade tão deserta quanto eu. O meu divórcio tinha sido pouco tempo antes. Talvez por isso os navios que cruzavam o Tejo me parecessem todos à deriva, como se tivessem ido ali parar apenas porque sim, sem a pressa de quem tem uma origem e um destino. Como eu.
E depois ela apareceu e perguntou-me se eu era eu.

- Sim!

Demos dois beijos e eu perguntei-me, em silêncio, se naquele dia ainda nos íamos beijar de outra forma. Não sei se ela se perguntou o mesmo. Nunca sei essas coisas, mas tendo em conta o que é um blind date é sempre legítimo pensar que sim. O meu pensamento dedutivo é que falha muito. Ela era bonita. Muito bonita.
Sentámo-nos numa esplanada qualquer e tentámos arrumar a vida, eu a minha e ela a dela, para a explicarmos como se nos estivéssemos a vender um ao outro. É sempre assim, depois com alguns sorrisos à mistura e duas ou três piadas fracas que mesmo assim fazem rir. Bebemos três cervejas cada um e depois beijámo-nos. Foi mais rápido do que eu esperava. Andar à deriva dá nisto, acidentes ocasionais num imenso mar de solidão. Ela quis saber se comigo era sempre assim.

- Não!

Depois foi o empregado do restaurante. Falador, tratou-nos como se fossemos casados há muitos anos e elogiou-nos por isso. Entrámos no jogo dele, sempre com sorrisos matreiros escondidos. Mal sabia ele que nos tínhamos conhecido nessa mesma tarde e que os nossos corpos ainda não se tinham tocado numa cama. Ofereceu-nos uma ginja no fim e perguntou-nos se tínhamos filhos.

- Sim! - disse ela.
- Não! - disse eu ao mesmo tempo.

Fomos descobertos.
Deixámos o dinheiro em cima da mesa, junto a uma conta feita na toalha de papel cheia de manchas de vinho, e saímos. Lá fora as pessoas passavam por nós, contornando o nosso primeiro abraço prolongado. Lembro-me de perceber que nunca sabemos que abraço estamos a ver, se o primeiro duma vida, se o da despedida, se um casual para impedir lágrimas. Os abraços são tão importantes...
E ela quis saber se eu queria atalhar a noite e ir já para casa dela.

- Sim!

E na noite um corpo outra vez. Um cheiro a mulher e aqueles toques que alternam entre o bruto e o suave, como o champanhe. Lisboa do lado de fora da casa dela e eu infiltrado ali, como um amante clandestino. Chamei-lhe Amor e ela deixou. Adormecemos.
Não há melhor acordar do que aquele que é simultâneo e se ri de tudo. Tornámos a arrumar a vida, não para nos vendermos mas sim para nos comprarmos.

- No próximo fim de semana, se puder ser, vais tu ter comigo... - disse eu sem calcular a abrangência do que dizia.
- Para quê?
- Para conheceres a minha vida. Os meus bares, a minha casa, os meus amigos...
- Não quero conhecer nada do teu passado. Só me interessas a partir daqui. Pode ser?

No tecto do quarto dela estava um animal qualquer com antenas e muitas patas. Talvez fosse um receptor de som escondido, um produto da tecnologia para que Lisboa espiasse a nossa conversa. Imaginei uma cidade inteira à espera da minha resposta.

- Não!

6.29.2015

devíamos ter tido sexo!

Lembro-me dela a ver as letras de romances intermináveis. Não sabia ler, mas virava as páginas uma a uma como se percebesse o sentido de cada página, de cada frase, de cada palavra. Talvez percebesse mesmo, porque no silêncio deve existir um sentido qualquer.
Uma vez levantei a voz para simular o roncar do motor de um pequeno carro de rali que os meus pais me tinham oferecido no Natal e ela pediu-me silêncio. Encostou o dedo indicador aos lábios e depois apontou para o livro aberto nas próprias pernas.

- Chiu...

Nunca conheci o pai da Susana. Na verdade, creio que nunca existiu. Talvez tenha morrido quando ela era ainda bebé, talvez tenha emigrado. Não sei. Sei que um dia perguntei-lhe por ele e ela limitou-se a abanar os ombros.

- Não está cá!

Restava a mãe, a senhora que lia livros sem saber ler, enquanto nós fazíamos corridas com miniaturas de automóveis numa sala alcatifada a vermelho. A Susana não tinha bonecas nem cozinhas de brincar, mas tinha um grande balde de blocos de construção e outro com muitos carrinhos. Eram brinquedos tipicamente masculinos, o que ainda me fazia estranhar mais a ausência de um pai, mas talvez tenha sido por isso que ficámos tão amigos. Pelos brinquedos e pela ausência do pai.

- A tua mãe assustava-me um bocado!

E a Susana sorriu. Muitos anos depois reconheci-a, primeiro pelos gestos, depois pela fisionomia. Estava a ler um romance qualquer na mesma posição da mãe, que fechou para me abraçar deixando o dedo indicador a marcar a página.
Bebemos alguma cerveja juntos, onde as nossas memórias de infância flutuaram vindas bem do fundo. Depois percorremos a cidade de mãos dadas, na expectativa de afogar essas recordações e de ver nascer um presente ou um futuro em nós, o que não aconteceu. O abraço com que nos despedimos foi um pouco menos intenso do que aquele com que nos reencontráramos nessa mesma tarde. A nossa amizade morria assim, tão devagar quanto possível, entre duas cidades e dois abraços diferentes. 
Esta semana, vinte anos depois desse segundo encontro, tomámos um café entre essas duas cidades. Ela apareceu com um livro que podia ser o mesmo da segunda vez e o mesmo que a mãe lia quando éramos crianças. Contei-lhe a nossa própria história, mais ou menos como contei até ao parágrafo anterior.

- Devíamos ter tido sexo!

Sorriu.

6.23.2015

lixo

Aveiro, dia muito quente e as árvores vestidas de cor. Fazem-me confusão.
A minha tendência é vestir-me quando tenho frio e despir-me quando tenho calor. No Verão quente as árvores vestem-se, no Inverno frio despem-se. A natureza é irónica.
Acabei de me analisar, a mim e ao que visto, no reflexo da montra duma pastelaria venezuelana. Sou grande e corpulento, mais do que gostaria. Encolhi a barriga uma série de vezes para gostar mais de mim, até perceber que algumas pessoas lá dentro me olhavam entre sorrisos e curiosidade. Afastei-me.
O Verão é um segredo.
No passeio há garrafas de vinho e de cerveja vazias, espalhadas um pouco por toda a parte. Uma mulher varre da rua esses despojos do dia anterior, pacientemente, colocando-os num carrinho verde onde se dá a mais bela das mortes. A do lixo. É o lixo que me faz lembrar que a vida não é só isto, um passeio solitário por ruas desertas.
Apetecia-me dar a mão a uma mulher. Aliás, percebo agora porque é que as pessoas que se Amam dão as mãos. É para se encherem. As mãos são as mangueiras da vida quando nos sentimos vazios. E eu estou vazio.
Amar é difícil por causa da saudade permanente. Há uns dias, num passeio semelhante, disse-me que conheço mulheres mais fáceis de Amar do que aquela que Amo. Depois respondi-me. A facilidade no Amor significa sempre Amar menos.
Não quero. O Amor intenso é sempre difícil. Tem que o ser para ser Amor.
Dou um pontapé numa lata de cerveja vazia que acorda, com um ruído estridente, o silêncio sepulcral da manhã. Foi sem querer. A mulher que ainda varre o dia anterior olha para mim. Apanho a lata e dou-lha.

