3.15.2017

E então vou de pé

E então vou de pé.
É que nunca me sento quando viajo de metro à hora de ponta, mesmo que na estação onde eu normalmente entro ainda costume haver alguns lugares livres. Sei que é uma questão de tempo, pouco, até que pessoas mais velhas do que eu invadam o espaço e o preencham como se fosse um ovo.
E então vou de pé.
A minha mão agarrou-se a um varão horizontal como se a minha vida dependesse disso. A vida não, mas o equilíbrio do corpo sim. Toda a força que faço está concentrada nos meus dedos para contrariar a aceleração e a desaceleração da carruagem.
E então vou de pé.
Ali dentro todos os olhares se escondem, a maior parte deles no ecrã de um telemóvel ou num livro. Os outros, aqueles que não têm um esconderijo próprio, colam-se a coisas tão absurdas como os próprios pés ou o vazio. Se fosse possível desenhar uma recta a partir de cada um desses olhares, tenho a certeza que nenhuma delas tocava noutra. É estranho, todos os olhares irem dar a um infinito dentro de uma carruagem de metro que me parece tão finita.
E então vou de pé e pergunto-me se a vida é só isto: uma viagem matinal para um trabalho que permite a toda a gente viver uma vida de que, pelo menos neste momento, parece não gostar muito. Pergunto-me se a vida é um homem cujo olhar se derreteu na palma da própria mão, uma mulher que encostou a cabeça a um vidro trémulo ou esta voz repetitiva a anunciar cada estação que se aproxima.
E então vou de pé. A vida é só isto?
Sou um explorador numa densa e quieta floresta de braços e pernas. Silenciosa também. Sem bússola, os meus olhos percorrem-na como se fossem uma afiada catana. Descobrem um outro olhar, também perdido, que talvez se pergunte o mesmo. Diz-me adeus. Respondo com um sorriso. É uma mulher a quem pedi ajuda uma vez quando estava totalmente perdido num dos bairros da cidade.
E então vou de pé. Já sei que a vida não é só isto.

9 comentários:

alfacinha disse...

Ir de pé é com certeza absoluta mais saudável
Abraço

redonda disse...

Quando andava de metro ou de autocarro também ia normalmente de pé e lembro-me dos olhares desencontrados e gostei da resposta da a vida não ser só isto por um encontro de alguém que se reconhece.
um beijinho

L. das horas disse...

Muito bom. Adorei ler.

Cláudia Leister disse...

Lindo texto!

Bagaço Amarelo disse...

alfacinha, e então quandas passas todo o dia sentado... ;)

redonda, beijinho, :)

L. das horas, obrigado. :)

cláudia leister, obrigado. :)

Cisne disse...

É isto. =/

Bagaço Amarelo disse...

cisne, :)

Pequeno caso sério disse...

Senti exatamente a mesma coisa na última vez que andei de comboio durante as minhas férias de verão. Lembro-me de ter pensado de que se a coisa desse para o torto era muito fácil morrer ali de tão cheio que ia. No meio da confusão duas coisas engraçadas : um
'Tuga que vinha do trabalho e com quem viemos na galhofa o caminho quase todo e de quem soubemos toda uma vida e uma árabe que, num gesto de afeto,ofereceu um rebuçado à minha filha.
Às vezes, ir de pé, compensa.
;)

Bagaço Amarelo disse...

Pequeno caso sério, :)