- Bom dia! - diz ela.
- Bom dia! - respondo.

 E de repente sou outro.

6.16.2015

Ainda me Amas?

Chegou o dia em que duvidei do Amor, até porque tudo parecia estar bem.
Acho que começou no espelho do elevador, logo de manhã, onde me vi mais gordo, mais cansado e mais feio. Perguntei-me a mim mesmo se ainda me Amavas, mas sacudi rapidamente a resposta que eu não queria ouvir do pensamento, exactamente como um cão expulsa a água do corpo depois de se molhar. Abanei a cabeça num gesto rápido.
Não tenho culpa se pouco tempo depois, enquanto esperava que o semáforo para peões mudasse para verde, uma mulher ao meu lado repetisse várias vezes seguidas que o marido dela era um inútil. Estava a falar ao telefone e ia dizendo: "Deixa lá! O meu marido é um inútil". "Será que ainda me Amas?", perguntei-me.
Era já noite quando me lembrei das nossas férias na Argélia. Os cafés da cidade só tinham homens e algumas, poucas, mulheres conversavam em segredo nas portas e varandas dos prédios. Durante alguns minutos espreitei pela janela do maior café da avenida, onde todos acompanhavam um jogo de futebol qualquer. Ninguém parecia preocupado com o Amor, muito menos com a falta dele.
À noite fui ter contigo.

- Ainda me Amas?

Não me respondeste. Fodemos, depois ligaste a televisão e viste meio episódio da novela. Ainda bem. Se me tivesses respondido que sim era porque já não me Amavas. 
Adormeci ao teu lado.

6.12.2015

um adeus para sempre

É verdade que o Amor é uma disciplina como outra qualquer em que se aprende com a vida. É a vida que nos diz que o Amor não chega ou, como eu prefiro dizer, que o Amor não é só gostar e estar apaixonado. É muito mais do que isso, pelo menos quando pretendemos entrar no frágil equilíbrio das cedências e exigências.
Que espaço devemos dar a quem Amamos e que espaço devemos exigir para nós e para ambos? Não sei. Sei que, numa relação, só muito raramente duas pessoas estão de acordo nesta matéria, matéria essa que se vai aprendendo quase sempre tarde demais.
Lembro-me duma mulher a quem todos os dias eu não dizia nada. Sei muito bem que há muitas mulheres a quem nunca digo nada, mas esta era por opção. Sentávamo-nos todas as manhãs num café do Porto, frente a frente, a tomar o pequeno-almoço. Trocávamos olhares, sorrisos, às vezes até cheiros e compreensão. Nunca trocávamos palavras, nem sequer a que tem o nosso nome ou deseja um bom dia ao outro.
Obviamente apaixonei-me por ela, porque o mistério é sempre apaixonante. Obviamente passei a conhecer-lhe pequenos gestos e vícios. A forma como lia o jornal de trás para a frente, para no fim o dobrar em dois sempre com a capa para dentro, como se quisesse esconder as vergonhas do mundo que tinha acabado de ler. Bebia sempre um galão num daqueles copos que vêm dentro duma armação metálica e comia meia torrada com pouca manteiga. Às vezes, e esse gesto surpreendia-me sempre, penteava-se no reflexo dum espelho ferrugento. Surpreendia-me, porque parecia-me sempre renovada quando o fazia, como se tivesse acabado de beber um pouco de água da Fonte da Juventude.
Por falar em Fonte da Juventude, teria provavelmente mais uns vinte anos do que eu, ou seja, mais ou menos a idade a idade que eu tenho agora. Vivi naquela relação matinal e silenciosa durante alguns meses e passei a pensar nela como parte da minha vida. Se num ou noutro momento ela se atrasava e não aparecia, eu tornava-me ansioso e triste. Sofria.
Nunca soube o nome dela, nem ela o meu, mas senti-lhe os lábios no dia em que ela se levantou e me disse que era a última vez que nos víamos. Beijou-me. Ia atravessar o Atlântico de regresso a casa. Só aí é que eu soube que era brasileira, apesar do seu português europeu. Despediu-se no seu jeito tímido de todos os empregados e, já na porta, tornou a dizer-me adeus.
Um adeus para sempre.

P.S.: Este fim de semana é o WFC - Out Of Love

8.08.2014

a violência feminina

Na verdade, não tenho nenhum exemplo de casamento feliz à minha volta. Digo isto com alguma segurança desde que percebi que, para a maior parte das pessoas, a felicidade num casamento vem sempre temperada com alguma resignação. A F. não foi excepção.

- O meu casamento foi bom! - disse ela.

Nessa altura já estava na fase de arrumar todos os livros que tirara das suas inúmeras e preenchidas prateleiras para me ler, a espaços, uma frase escolhida de cada um. Eu estava impressionado com a sua capacidade para memorizar frases chave de romances e, admito, ainda mais por ser capaz de as encontrar com relativa facilidade.

- Quer dizer... não foi mau. - continuou.

E eu ri-me, não por achar piada à frase mas porque não sabia como reagir. Aquela verdade deixava-me nervoso porque ia de encontro ao que eu acabara de concluir nos meus trinta e cinco anos de vida: um casamento bom é um casamento que não é mau.
A F. ia organizando os livros por autores. As frases todas que me lera estavam preenchidas de vida. De Amor, de ódio, de viagens, lágrimas e abraços. Talvez em silêncio tenhamos tirado mais ou menos a mesma conclusão. Os nossos casamentos, por pouco maus que pudessem ter sido, tinham-nos tirado essa vida que ela acabara de resgatar daquelas páginas soltas.
Assim que a mesa ficou desimpedida, desapareceu por um minuto ou dois e voltou com uma garrafa de uísque e dois copos. Ela própria nos serviu, sem me perguntar se eu queria beber ou se preferia puro ou com gelo. Dei o primeiro gole apenas para lhe mostrar que estava de acordo com tudo. Depois cruzei as mãos e foi a primeira vez que a olhei olhos nos olhos. Reparei que era das mulheres mais bonitas que eu já tinha visto.
Enquanto o seus cabelos pretos lhe banhavam os ombros como uma suave maré cheia, fui percebendo a forma como o seu ex-marido se apaixonara perdidamente por ela muitos anos antes. Provavelmente, eu estava a viver exactamente as mesmas sensações que ele. O ar começava a entrar e sair dos meus pulmões com alguma dificuldade e não encontrava as palavras certas para lhe responder a nada. Acabei por dar um gole sôfrego no uísque e tentar concentrar-me no que ela dizia.

- As mulheres têm uma violência dentro delas que os homens não são capazes de perceber.
- Ahn?! - estava assustado.
- Durante anos observei a lenta degradação do meu casamento na expectativa de que o meu marido se apercebesse do mesmo que eu. Queria que ele chegasse à conclusão que o nosso Amor não merecia acabar assim, como um velho que se vai encolhendo até morrer...
- E ele apercebeu-se?
- Claro que não. Todos os dias saía de casa para trabalhar e voltava como se tudo estivesse normal, mesmo naquelas fases em que passávamos dois meses sem sexo. E eu todos os dias ia tendo cada vez mais pena dele...
- É essa violência que dizes que só as mulheres é que têm?
- Sim, exactamente. Observei-o durante anos como se ele fosse um rato de laboratório, porque era isso que ele era de facto. Até que um dia me cansei de o estudar e pus fim àquilo tudo com o divórcio.

Depois disto ela calou-se e senti os seus olhos, pesados, sobre mim. Naquele preciso momento o rato de laboratório era eu, que passara dum desejo enorme de a levar para a cama para uma estranha sensação de incapacidade total para fazer fosse o que fosse. 
Imaginei-me, também eu, a ser o objecto de pena da minha companheira de vários anos. A sair todos os dias e a voltar para casa debaixo do seu olhar estudioso, mesmo quando passávamos dois meses sem sexo. Imaginei-a a questionar-se sobre o meu comportamento mecânico e diário, como se fosse possível assim fugir à desilusão da própria vida.
Com o terceiro gole acabei o uísque e, sem pedir licença, servi-me de outro. O copo da F. ainda estava cheio.
Acabara de me aperceber que eu próprio, sem ser capaz de o perceber, sentira essa violência feminina durante anos, como se um chicote silencioso todos os dias me abrisse mais uma ferida invisível na pele. A normalidade da vida passara a ser uma merda e eu adaptara-me cobardemente a ela. Mesmo assim, apesar de tudo, tinha sido ela a salvar-me, essa violência feminina.
A F. ainda me olhava em silêncio, com um sorriso que indicava ser capaz de ler os meus pensamentos.

- Vamos para a cama? - perguntou.
- Sim.

4.25.2014

uma estátua de pedra

Lembro-me da caixa de fósforos em cima da toalha vermelha. Não parecia verdadeiramente uma caixa de fósforos. As superfícies ásperas ainda estavam intactas e ladeavam a reprodução de uma pintura naif. Era uma paisagem com um rio e algumas casas coloridas. Assim à primeira vista, podia tratar-se de um objecto de decoração e não de uma caixinha de fósforos.

- Que gira! - disse eu enquanto a observava com a ponta dos meus dedos.

Foi nesse dia que percebi que tinha uma espécie de sexto sentido relativamente a um aspecto muito particular dela. Ainda ia a subir a escada que dava para o terceiro andar onde ela vivia quando tive um calafrio. Cheguei a pensar voltar para trás e desaparecer, mas já tinha tocado à campainha para ela me abrir a porta do prédio. O intercomunicador do edifício tinha-se mantido mudo e o som da fechadura a soltar-se soou-me de uma forma particularmente agressiva. Ela estava com vontade de descarregar uma fúria qualquer em alguém.

- É apenas uma caixa de fósforos. Não tem nada de giro! - respondeu.

Mantive o silêncio. Sentei-me no sofá tentando não fazer ruído nem sequer com o a sola dos sapatos que pareciam querer irritar-me quando tocavam no flutuante da sala. Fiquei a vê-la do lado de fora da varanda, através do cortinado branco como se fosse uma sombra chinesa. Era tão bonita! Mesmo quando fumava cigarros nervosos e se transformava numa sombra era bonita.
Depois entrou e tornou a revelar as cores que lhe davam vida. O vestido vermelho e levemente decotado, o pescoço fino e frágil, o cabelo frisado da cor de mel e uma tatuagem em miniatura que vivia num dos seus braços como um insecto adormecido. Era uma mosca.

- Não trouxeste vinho? - Perguntou
- Pensei que tínhamos combinado jantar fora... - arrisquei.
- Mas não vamos. Não me apetece sair de casa e aqui sinto que não há espaço suficiente para os dois, muito sinceramente.

Levantei-me e dei-lhe um abraço a que ela não correspondeu. Foi a primeira vez na minha vida, aliás, que abracei uma estátua. Dura, de braços caídos e endurecidos, ficou assim enquanto desfiz o nó dos meus braços à volta dela e me afastei lentamente. Vesti o casaco e saí sem uma palavra. Foi nesse momento, graças ao cravo que estava preso ao bolso exterior daquela peça de roupa, que retomei a consciência que era a noite de 24 de Abril.
Foi nessa noite que conheci aquele que é ainda hoje um dos meus melhores amigos. Um homem de esquerda que me viu ao balcão de um bar a tentar afogar violentamente o meu dia num copo de uísque. Aproximou-se e deu-me um cravo novo, como que sugerindo que o meu estava amarrotado. E estava. Era o cravo e era eu, amarrotados pelo simples facto de me sentir apaixonado por uma estátua de pedra.
Contei-lhe a pequena história da minha noite. Às vezes é mais fácil despejar tudo num estranho do que num amigo de todos os dias. Existe a probabilidade de nunca mais o vermos e do nosso desabafo desaparecer com ele, da mesma forma que desaparece um vulto quando vira uma esquina no fundo duma rua. A coisa não durou muito tempo, mas terminou com o meu uísque bebido num só gole.

- Precisava de conseguir não me apaixonar. Era só isso! - pousei o copo.
- As pessoas que não se apaixonam não fazem revoluções. - respondeu.

Levantei os olhos para o mundo. A maior parte das pessoas ali presentes tinha um cravo vermelho reluzente ao peito. Reparei como todas tinham articulações. Os braços e as pernas mexiam-se ao som de músicas contemporâneas da revolução trocando abraços tão suaves quanto genuínos.
Tal como numa revolução, decidi pela primeira vez olhar para o futuro e deixar de Amar estátuas de pedra.

3.17.2014

Não chegámos a ir à Islândia!

Acabei de pegar num livro que li há alguns anos. Já não me lembro de nada do que está escrito nas suas páginas. Nem da história, nem sequer do estilo. Lembro-me apenas que gostei muito de o ler. Na verdade, é exactamente essa a memória que tenho de nós os dois. Já não faço a mínima ideia de como foram os nossos dias juntos. Sei apenas que gostei deles.
O livro chama-se Gente Independente e é de um escritor islandês. Sei isso porque uma das poucas coisas de que me lembro é que tu o conhecias. Eu não, apesar de ser eu quem o andava a ler.

- Estás a gostar? - perguntaste.
- Sim.
- Porque é que andas a ler um autor islandês?
- Porque me ofereceram este livro. Só isso.

Deste-me um abraço e afogaste a tua vontade de rir no meu peito, como se te quisesses aninhar na minha camisola de lã grossa. Achavas que era estúpido andar a ler um livro sem me informar sobre o autor. Depois respiraste fundo.

- Um dia vamos os dois à Islândia! - decidiste.
- Está bem.

Encontrei-te muitos anos depois, numa altura em que já não te aninhavas em mim. Demos dois beijos na face e perguntámos um ao outro como estávamos. Bem, respondemos abanando os ombros. De um Amor de Verão pode não sobrar quase nada, a não ser a memória de que foi bom.

- Quando duas pessoas marcam uma viagem para data incerta, para um futuro qualquer, é uma forma de prometerem que querem ficar juntas até lá...
- Não chegámos a ir à Islândia! - respondi.

Sorriste.

8.09.2013

regador

Uma mosca bate insistentemente no vidro da janela da sala, provocando um ruído constante que corta o silêncio sepulcral daquele compartimento. É a primeira vez que Sofia, estendida no longo sofá vermelho, pensa em si mesmo em termos evolutivos. A mosca, que tendo em conta as origens unicelulares da vida até pode ser considerada um animal complexo, não consegue atravessar aquela superfície transparente, nem sequer consegue chegar à conclusão que não vale a pena insistir. Ao observá-la, Sofia dá-se conta do longo caminho que foi preciso percorrer para ser ela mesma, uma mulher estendida num sofá a pensar nas incapacidades duma mosca para atravessar um vidro.
Acredita que as moscas tentam apenas prolongar a existência da sua espécie, mesmo que nenhuma delas tenha propriamente consciência disso. Está-lhes nos genes. Voam, alimentam-se e reproduzem-se. Porque é que os Homens não são assim? Porque é que na nossa espécie há indivíduos com comportamentos que se desviam desse objetivo simples? Não sabe a resposta. Sabe apenas que não a consegue encontrar dentro daquilo a que se habituou a chamar probabilística e que está, muito provavelmente, na base desta estranha forma de ser da humanidade.
 Ela própria não se entende, o que é muito mau para começar. Está ali deitada com um profundo sentimento de derrota que não consegue contextualizar em nada de concreto. Talvez apenas na sua vida toda, desde que nasceu até há poucos dias atrás. Aos trinta anos não tem família que consiga tratar como tal, pois abandonou o pai e a mãe quando tinha doze anos. Além disso nunca teve filhos, nem tão pouco um homem a que pudesse chamar seu. Não por falta de candidatos, mas sim porque nunca se interessou verdadeiramente por nenhum dos que lhe passaram pelas mãos.
Agora que pensa nisso, a única vez que esteve realmente apaixonada foi ainda na escola primária, quando um rapaz chamado Sandro se sentou ao lado dela logo no primeiro dia de aulas. Não o fez por nenhum motivo especial, mas apenas porque o professor sentou todos os alunos por ordem alfabética. Olharam um para o outro e ela cumprimentou-o com o olhar. Ele sorriu-lhe, o que foi suficiente para criar essa sua primeira paixão.
 O Sandro era um rapaz diferente de todos os outros. Não jogava futebol no intervalo das aulas, nem sequer gostava de qualquer atividade física como qualquer criança da sua idade. Passava o tempo livre sozinho, com um regador de plástico na mão a deitar água a tudo o que era árvore, flor ou até erva daninha. Todos os colegas gozavam com ele, menos a Sofia, que um dia lhe declarou Amor.

- Gosto de ti! - disse.

 O Sandro continuou a regar um canteiro de rosas como se nada fosse. Desde então, nunca mais nenhum homem a cativou da mesma maneira. É como se o género masculino fosse composto por indivíduos todos iguais. Tirando um pormenor ou outro, nenhum consegue elaborar uma frase de engate que se encaixe no que ela quer, o que é uma pena porque adora sexo.
Sempre que tem sexo, aliás, é porque engata um homem qualquer. Nunca nenhum homem a engatou a ela. Normalmente prefere tipos um pouco mais velhos, com um máximo de cinquenta anos, que se vistam discretamente e possuam um sentido de humor constante mas que não seja óbvio. Não gosta de homens com o cabelo muito comprido e detesta aqueles que são mais baixos do que ela.
Com estas exigências, consegue engatar em média um homem por semana, sempre num bar de hotel. Desta forma, tem a certeza que o companheiro sexual não é de Lisboa, a cidade onde vive, e por isso não a tornará a chatear tão cedo para um novo encontro. Tem uma vida sexual satisfatória e nunca se prende a ninguém, o que lhe parece muito bem.
Ontem à noite vestiu uma saia curta e uma camisola apertada que lhe realça a forma dos seios. Depois apanhou um táxi e foi beber um copo no bar dum hotel central da capital. Esteve ali uma hora e meia sem que nada acontecesse, a fumar cigarro atrás de cigarro e a meter conversa com o barman para matar o tempo, até que finalmente avistou uma presa.
Um homem de meia idade, ainda com o cabelo todo e pouca barriga sentou-se no mesmo balcão, a três bancos de distância, e pediu um vermute com limão. Trazia uma mala e desapertou o nó da gravata assim que a pousou. Ela aproximou-se dele e perguntou-lhe se lhe podia fazer companhia. Disse que uma amiga, com quem tinha combinado um encontro, lhe tinha telefonado a dizer que afinal não podia aparecer. Desculpa habitual neste tipo de encontros. Ele concordou, acenando afirmativamente com a cabeça.
Vinte minutos depois estavam no quarto 408. Ele deitou-se vestido e foi ela que o despiu. Começou por massajar-lhe o pénis durante alguns minutos e depois pôs-se em cima dele, penetrando-se devagar com aquela excitação que parecia duma estátua. Ele não se mexia, mas continuava com o falo ereto como se fosse de pedra. Na altura exata ela pediu-lhe que se viesse, o que ele conseguiu fazer com uma competência fora do normal.
Ao contrário do habitual, deitou-se ao lado dele e dormitou um pouco. Quando acordou estava já viciada no seu cheiro e na sua pele. Elogiou-lhe a capacidade sexual e perguntou-lhe como é que ele conseguia vir-se na hora h. Ela não estava nada habituada a homens assim. Normalmente, ou são demasiado rápidos ou extremamente lentos.
Ele explicou-lhe que nunca teve uma companheira regular, por isso habitou-se a ter sexo apenas quando consegue e com quem consegue. Apesar de poucas vezes, a diversidade deu-lhe experiência suficiente para controlar o momento do orgasmo.

- Nunca estiveste apaixonado? - Perguntou-lhe.
- Na escola primária houve uma miúda que me me disse que gostava de mim. Não lhe respondi porque estava entretido a regar rosas. Desde então, nunca mais consegui declarar amor a ninguém.

 Agora Sofia está ali, deitada num sofá vermelho a ver uma mosca bater insistentemente no vidro da janela.

4.08.2013

tenho marido na Ucrânia


Nunca pensei tornar a vê-la. Na verdade, para ser sincero, já nem tinha bem a certeza da sua existência real. Talvez tivesse sido apenas um produto da minha imaginação, naquela altura em que a minha mente criava mulheres em série, como se fosse uma fábrica no auge da sua vida produtiva.
Não a reconheci por nenhum traço fisionómico, nem sequer pelo cheiro ou pela voz. Ia simplesmente a caminhar entre a multidão quando um som se destacou na cidade. Era o bater duns saltos altos nas pedras do passeio, quase igual e tão diferente de tantos outros. Pensei: “é ela”. Olhei para trás e era mesmo.
Num quiosque mesmo ao lado vendiam-se cartões telefónicos que prometiam bastantes minutos de conversa para países como a Roménia, Ucrânia, Turquia ou Grécia. Fiquei a pensar naquela venda que tratava o tempo como um produto consumível, como se fosse um tinteiro de impressora ou um frasco de polpa de tomate. No nosso caso, o tempo tinha sido isso mesmo, um consumível de pavio curto. Se no princípio tudo me parecera bem, assim que os nossos corpos se tocaram uma última vez tudo passou a ser uma vertigem.
Eu não andava à procura de nada, nem sequer de sexo, no dia em que ela se sentou ao meu lado do balcão dum bar e me pediu lume. A sensação de poder Amar alguém estava tão distante como um barco que lentamente partira em direcção à linha do horizonte, e eu pouco mais fazia do que trabalhar e ver jogos de futebol enquanto me embebedava num tasco qualquer.

- Não fumo! - respondi.
- Ainda bem. Eu também não...

Depois sorrimos ao mesmo tempo e pedimos mais um copo. Não sei, escusado será dizer, quanto ficou o jogo dessa noite. Sei que eram seis da manhã quando ela se levantou e se foi embora sem se despedir. Eu, a fingir que dormia, deixei-a ir conforme combinado. Lembro-me do som dos sapatos de salto alto, num ritmo fora do normal. Aliás, nunca mais me esqueci.
Era ela. Reconheci-a por esse mesmo som. Olhei para trás e vi-a comprar um desses cartões que nos dão tempo como se dessem vinho. Lembrei-me do acordo que fiz com ela nessa noite e retomei o meu caminho sem lhe dizer nada.

- Tenho marido na Ucrânia. Só preciso de alguém por uma noite.
- Está bem, então... - disse.

2.26.2013

jantar inesperado

Foi dos encontros mais esquisitos que já tive com uma mulher. Não por causa dela, note-se, mas sim por causa dum amigo meu que estava apaixonadíssimo por ela. Eu nem sequer a conhecia pessoalmente. Apenas tinha ouvido falar bastante dela, através dele.
No trabalho, sempre que fazíamos o mesmo turno, ele não falava doutra coisa. Era a Dora para aqui, a Dora para ali. Enfim, não se calava com a Dora. O problema é que esse amigo meu era bastante tímido e não tinha a coragem de dar o primeiro passo. Eram os dois frequentadores do mesmo ginásio e ele até já ficava à espera que ela chegasse, para poder entrar, de forma disfarçada, mais ou menos ao mesmo tempo. Depois tentava correr numa passadeira perto dela, frequentar as mesmas aulas de exercícios que ela, etc, mas nunca lhe dirigia a palavra. Fora isso, passava o tempo todo do trabalho a falar-me dela.
Um dia lá acabou por ter coragem, penso que por ela lhe ter sorrido timidamente, e aproximou-se para a convidar a jantar fora. Só que na hora da verdade enfraqueceu e acabou por lhe dizer qualquer coisa do género: "tenho um amigo que não conheces, mas que me pediu para te perguntar se aceitas ir jantar com ele". E foi assim que acabei, num sábado ao fim da tarde, num restaurante do Porto à espera duma mulher que nunca tinha visto na vida.
Cheguei primeiro e fui bebendo uma cerveja na mesa reservada para nós. O plano improvisado era, depois do jantar, conseguir levá-la a um bar na Ribeira onde ele estaria. Quando ela se aproximou e me perguntou se eu era eu, admito que senti uma choque na espinha. Era realmente bonita e atraente. Além disso, tinha uma voz que parecia um violino sempre afinado. Tinha os cabelos relativamente curtos e loiros, uns olhos verdes do tamanho do mundo e os lábios ligeiramente sobressaídos. Sentou-se e começou a falar abertamente comigo, com um à vontade espontâneo e sedutor, enquanto eu me encolhia cada vez mais na cadeira e me refugiava nos copos que ia bebendo. 
Para além de uma beleza rara, era também capaz de falar de tudo e mais alguma coisa, mesmo daquilo que admitia não conhecer muito bem. Para mim, isso era apaixonante. Acabei por ser um ouvinte durante toda a noite e por esquecer completamente o meu amigo que, entretanto, era suposto estar à minha espera no bar. Não foi uma atitude consciente. Apenas fiquei como que hipnotizado e, quando dei por mim, estava com ela noutro numa discoteca qualquer, penso que em Leça da Palmeira. Só me lembrei dele quando, já a noite ia longa, ela me perguntou por ele. 

- Então não chamas o Daniel para vir cá ter? - perguntou.
- Posso chamar... - respondi, já sem saber o que fazer.
- É claro que eu não acredito que o jantar era para ser contigo. Ele é que é um tímido e um trapalhão. Até pensei que vocês tinham um esquema para ele se encontrar comigo depois do jantar...

Acabei por lhe confessar que me tinha esquecido totalmente do meu amigo e que, àquela hora, provavelmente ele estava com vontade de me matar num bar da Ribeira. Peguei no telefone e reparei que tinha uma chamada dele não atendida. Depois telefonei-lhe insistentemente e ele não atendeu. Acabei por desistir e sentir-me um bocado mal com tudo aquilo.
A Dora reparou que eu estava alterado, foi buscar duas cervejas e sentou-se ao meu lado, como que à espera que eu lhe contasse o meu problema. Contei-lhe tudo, incluindo que não sabia como é que ia enfrentar o meu amigo dois dias depois, no trabalho, e dizer-lhe simplesmente: "desculpa lá! esqueci-me completamente de ti no outro dia porque a miúda era mesmo gira e eu perdi a capacidade de raciocínio".

- Não faz mal! - disse ela - A mim tiraste-me duma situação que podia ser embaraçosa, porque eu não gosto dele. Aliás, nem dele nem de ti. Só aceitei jantar para me divertir à vossa custa um bocadinho. Para te ser sincera, eu nem sequer me apaixono por homens. Só por mulheres.

Tive um ataque de riso. Ela também. Nesses tempos acabou por ser uma das minhas melhores amigas, e eu acabei por contar tudo ao Daniel, que no princípio amuou durante algum tempo, mas depois acabou por esquecer o assunto.

2.20.2013

cartuchos

Existe alguma incompatibilidade entre o céu e a estrada. No céu, que parece pintado do mesmo tom de azul até à linha do horizonte, não há uma única nuvem; a Nacional 109, por outro lado, está repleta de automóveis. É como se lá em cima houvesse mais espaço para respirar do que cá em baixo, pensa Irina enquanto o taxista desliga a ignição dum Mercedes Benz 240. Ela percebe que o motor do automóvel adormeceu, mas não quer entrar em conversa com o condutor até que a música chegue ao fim. Está a passar Be My Babe, dos Ronettes, e ela ouve cada nota com os olhos postos lá em cima, na vida.
Depois a música chega ao fim.

- Não creio que o trânsito retome a marcha tão cedo! - diz o taxista que, pelos vistos, também estava à espera que a música acabasse.

Irina continua sem vontade de falar. Contempla o interior do automóvel, provavelmente construído nos anos sessenta, passando os olhos pelos luxuosos estofos de pele que ainda reluzem como novos. Depois olha para o painel de instrumentos e repara que não conhece o sistema de reprodução de som que agora já está a tocar Walking In The Rain.

- Que é isso que estou a ouvir? - Pergunta.
- Ronettes.
- Estou a perguntar pelo aparelho.
- É um leitor de cartuchos. O primeiro que veio para Portugal, logo em 1964, ano em que foram fabricados os primeiros... - o taxista é, nitidamente, alguém muito orgulhoso do seu próprio carro.
- Bonito! - Ela gostava de ter alguma coisa para dizer, mas a verdade é que não lhe surge nada.

Ouvem-se algumas buzinas desesperadas. Em alguns automóveis, os passageiros e condutores já abriram as portas para poderem esticar as pernas. Um pouco mais à frente, a uns três carros de intervalo, uma mulher abriu uma melancia e distribui pedaços por uma série de crianças. Mesmo ao lado, um homem de barba e óculos escuros devora cigarros que vai mordendo nervosamente. Irina pergunta-se quantas pessoas daquela enorme fila de automóveis já terão reparado no céu azul. Talvez nenhuma, responde em silêncio.
Nunca tinha falado com um taxista antes. Para além de serem raras as vezes em que entra num táxi, nunca lhe deu para dar confiança aos condutores, dada a sua primeira experiência uns anos antes. Um homem de meia idade e com um cheiro a suor azedo tentou levá-la para um hotel. Não forçou nada fisicamente, mas a parte verbal foi suficiente para a deixar desgastada. No entanto, este parece-lhe diferente. É mais velho, mas não é bem por isso. Alguém que tem um carro daqueles tão cuidado e que ainda ouve música em cartuchos não pode ser má pessoa. 

- Está com muita pressa? - Pergunta ele.
- Nem sei...

Na verdade, ela não sabe mesmo que pressa tem. É Domingo, zangou-se com o marido, saiu de casa e apanhou um táxi que ia a passar. Pediu para ir para o primeiro sítio que se lembrou, nos subúrbios da cidade, e agora está ali presa no trânsito, provavelmente por causa dum acidente qualquer. Foram uma série de impulsos sucessivos que a levaram a estar ali agora, mas sente-se recompensada por ter aprendido o que é um cartucho e ter experimentado a audição de um, ainda por cima num automóvel daqueles. Por impulso também, decide confiar pela primeira vez num taxista e conta-lhe a história.
Repara agora que ele tem um pescoço razoavelmente gordo, que começa a pingar algumas gotas de suor. Os seus olhares trocam-se pela primeira vez, mas através do velho espelho retrovisor.

- Se não está com pressa para ir a lado nenhum, só tem duas alternativas - afirma ele.
- Quais?
- Ou passa grande parte da tarde aqui comigo a ouvir música dos anos sessenta, ou sai e volta para trás a pé. No segundo caso, só lhe cobro a viagem até aqui.

Existe alguma incompatibilidade entre o céu e a estrada. O céu parece fresco e vigilante; o alcatrão quente da estrada, por seu lado, parece derreter a cada passo duma mulher que caminha entre centenas de automóveis parados. Ela não sabem bem porquê, mas cada vez que avista um Peugeot 405 branco examina com atenção a face do condutor. Pode ser o seu companheiro.

1.21.2013

meia hora de vida

A primeira coisa em que pensei foi em recusar o convite. Afinal de contas, embora gostasse muito da Vienna, a impressão que eu tinha é que ela era dum meio social muito diferente do meu. Vestia-se com muito cuidado e tinha um comportamento, vá lá... bastante fino para aquilo que eram os meus padrões. Na verdade, só ficámos a falar um com o outro porque eu achei piada ao facto de conhecer uma Vienna no primeiro dia em que estive na capital da Áustria. 
Eu andava de mochila às costas há algumas semanas pela Europa e, para ser sincero, com um aspecto já bastante sujo e descuidado. Numa rua qualquer ela veio falar comigo e avisou-me que não devia continuar naquela direcção por causa dum grupo de extrema direita que estava uns metros à frente. Não gostavam muito de estrangeiros e podiam tornar-se agressivos. No princípio fiquei um bocado assustado e perguntei-lhe por onde é que devia seguir, pois nem sequer fazia a mínima ideia onde estava, e ela acabou por me convidar para beber uma cerveja num sítio seguro.

- I'm Vienna! - Disse ela.
- Are you Vienna or do you live in Vienna? - perguntei.
- No, no... my name is Vienna. - sorri.

E foi assim que começou a nossa conversa. Ela era loira, tão loira e tão bem vestida quanto uma actriz de cinema consegue ser. Bastante bonita e energética. Não demorou muito a perceber que eu estava praticamente sem dinheiro e que andava a pé porque um bilhete de metro custava, já naquele ano de mil novecentos e noventa e cinco, o equivalente a seiscentos escudos. Uma brutalidade, portanto. Disse-lhe que ia apanhar um comboio às seis da manhã para Praga e, por isso, nem sequer ia dormir em lado nenhum, o que era verdade. Pagou-me duas cervejas que custaram também um balúrdio e convidou-me para uma festa na casa dela nessa mesma noite.Assim, poderia sair da festa e ir directamente para a estação de comboios.
Aceitei um papelinho com uma morada escrita à mão, pensando que nunca na vida a iria procurar, e por isso despedi-me dela com um "see you!" acreditando que, na verdade, nunca mais a veria. À noite, no entanto, e porque a solidão começou a pesar, acabei por ir dar à casa dela depois de ter conseguido comprar uma garrafa de vinho português num supermercado. Assim que entrei, perguntei por ela, pois foi um desconhecido que abriu a porta e eu não sabia mais o que dizer. Um homem alto e muito magro mandou-me entrar, ofereceu-me uma cerveja, fez-me algumas perguntas por causa da garrafa que eu lhe entreguei e apresentou-me algumas pessoas. Ele, pelos vistos, também não conhecia todos os presentes. A Vienna, entretanto, tinha ido a um sítio qualquer e não ainda não tinha chegado.
Acabei por me sentar numa cadeira que tinha outra igualzinha mesmo ao lado, onde acabei por ficar quase uma hora. A cadeira ao lado da minha estava livre e, por isso, de vez em quando alguém se sentava ali e começava a falar comigo sem mais nem menos. Alguns, que não sabiam que eu era português, falavam em alemão, ao que eu respondia sempre da mesma forma, dizendo em inglês que não estava a perceber.
Durante esse tempo reparei numa mulher que, por qualquer motivo, me interessou bastante. Não é que fosse especialmente bonita (a Vienna, por exemplo, era muito mais atraente). Foi qualquer coisa daquelas que não conseguimos explicar, mas que faz com que de repente não pensemos em mais nada senão em conhecer aquela pessoa. Como quase todos os presentes estavam a rodar pela cadeira junto à minha, decidi ficar ali sentado à espera que chegasse a vez dela. Dessa forma poderia meter conversa discretamente, com o álibi de quem nem sequer tinha sido eu a ir ter com ela. 
Pois bem... acho que ela foi das únicas que não se sentou ao meu lado. Na verdade, nem sequer olhou para mim durante todo esse tempo. Comecei, de certa forma, a ficar angustiado. Como tinha que ir embora, sabia que o tempo para a conhecer estava a passar e era limitado, como se de uma ampulheta se tratasse. Quando a Vienna chegou, finalmente, percebi que elas eram uma espécie de melhores amigas. Só nesse momento é que a conheci, pois foi-me apresentada. Chamava-se Lena e era portuguesa. Pelos vistos, a Vienna tinha-me dito que tinha uma grande amiga portuguesa mas eu, distraído como sou, nem sequer tinha ouvido.
Nesse momento, e porque entretanto já tinha bebido algumas cervejas, expliquei-lhe que tinha estado a noite toda à espera que se sentasse ao meu lado, só para a poder cumprimentar. Ela, não gostando muito do rumo da conversa, afastou-se. Lembro-me que fiquei desiludido e com uma pequena dor de barriga.
Eram cerca das cinco da manhã quando peguei na mochila para me ir embora e comecei a despedir-me dos poucos que ainda estavam presentes. A Lena era uma delas e ficou surpreendida. Expliquei-lhe que tinha um encontro em Praga nessa mesma tarde e tinha que mesmo que ir. Ela, para minha surpresa, ofereceu-se para me acompanhar à estação e foi assim que tive, muito provavelmente, umas das melhores meias horas da minha vida.
Nessa meia hora de vida apaixonei-me totalmente e, antes de entrar para o comboio, procurei-lhe no fundo dos olhos aquela sensação que tinha encontrado nas suas palavras: a de que valia a pena eu mudar de planos por uma incerteza. Tive dúvidas, para ser sincero. Trocámos contactos, um beijo tímido nos lábios e eu despedi-me. Nunca mais a vi.

1.16.2013

Amor à porta duma casa de banho

Conheci a única mulher com quem tive filhos na porta da casa de banho de um café. Dito assim pode parecer estranho, mas é verdade. Foi há muitos anos, no café Palácio em Aveiro. A casa de banho dos homens estava ocupada e fiquei à espera na entrada, talvez uns dois minutos. Ela estava numa mesa próxima e começámos a falar um com o outro.
Isto não é importante, mas penso muitas vezes como teria sido a minha vida se nessa noite não tivesse ido à casa de banho daquele café. Muito diferente, certamente. Não tinha passado dezasseis anos com ela e a minha filha não existia. Talvez nem tivesse filhos, mas se tivesse seriam outros. 
Não acredito no destino, mas acho mesmo muito interessante a forma como a probabilística nos molda a vida. A maior parte do tempo nem pensamos nisso, mas pequenas coisas sem importância nenhuma podem mudar significativamente o rumo da nossa vida.

Estava a detestar a sensação de ver os assuntos entre nós morrer rapidamente. Eu dizia qualquer coisa e ela nunca tinha resposta. O mesmo se passava no sentido inverso. Era como se a nossa conversa fosse composta por peças de puzzles diferentes. Estava a detestar o facto, principalmente porque sabia que a Irina era mulher para se levantar e ir embora ao mínimo suspiro. É que a mim agradava-me estar perto dela, mesmo quando as conversas não passavam de meras tentativas de encontro, e aquele fim de tarde no café estava a saber-me bem.
Eu estava a folhear o mesmo jornal pela quinta ou sexta vez, apenas para justificar a minha presença ali. Assim, evitava estar a olhar para ela frente a frente, sem termos nada que dizer um ao outro. Acho que ela se apercebeu, porque a certa altura passei três ou quatro folhas sem sequer olhar para elas. Foi então que se referiu a um livro qualquer que andava a ler (não me lembro do autor nem do nome) em que duas pessoas se apaixonavam na porta da casa de banho dum café.

- Na porta da casa de banho dum café?! - Perguntei. - Foi assim que conheci a minha ex-mulher...
- Que lindo! E também decidiram fazer uma viagem os dois até um país distante?
- Não. Decidimos tomar café uns dias depois. Porque é que eu havia de fazer uma viagem com uma pessoa que eu mal conhecia?

Senti o peso do olhar desiludido da Irina por, mais uma vez, ter estragado uma conversa que estava a começar. A ela apetecia-lhe falar sobre uma surreal aventura amorosa qualquer, eu estava muito terra-a-terra nesse dia. Ela acabou, uns cinco minutos depois, por se levantar e despedir-se.

- Vou andando! - disse.

Pedi uma cerveja e fiquei ali mais uma meia hora sem fazer nada de interessante. Uma espécie de meia hora vegetativa a ter pensamentos que eu próprio não poderia descrever, como se não fosse eu a tê-los realmente e não passassem dum ruído de fundo qualquer. Do televisor, por exemplo.
Uma mulher entrou no estabelecimento e foi directamente à casa de banho. Ao abrir a porta bateu de frente num homem que ia a sair. Ficaram ali uns segundos a falar um com o outro e depois acabaram sentados ao balcão, lado a lado. Primeiro com um banco de intervalo entre eles, depois ele moveu-se para mais perto dela. Pareceu-me que era a primeira vez que estavam a falar, mas talvez já se conhecessem.
A minha coincidência desse dia foi outra. Se a Irina tivesse ficado mais algum tempo no café, talvez tivesse visto aquela cena e teríamos certamente motivo de conversa. Talvez ficássemos o dia todo um com o outro, jantássemos juntos, bebêssemos um copo num bar pouco frequentado ou fôssemos ao cinema. Não aconteceu. Acho que passei a vê-la com menos frequência desde esse dia.
Nunca consegui contar-lhe isto, principalmente porque sempre achei que ela ia pensar que eu estava a mentir.

12.21.2012

a segunda impressão

De vez em quando acontece interessar-me muito por uma mulher. Utilizo o verbo interessar sempre que conheço alguém por quem não me apaixono de maneira nenhuma mas por quem, de forma muito regular, me vou imaginando apaixonado. Normalmente isto acontece-me por um facto muito concreto, uma característica específica da mulher que pode ser física ou psicológica, e adoro que me aconteça porque, na verdade, é muito confortável estar interessado por alguém sem qualquer paixão envolvida.
Apaixonado, perco muitas vezes o discernimento. O coração bate mais depressa e os pensamentos tropeçam nas palavras que me vão saindo da boca. Há uma sensação de euforia que se vai misturando com a de frustração, o que pode dar um cocktail emocional explosivo. Assim, apenas interessado, consigo apreciar a coisa com a Razão e, em abono da verdade, adoro isso. Adoro isso, claro, quando já estou apaixonado de forma correspondida e por isso não tenho a necessidade de me apaixonar mais.
Uma vez interessei-me por uma mulher sem estar apaixonado por ninguém. Vivia sozinho e, para ser muito sincero, acho que foi a única vez que me aconteceu. Foi estranho porque o que me interessou nela foi perceber que era uma mulher desprendida de tudo. Conheci-a numa festa em casa de uns amigos comuns, enquanto abria o frigorífico para tirar uma bebida e, como ela estava logo atrás de mim, lhe perguntei se queria cerveja ou vinho branco.

- Qualquer coisa! - disse estendendo-me um copo vazio de plástico.

Servi vinho branco aos dois e passámos o resto da noite a conversar numa enorme varanda que a casa tinha. Para além de desprendida, ela tinha uma surpreendente resistência ao álcool, de tal forma que bebemos uma garrafa de vinho cada um e ela, pelo menos aparentemente, ficou na mesma. Enquanto bebíamos e conversávamos, reparei que ela conhecia quase toda a gente naquela festa, onde deviam estar umas cinquenta pessoas, enquanto eu conhecia apenas três ou quatro.
Foi esse facto que fez com que ficássemos amigos. Quando lhe disse que ela era muito popular, ela respondeu que tinha tantos amigos que apenas costumava ficar sozinha na noite de Natal, o que achava óptimo. Ora, por essa altura também eu passava todas as noites de Natal sozinho, normalmente a jogar computador até de manhã.
Na noite de Natal, todas os nossos amigos estão com as suas famílias. Eu e ela, por assim dizer, estávamos divorciados e não tínhamos família para isso, por isso acabámos por combinar passar juntos a noite de vinte e quatro de Dezembro, que seria daí a três ou quatro dias. Passei assim, nesse ano, o Natal com uma mulher que mal conhecia.
Para além dum bacalhau assado com batatas e couves cozidas, enchi o frigorífico de vinho branco e esperei que ela chegasse para jantar, o que aconteceu à hora prevista. Abri a porta, ela entrou, cumprimentou-me e entregou-me uma prenda que me fez sentir um bocado envergonhado, pois eu não lhe tinha comprado nada.  Era um moleskine.
Durante o jantar reparei em coisas dela em que não tinha reparado na festa. Por exemplo, que tinha um sinal no queixo e que uma das suas orelhas estava rasgada na parte inferior, como se alguém tivesse ali chegado e cortado a pele como se fosse uma folha de papel. Era magra e bastante bonita, de cabelos curtos muito pretos que contrastavam com a pele muito branca.
Quando acabámos a sobremesa ela fez-me um pedido muito estranho. Pediu-me que lhe indicasse uma cama, pois estava muito cansada e precisava dormir, e que escrevesse no moleskine, durante o sono, tudo o que pensava dela. Obedeci sem perguntar porquê.
Quando ela acordou já eu estava com o livro fechado e a caneta no bolso, bebericando um pequeno copo de uísque. Ela sorriu-me.

- Escreveste alguma coisa?
- Sim... como te conheço mal, chamei ao texto "a segunda impressão". A primeira impressão foi a que tive quando te conheci. Queres ler?
- Não! - respondeu ela sem hesitar.
- Não?!
- Não. Pedi-te que escrevesses sobre mim para que um dia mais tarde haja a possibilidade de leres isso e de te lembrares desta noite. Convenhamos que passar o Natal com uma mulher acabada de conhecer é estranho, e é essa a minha prenda para ti: uma memória única. Nunca fizeste isso com mais ninguém, pois não?

Arrumei o moleskine num armário, entre vários livros esquecidos e confortados pelo pó. Hoje, alguns anos depois, abri-o de novo pela primeira vez. Li o texto e regressei a essa noite, que foi tão estranha quanto agradável. Depois tornei a fechá-lo e coloquei-o no mesmo sítio. Foi a minha prenda de Natal, essa memória. A segunda impressão.

12.13.2012

está uma noite óptima para nos pormos a caminho de lugar nenhum.

Não sei bem o que é me levou a dizer-lhe aquilo. Se acreditar que as coisas podem sair do nada, então diria que foi isso mesmo que aconteceu: saiu-me do nada. De qualquer maneira não acredito nisso, por isso limito-me a assumir que não sei porque é que aquelas palavras me saíram da boca.
Estávamos de férias num parque de campismo há alguns dias, algures no norte do país, ambos hesitantes em começar um romance. Era de noite. Por um lado queríamos dormir juntos, por outro tínhamos medo de o fazer. Acho que é sempre assim quando se  gosta muito de alguém mas não se está apaixonado. Perguntei-me muitas vezes sobre o que devia fazer naqueles momentos em que nos abraçávamos ou encostávamos a cabeça um no outro. E agora? Beijo-a? Digo-lhe que a Amo? Nunca me decidi por nada, a não ser por lhe dizer a coisa mais absurda do mundo. Do nada.

- Está uma noite óptima para nos pormos a caminho de lugar nenhum.

Ela olhou para mim e, ao contrário do que eu tinha imaginado, concordou com a minha ideia nonsense. Obrigou-me a desmontar a tenda, a arrumar a mochila e, depois de acordar um homem que dormia ao balcão da recepção, acabámos por nos pôr a caminho através das estradas sinuosas do distrito de Bragança, onde tínhamos chegado de autocarro e à boleia de um amigo.
Caminhámos a noite toda numa conversa amena, até a Lua se cansar de nos ouvir e se ir embora sem dizer adeus. Lembro-me que acabámos por montar a tenda junto a uma curva onde havia uma fonte e, a alguns metros, uma árvore com sombra suficiente para não morrermos com aquele calor abrasador próprio do Verão transmontano. A minha tenda montava-se em três segundos. Bastava atirá-la ao ar e já estava. Foi o que fizemos e, dado o cansaço, adormecemos imediatamente os dois.
Não me costumo lembrar dos meus sonhos, mas sei que nessa tarde sonhei com ela e com as histórias que ela tinha acabado de me contar nessa viagem a pé pela Via Láctea. Era uma história qualquer sem grande romance, mas que eu tinha ouvido com a maior das atenções. Era sobre coelhos.
Ela gostava muito de animais, particularmente de coelhos. Tanto, que fazia colecção de coelhos de toda a espécie e feitio: de peluche, de louça, de plástico e até um de arame, feito por um artesão boliviano qualquer com quem tinha namorado no passado. Quando o tal artesão voltou para a Bolívia ainda estavam apaixonados,. Ele prometeu-lhe fazer um coelho tão grande quando lá chegasse, que ela havia de o ver deste lado do Atlântico. Durante muito tempo, apesar de ela não acreditar que isso fosse possível, ia à janela todos os dias para procurar o tal coelho gigante.
Pois bem, eu sonhei que tinha construído esse coelho. Era tão grande que, quando estávamos em cima dele, podíamos praticamente tocar nas nuvens. Acho que acordei no momento em que lhe perguntei se ainda se lembrava do boliviano e ela me respondeu que tinha esperança que ele, da janela de casa dele, visse aquela minha construção e se lembrasse dela.
Quando lhe contei o sonho, que ao fim e ao cabo não passava dum sonho estúpido, ela riu-se e deu-me um beijo furtivo nos lábios. Depois tirou duas maçãs dum saco de plástico, limpou-as à própria camisola e deu-me uma enquanto trincou a outra de forma a prendê-la na boca.
Esse foi o único beijo que demos, mas a verdade é que sinto que gostei realmente dela, sem nunca me ter apaixonado. É uma sensação difícil de explicar porque nunca foi clara para mim próprio. Para ela, aliás, também não. De tal forma que quando acabámos por ter uma conversa séria sobre o assunto, sobre a nossa proximidade tão pouco consumada fisicamente, ela respondeu-me que o melhor, quando estivéssemos a sentir que íamos passar uma certa barreira, era começarmos a caminhar para lugar nenhum.
Percebi-a imediatamente e, apesar da minha ideia ter vindo do nada, acabou por encontrar o seu próprio contexto.

11.17.2012

casamento


Já não me lembro porque é que disse aquilo à minha mulher. Talvez o elevador do hotel me tenha dado a sensação de que o mundo não ouviria, que aquilo ficaria um segredo entre nós. Sei lá, que talvez aquela ideia absurda nem sequer ousasse sair dali, daquele pequeno compartimento que mais não faz do que transportar pessoas de um andar para outro. Sei que ela nem sequer respondeu e o silêncio que se fez a seguir foi, talvez, o silêncio mais pesado que senti na minha vida inteira.

-Talvez me venha a arrepender de ter casado contigo.

Admito que a minha primeira preocupação foi ter estragado, eventualmente, a noite de núpcias. Não que naquela altura andasse propriamente com a libido no máximo, mas sempre tinha tido essa ilusão de ter sexo num hotel caro com uma mulher vestida de noiva.
Na verdade, eu tinha casado com ela porque estava completamente apaixonado e porque tínhamos uma vida sexual bastante boa. Casei, portanto, sem a mínima dúvida sobre o que estava a fazer. Mas depois, durante o casamento, e por causa dum pequeno gesto que não me saiu mais do pensamento, pensei que talvez me pudesse arrepender.
Tinha chegado a hora de irmos falar com todos os convidados, um por um, mesa por mesa, e eu abracei-a como sempre tinha feito durante os anos de namoro. Ela tirou o meu braço dos ombros e cruzou-o com o dela. Em vez de irmos abraçados, fomos apenas de braço dado.

Há convidados respeitáveis. - disse – Portemo-nos como pessoas casadas.

Foi a primeira vez que pensei que não conhecia totalmente a mulher a quem tinha acabado de prometer passar o resto da minha com ela. Talvez houvesse uma mulher antes do casamento e outra depois do casamento, como muitos amigos meus já casados, alguns até já divorciados, me tinham avisado. Por um segundo não a reconheci nem no seu comportamento, nem sequer no seu timbre de voz.
Ela sentou-se num dos sofás da suite do hotel. Numa das paredes estava pendurado um quadro para o qual eu não conseguia deixar de olhar. Era uma pintura assumidamente abstracta mas que, pelo menos para mim, se assemelhava como figurativa. Um borrão que desde o primeiro momento me parecera um bando de pássaros a levantar voo numa floresta densa, talvez por ter havido um disparo duma arma.

Nem sequer vais olhar para mim? - Perguntou.
- Estou a contar fazer mais do que olhar. - respondi sem tirar os olhos do quadro.

Ela não se riu. Pelos visto, o segredo que eu lhe contara no elevador tinha passado para o nosso quarto de hotel, talvez até para a nossa vida. Achei melhor enfrentar a situação que eu próprio tinha criado, em vez de contorná-la como era meu hábito.

Estou com medo de não saber com quem casei.

Enfrentei-a olhos nos olhos. Ela tinha uma expressão nova, como se de repente se tivesse transformado numa estátua zangada. Eu próprio me assustei e decidi mudar de estratégia. Lancei-lhe um anzol, algo a que ela pudesse responder facilmente, para ver se aquele momento de tensão acabava. Dizendo-lhe o que sentia duma forma mais suave do que a realidade.

Não sei o que se passou comigo. Fiquei com medo que tu mudes. Na verdade fiquei com medo de te perder de repente. Nem sei bem porquê.

A estátua voltou a ser pessoa. Aproximou-se, segredou-me que eu era um tolinho e fizemos Amor. A paz tinha voltado. No entanto, cinco minutos depois de ter casado, já me sentia preso a algo maior que o próprio casamento.